sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Release Amigo: Morros Velados - Luiz Pizarro
Nenhuma outra expressão poderia sintetizar de maneira mais abrangente e exata tudo o que Luiz Pizarro gostaria de dizer com esta exposição. No título “Morros Velados”, o adjetivo tem três sentidos que resumem a poética do conjunto de obras do artista expostos no foyer do MAM RJ de 11 de novembro a 3 de janeiro de 2010.
Desde 1997, quando morava na Alemanha, o artista desenvolve uma técnica com a qual consegue gravar na parafina imagens antes em papel. Após pesquisa por fotografias em preto e branco registradas por turistas estrangeiros nas favelas cariocas, o artista refragmenta estas comunidades e as reconstrói de modo a formar famosos relevos do Rio de Janeiro ainda inabitados, como o Pão de Açúcar, o Corcovado, a Pedra da Gávea, o Dedo de Deus, etc. Sempre obstinado a fazer trabalhos quase artesanais e com materiais de baixo custo, Pizarro utiliza, nesta série, parafina derivada do derretimento de velas. E eis os Morros, feitos com velas, Velados.
Os 20 quadros de pequeno e médio formatos expostos sobre uma parede colorida em azul escuro de 12 metros de extensão remetem às tão cantadas luzes dos morros cariocas à noite. Pizarro acredita que as favelas são o único tipo de sistema que funciona no Brasil e que, mesmo desorientado e no caos, segue em algum desenvolvimento. É um organismo vivo imperado pelo vazio de poder. Pizarro é um artista indignado que descobriu uma maneira poética de ser político, que acredita que o cidadão carioca vive em cega letargia, que todos os tipos de sofrimento que habitam as favelas do Rio de Janeiro são escondidos em nome de uma auto-estima ufanista eufórica. Eis os Morros, escondidos, Velados.
Mas o impacto primeiro que Pizarro procura, antes do discursivo ou semântico, é o visual. A plasticidade e a luminosidade da matéria com a qual trabalha são elementos que realmente interessam ao artista. Jogando e, virtualmente, criticando o distante olhar dirigido pelos estrangeiros e brasileiros às favelas cariocas, Pizarro remonta ao nome da técnica inventada pelos pintores renascentistas para representar, com perspectiva aérea, as montanhas italianas: Veladura. Eis os Morros, vistos de longe, Velados.
A exposição terá abertura com coquetel para convidados no dia 11 de novembro às 19h e para o público a partir do dia 12 de novembro. O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro fica na Avenida Dom Henriques, 85, Parque do Flamengo e funciona de 3ª a 6ª feira das 12 às 18h e Sábados, Domingos e feriados das 12 às 19h. O salão de exposições não estará aberto nos dias 24, 25 e 31 de Dezembro e no dia 1º de Janeiro.
Crítica: Antônio Conselheiro Não Seguiu o Conselho - David Cury
Para ver, com o corpo, magia sem mistério.
David Cury não se cansa de afirmar que seu trabalho tem "um pólo na vida e outro na arte", mas, mais do que isso, a obra do artista constrói e habita a interseção entre a vida e a arte. As três obras que compõem a exposição aberta no dia 25 de agosto no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, mesmo que plasticamente bastante divergentes, convergem na temática de seus impulsos: a questão da posse de terra no Brasil.
Após a subida do caracol reidyniano entre o 1o e o 2o andar do MAM RJ, uma parede branca de 240 metros quadrados se mostra tomada em toda sua extensão por quatro milhões de etiquetas vermelhas redondas de um e dois centímetros de diâmetro. É o pulsante site specific "Eis o Tapete Vermelho Que Estendeu o Eldorado aos Carajás”. O trabalho certamente dialoga com os muralistas e com os fisiologistas do olhar do início do século passado, mas, talvez, sua relação mais intrínseca seja comum certo pintor holandês.
É bom que seja explicado: no final dos anos 80, David iniciou uma série de trabalhos na qual fazia Van Gogh e o francês Yve Klein dialogarem. Lamentando pelo fato da biografia de Vincent ser mais estudada e comentada do que sua produção, Cury afirma ter tentado “transformar a suposta loucura de Van Gogh em camisa-de-força". Para David, tentando talvez afirmar a própria lucidez, é preciso muita sanidade mental para alcançar a firmeza de decisão necessária à invenção e à afirmação de uma engenharia pictórica bem estruturada sobre a tela. Após observar um padrão de pincelada semicircular inventada por este artista, David o reproduziu geometricamente, criando assim um molde rígido que passaria a guiar seu trabalho desde então.
Nos primeiros anos que se seguiram, David utilizou-o com tinta acrílica (produzida por ele mesmo) sobre pequenas telas, mas em meados da década de 90, o artista passou a trabalhar com o molde da pincelada conceitual em grande escala sobre telas de maior formato utilizando como matéria pictórica o pó de grafite, discutindo, assim, as relações e fronteiras estabelecidas ou confusas entre o desenho e a pintura. Na ocasião do Ano do Brasil na França em 2008, David foi convidado pela Funarte a levar e expor um trabalho em solo francês. Foi, então, que, com uma idéia surgida do encontro casual de etiquetas pretas redondas em uma gaveta de seu atelier, Cury montou "Há Vagas de Coveiro para Trabalhadores Sem Terra". Nesta conceitual pintura exposta no Carreau du Temple em Paris, os moldes vangoghianos de David foram preenchidos pelas negras etiquetas e justapostos de maneira a preencher a parede completamente.
Para o site-specific no MAM RJ, foram necessários mais de 40 artistas auxiliando David durante 10 dias de montagem. As soluções dadas ao trabalho só surgiram no decorrer da etiquetagem e o resultado, como era de se esperar, acabou bem diferente do irmão nascido em Paris. Completar a parede utilizando a justaposição do primeiro trabalho de David com etiquetas seria quase impossível em uma parede que possui área maior do que uma quadra de voleibol, e a consciência disso acabou por dar maior liberdade ao projeto, de modo que, ao invés de um painel homogêneo, foi elaborado uma grande mancha nos 3 metros próximos ao chão com hifas que sobem em direção à parte superior da parede, aonde manchas e etiquetas soltas convivem quase que cosmicamente.
Entre as etiquetas emparedadas e o mezanino do 3o andar do MAM, do negro piso se ergue "Há vagas de coveiro para trabalhadores sem terra": um enorme paralelepípedo (3mx5mx9m) formado a partir de 2500 placas de fibra de coco. Na discussão da questão agrária brasileira, a infertilidade da placa de coco (usada como substituta do xaxim no suporte de plantas não-comestíveis como samambaias, orquídeas e bromélias) soa como árida metáfora dos projetos de reforma agrária "ornamentais" e não-estruturais constantes na história brasileira.
A enorme escala do projeto remonta a formação do artista em arquitetura na UFPE, depois de sua saída de Teresina e antes de sua vinda para o Rio de Janeiro. A reação comum aos visitantes é contornar a obra. Talvez para encontrar alguma entrada, talvez apenas para ver o que não se vê deste lado, mas, neste percurso no grande vão gelado do salão de exposição, o que mais inevitavelmente reparamos é o fato de que, em cada uma das quatro faces, algumas placas de fibra de coco se projetam em direção ao expectador. De certo modo, este foi um recurso para fugir da simetria publicamente rejeitada por Cury, um artista anti-compositor.
Apenas se observando do terceiro andar percebemos que o formato da instalação remete ao seu título. As paredes de fibra de coco formam um profundo retângulo em material de aspecto terroso do qual, pela escuridão, não se consegue ver a base. É uma cova. E é a metáfora possível do poço sem fundo que pode simbolizar as condições terríveis e sem perspectiva em que (sobre)vivem os trabalhadores sem terra no Brasil.
Obviamente, não é à toa a repetição do título "Há vagas de Coveiro pra trabalhadores sem terra" na parede com etiquetas pretas de Paris em 2008 e no paralelepípedo fibroso do Rio agora em 2009. A idéia primeira de David para o Ano brasileiro na França era montar uma obra com projeto semelhante a esta que está no MAM RJ com as placas de fibra de coco, mas, pela falta de patrocínio na época, Cury acabou por, com o mesmo impulso (e, por isso, com o mesmo título), fazer o trabalho das etiquetas pretas.
Espia-se por trás do orgânico mausoléu popular e se vê reflexos fixos em uma parede alvíssima. O olhar desce gravitando, percorre alguns palmos e encontra uma placa de vidro esverdeada equilibrada entre o branco e o oxicrete. Sobre este chão, a despotência do que um dia foi uma placa como aquela e que, agora, é pedaço, grão e pó. O surpreso e curioso invade com ansiedade a sala que então se descobre. Seis caixas utilizadas em transporte de obras de arte são alinhadas transversalmente ao espaço. Em volta delas, como se escorressem, estão mais de 1500 longas lâmpadas brancas frias, sobre e envolta das quais repousam dezenas de outras placas de vidro (verdes, transparentes, marcadas, enferrujadas, limpas, grossas, finas, frágeis, jateadas, quebradas, estilhaçadas, desaparecidas, talvez até inteiras). Nas alças e dobradiças das caixas, nos furos dos vidros e nas superfícies das paredes, apóiam-se tiras de alumínio flexionadas e pesadas barras sólidas de metal.
De início, o que se vê parece inexplicavelmente chocante. Logo se percebe que estamos presenciando um flagrante de guerra. Assim foi também com David Cury após a montagem da 1a versão deste trabalho em exposição na Funarte em 2002. Pensando sobre quais seriam as origens possíveis, em seu imaginário, da concepção daquela obra, Cury recordou os três painéis de "A Batalha de São Romano" do italiano Paollo Ucello. Segundo Cury, estas pinturas retratam a luta entre a Itália oficial da realeza e a Itália oficiosa popular. Fazendo comparação com nossa História Brasileira, David encontrou um evidente paralelo no caso de Canudos: o mais violento massacre desse tipo no Brasil. Por isso o título "Antonio Conselheiro não seguiu o Conselho". Os estilhaços, as lanças, as armas, os rasgos, os corpos, o sangue: tudo isso estava em Canudos; tudo isso estava em Paollo Ucello; tudo isso está obra de David.
Há um desconforto latejante inerente a esta instalação. A atração que nos provoca é perigosamente proporcional a nossa certeza de que algo está prestes a acontecer. A guerra cujos vestígios encontramos a qualquer momento recomeçará e - quem sabe? - de historiadores arqueólogos passaremos a testemunhas vítimas. Um passo fora do lugar, uma palavra mais alta, uma respiração mais forte e -temos certeza- as partes entrariam mais uma vez em conflito.
Ainda que as três obras remetam a três momentos críticos da historia social brasileira, David Cury recusa o rótulo de artista político. Nega inclusive que a exposição "Antonio Conselheiro Não Seguiu o Conselho" seja política. De fato, a classificação em si pouco importa. O mais interessante da mostra aberta dia 25 de agosto no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro é como a obra de David vai além da competente conjunção do tão necessário e falado par ética-estética. Mesmo que esse conjunto de trabalhos tenha suas referências bem distintas na história da arte (do muralismo e pontilhismo, passando pela arquitetura e pelo barroco, até o minimalismo e a arte povera), há, em todo momento, uma conversa crítica com a arte conceitual. Ao mesmo tempo em que esta referência está evidentemente intrínseca nas obras expostas, o trabalho de David nega parte do caminho que os artistas contemporâneos deram ao conceitualismo. Se os trabalhos de arte passaram a ficar cada vez mais dependentes dos textos por influencia também dessa corrente, David decide deixar pistas nas próprias obras para o entendimento de suas poéticas.
Se na mancha vermelha de etiquetas próxima ao chão não é fácil identificar a pincelada vangoghiana, há, no centro da enorme parede, uma nuvem em que apenas os contornos dos moldes em semi-curva são marcados com as etiquetas maiores. Se é difícil identificar o material do grande paralelepípedo, as placas que se projetam ao espectador indicam a fibra de coco e a metáfora da infertilidade. Se, podemos acreditar que há algum tipo de real estabilidade na instalação que tem as caixas de transportes de obras como "núcleo duro", os vidros e espelhos estilhaçados espalhados nos dão a dica de que, pelo fato de nada estar amarrado, tudo é passível de queda e quebra. Eis David fazendo magia sem mistério.
Em uma sociedade global que respira na superfície da imagem, habituada ao clique imediato, banhada nas tempestades de imagens em flash; o jogo do tempo estético é complexo. Se, um dia, os vídeos movimentaram as monótonas imagens fixas; nosso mundo de fastfoward/reward nos pôs no comando da duração da imagem e, agora, é nosso olhar editorial o responsável por designar o tempo merecido por cada imagem que vemos. Com o detalhismo não planejado e a atraente irreverência de materiais e símbolos, David cria obras para serem vistas com o corpo e sentidas com o olhar. Desse modo, Cury monta uma ótima exposição no MAM RJ capaz de atrair e afetar os ativos e dispersos espectadores contemporâneos mostrando algumas das principais conquistas de sua aventura experimentalista pela historia da arte e do Brasil.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Crítica: Br22 BobN Remix - Bob N
(ao meu amor)
(publicado no catálogo da exposição)
Baudelaire dizia ter pena dos artistas que se dizem guiados apenas pelos instintos. Bob N afirma perceber a importância de suas obras somente depois de realizadas. Porém, Bob não é digno de dó. Na quinta das onze "Teses sobre Feuerbach", Marx diz que esse primeiro filósofo "não satisfeito com o pensamento abstrato, quer a intuição; mas não apreende a sensibilidade como atividade prática, humano-sensível.". Bob trabalha mais na sensibilidade. A partir de referências diversas e explícitas e um largo e afiado humor, o artista cria sua personalidade e obra.
O costume de contar versões alternativas de histórias acabou por se tornar a base estrutural dessa exposição. Retirando elementos de quadros de Tarsila, Pancetti, Di Cavalcanti e Anita Malfatti e alterando essas imagens digitalmente, Bob N cria novas molduras para essas obras, conversando sobre o papel ativo do espectador-decodificador no deleite estético e colocando em cores a questão da referência referente, da re-originalidade, da reedição: não é à toa o nome "Br 22 Bob N Remix". Bob está expondo seu trabalho de DJ de imagens modernas brasileiras. "O DJ, copiando e colando loops de músicas, ativa a história da música" diz o crítico da Postproduction Nicolas Bourriaud. Bob N ativa a História da Arte Brasileira.
As fantasias e anedotas que Bob pessoalmente não pára de contar são constantes também em seu trabalho. Em um ato falho (ideológico), Bob N se defende e afirma fortemente "meu trabalho é sério!". E ninguém nunca saberá o que ele pensou ao dar o longo sorriso depois da afirmação. Bob entende que o humor é o caminho fácil mais difícil e que, se bem elaborado, como Bob o faz naturalmente, pode funcionar como saída à racionalidade e à seriedade ascética urbano-industrial.
Sem medo de ser humor-arte, sem medo de discotecar imagens recicladas do tesouro nacinal, Bob corajosamente dá a cara a tapa (colo)rindo no MAM. Se, na última daquelas "Teses sobre Feuerbach", Marx diz que "Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo", polarizando, assim, teoria e prática, Bob N mostra aqui que pôde transformar materializando a interpretação, convidando-nos, em seqüência, a interpretar sua obra. E a transformá-la com nossas interpretações.
Crítica: Neoconcretismo 50 anos
(ao meu amor)
Na ocasião da I Exposição Neoconcreta aberta em 19 de março de 1959, o MAM-Rio ainda era um jovem museu que completava 10 anos, mas, mesmo com o pouco tempo de existência, sua relação junto a parte do grupo de artistas com trabalhos nesta exposição começara muito antes.
O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro foi fundado em 1949 por um grupo de brasileiros que se reuniram comungando do propósito de intervir na velocidade do processo de modernização do nosso país. Além das questões políticas econômicas industriais e sociais, tornar um país "moderno" passava também por uma importante questão: a cultura. Tendo sua sede primeira em algumas salas emprestadas pelo Banco BoaVista, o museu levaria ainda três anos para, em 1952, ocupar parte do prédio do Ministério da Saúde e Educação. Neste novo endereço, além das muitas palestras, conferências e encontros de artistas que aconteciam regularmente, foram montados entre os pilotis do edifício do MEC os importantes ateliês ministrados por Ivan Serpa. O pintor que, a essa altura, já havia sido premiado na I Bienal de São Paulo com uma obra concretista, começava a formar, em suas aulas, um grupo de artistas que viria a se chamar Grupo Frente. Neste grupo, diferentemente do que acontecia, por exemplo, no Grupo Ruptura em São Paulo, não havia nenhum tipo de dogmatismo ou homogeneidade: mesmo que alguns caminhassem juntos pela abstração geométrica, outros, como Carlos Val e Elisa Martins, trabalhavam com propriedade na figuração. Naqueles anos, devido à relação conjugal entre a presidente do museu, Niomar Muniz Sodré, e o proprietário e diretor do Correio da Manhã, Paulo Bittencourt, a imagem construída do MAM no imaginário carioca era a de um museu voltado para o futuro e o que havia de identidade entre aqueles 15 artistas do Grupo Frente era, exatamente, o princípio da livre experimentação e da necessidade moderna de superação do passado tradicional a partir da construção de um presente voltado para a mudança. Por isso, aqueles artistas, ao ligarem suas vidas e imagens às do museu, estavam ligando suas vidas e imagens à cena moderna.
O Grupo Frente dura poucos anos e parte do motivo de sua dissolução foi a adesão de alguns de seus artistas ao projeto concretista brasileiro na I Exposição Nacional de Arte Concreta em dezembro de 1956 no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Porém, as diferenças entre paulistas e cariocas se tornaram evidentes, culminando na separação entre concretistas de São Paulo e neoconcretos do Rio de Janeiro. Segundo Mario Pedrosa, o mar e o sol induziam os cariocas à negligencia doutrinária: a severa consciência concretista seria exagerada. Alguns dos membros daquele Grupo Frente nascido no MAM, mesmo com Ivan Serpa na Europa devido ao Prêmio Viagem ao Exterior conferido no VI Salão Nacional de Arte Moderna, continuaram a freqüentar e se reunir ao redor do museu e, a partir também dessas reuniões, formaram o grupo neoconcretista.
Diferente das vanguardas modernas européias, esse grupo iniciou sua produção antes da publicação de seu manifesto. Opondo-se quase marginalmente à moda do tachismo internacional e ao tradicionalismo brasileiro que ainda glorificava Portinari, Pancetti e Di Cavalcanti como verdadeiros bons modernos brasileiros, os neoconcretos rejeitaram sistemas conceituais excludentes, criando um modernismo renovável de artistas independentes com identidades moldadas em situações diferentes. Eram artistas-pesquisadores que negavam a racionalidade exacerbada em nome do exercício da subjetividade e que começavam a propor a introdução do corpo na dinâmica produtiva do efeito estético.
Há 50 anos, o MAM abrigou estes artistas cuja liberdade de experimentação deu base para a geração que emergiria no cenário das artes brasileiro nos anos 60 e 70 e a História tratou de nos fazer reconhecer o valor daquele pequeno grupo. Com a finalidade de comemorar esse meio século, o MAM homenageia, certamente com prazer e com a devida reverência, esses artistas que fizeram, nesta instituição, o que viria a ser parte importantíssima da construção da arte contemporânea brasileira.
Crítica: Biblioteca - Araken
(ao meu amor)
(pq crítica com amor é outra coisa)
Na introdução do livro "A Água e os Sonhos", o autor Gaston Bachelard escreve: "Para conhecer o homem, dispomos apenas da leitura, da maravilhosa leitura que julga o homem de acordo com o que ele escreve. Do homem, o que amamos acima de tudo é o que dele se pode escrever. O que não pode ser escrito merece ser vivido?". Araken parece achar que sim. Ele vem com essa exposição criticar a noção de que só se apreende o mundo pela razão: colocando as pinturas abstratas (puro sentidos - pura sensibilidade) para dentro dos livros (trono sagrado da linguagem escrita, símbolo da racionalidade), Araken propõe outros caminhos para o tangenciamento da realidade. A noção platônica de que a verdade do mundo não é revelada à comum percepção dos sentidos, mas apenas pelo exercício do raciocínio (que está arraigada na lógica aristotélica, na teologia tomista e no cogito cartesiano) é colocada em questão nesta exposição.
Colocando pinturas em páginas de livros abertos, Araken empresta o título de "via para a verdade" à arte e critica nosso cientificista mundo que elegeu a razão como esse único caminho. A Biblioteca de Araken poderia remeter a Guilherme de Occan, base do empirismo, ou a Nicolas d'Autrecourt, seu seguidor, que, na Idade Média, afirmava que os dogmas da Igreja baseados exclusivamente na razão não possuíam valor, mas, se baseados na fé, fariam todo o sentido. Afinal, a fé nada mais é do que a crença no que é absurdo (vide Shestov), no que é além-razão. Ainda caminhando na filosofia, a instalação poderia remeter à noção espinosista de que "a mente e o corpo são uma coisa só, o que é concebido ora sob o atributo de pensamento, ora sob o atributo de extensão". Admitindo e negando a separação do corpo e da mente, Espinosa admitia a sensibilidade como razão e além-razão. Mas não. Não foi por esse caminho que cresceu o pensamento de Araken. O artista, religioso, diz: "No mundo das artes, não se dá muito espaço para quem fala de crença, religião e fé, mas era um sonho meu juntar fé, sensibilidade e razão.". A instalação, que fica até dia 23 de agosto no MAM conta ainda com um vídeo que tenta aproximar o visitante da dinâmica produtiva do artista e trilhado pela peça musical Pavane pour une infante défunte de Ravel que marca talvez a entrada do artista em sua maturidade na delicadeza da arte.
terça-feira, 7 de julho de 2009
2a Parte - Tudo sobre Di
O corpo caiu mais rápido do que a ficha da morte de Di. A metade despedaçada da cabeça na parede escorria para o chão e a outra metade se fez de fonte. O atirador chegou bem perto e encostou os lábios no ouvido direito de Di. Surpreendentemente sussurou doces palavras. Prometo não fazer isso de novo. Obrigado por tudo. Nunca vou esquecer o tal tempo. Di olhou com confusão para o atirador. O rosto não reconhecia. Nunca ouvira aquela voz. Não fazia penumbra de idéia do que o homem falava. Ainda com a arma na mão, foi embora sem correr.
O sangue pornograficamente brotado se pos em volta de Di, que, por um instante, se olhou no espelho vermelho e foi feliz. Tentou não respirar. Um suspiro e distorceria o mais morbido e vivo dos espelhos. Não adiantou. Com a tristeza pesando cada vez mais nos pulmões, acabou não reconhecendo aquilo que refletia e , se podia esperar o socorro ou a polícia chegarem, fugiu.
As ruas desta cidade não tinham cabelo pra se agarrar. Tal multidão, como toda, se relacionava internamente pelos quase-esbarrões e essa quase-energia do não-toque virou estranho afeto quando um ombro direito brilhoso castanho e cacheado encontrou o ombro esquerdo de Di, desarranjando momentaneamente o caos.
Um Porra! rouco e grave e Di achou que lembrava daquele homem. A curta barba desenhada era quase ruiva, os cachos eram largos de cedro e as amendoas eram negras demais e muito brancas. Não tinha como negar. Se Di não sabia nem onde estava, tinha certeza pelo menos de que aquele era o primo de seu melhor amigo com o qual nunca conseguira trocar um trio de frases que formassem sentido. Aquele era Di.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
1a parte - Tudo sobre Di.
-Di...
-Di.
-Di!
-Di, porra!!
Os olhos de Di finalmente abriram. Não sabia quem eram aquelas pessoas e nem que lugar era aquele. Aos poucos, foi reconhecendo o grande M amarelo que conjuga fast food e os longos cílios de Di, uma jovem que também trabalhava no escritório. Recuperava-se devagar. O cheiro de gordura e desinfetante característico desse tipo de ambiente tiraria de qualquer um a vontade de voltar à consciência.
Di não lembrava por que estava no ali, só lembrava que interrompera seu trabalho pois tinha algo importantíssimo a fazer na catedral. Por que Di lhe acompanhava? Sua relação não era das de maior intimidade e, sinceramente, sempre achou Di fútil, fresca, careta e católica demais. Católica! Será que é por isso que Di me acompanha? Mas eu fui à catedral? Di nunca teria essas respostas. Ainda do chão, viu as pessoas correndo em stop motion, as batatas voando em luta contra a gravidade e a cabeça de Di explodir com um tiro
.
que parou o mundo por um instante.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Ao povo do Resort
Oh! Santo povo do Resort
Tão já sem culpa
E tão culpado sem saber
......................Sem se culpar
Oh! Nobre povo do Resort
Tanto tesouro
Tanta fartura
Inebriado povo pelo champanhe mais rosé
Alimentado povo pela comida tão surgida no prato
Enquanto dormem
Em suas madrugadas que relampejam em Phillips mega master HD 14900 light-plus
(por míseros três mil sacos de feijão na loja mais iluminada do Shopping Recife)
Eu canto aqui fora
Com caules cocos copas coqueiros
E vejo
- acredite! –
Yemanjá ondular a trazer uma negra
Afrodite
Em uma grande concha de ardósia.
Oh! Seleto povo do Resort
Enquanto dormem
Eu, Yemanjá, Afrodite
Sambando
Temos a lua cheia dentro dos olhos
E gargalhamos com as brilhantes Três Marias.
Mas quando o Astro Rei se impuser
E acordarem vocês
Não será por sua fartura, felicidade, Phillips ou falta de fé
Que choraremos.
A terrena e arenosa lágrima nos escorrerá
Por, à luz, vermos
A camareira culpada, o garçom que tem fome, o recepcionista doente e mal assistido.
Choraremos.
O mesmo vento que seca o sertão secará nossas já secas finas gotas.
E na madrugada do
Amanhã
Estaremos ainda aqui
Eu, Yê, a nêga-Afro-dite, as 3 Marias, a Lua,a camareira Jurema, o garçom Iran, o recepcionista Júlio.
Mas vocês, sorrindo largo em seus fantásticos sonhos de resort
Não verão do nosso mar surgir
Nosso Grande Samba.
sábado, 6 de dezembro de 2008
Cienciarte
Pense Ciência.
"É pesquisar para"
"desenvolver para"
"fazer para"
"X".
Nã, nã, nã..
A ciência de Galileu
Não tem como variável
..................Incógnita
..................Objeto
O X chamado
Situação comercial
......................Izável
......................Izante.
Pense Arte.
"É linguagemizar para"
"esteticizar para"
"fazer para"
"X".
Nã, nã, nã..
A arte de Hélio
Não tem como variável
..................Incógnita
..................Objeto
O X chamado
Situação comercial
......................Izável
......................Izante.
Pense que atrás das exatas
Sempre haverá um humano.
E que a ciência verdadeira
Tem no tubo de ensaio
O homem.
Pense que na outra ponta do pincel
Estará sempre um humano.
E que a arte verdadeira
Tem na mente um ensaio
Sobre o homem.
A mestria
A rede
A inovação
As referencias
O mito louco:
Cientista Louco
Artista Louco
............Loucos por querem que o homem
...............................................(imerso no utilitarismo no capital)]
....................................................veja que temos de viver não para silenciar]
....................................................Mas para cienciar(t)
....................................................Cienciar-te
Cienciarte
Vivamos pela cura
Pesquisa, linguagem, desenvolvimento, estética, fatos
Tudo pela cura.
Vivamos pela cura
Cienciarte pela cura.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Só o Céu
Eu nasci quando o todo olhou pro meio do todo e me pôs
do meio do nada
...em dois seios que não eram ainda familiares
em um seio familiar.
Eu vim do céu
...Não importa se do meu céu, se do seu céu, como reflexo de dois céus
da boca.
Vim do céu.
E em daqui
...dessa grande Nova Iorque que é o mundo
eu quero o céu.
...(não quero o seu, não quero o meu, quero o céu)
Só no céu eu não Amo Muito Tudo Isso
Só no céu O Desafio não É A Nossa Energia
Só não céu não há ordens de “Just do it”s.
Eu quero esse céu
Eu quero esse céu azul
...como se quisesse voltar aos céus de que vim
Aos céus onde não há Deus
...onde não há anjos
Aos salivados céus de línguas, de linguagem, de liberdade
...e do silêncio.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Koyaanisqatsi - que tempos são esses?
Pelo fato de tudo poder inspirar, de eu ainda poder respirar e de eu não resistir.
(Poesia inspirada em "Koyaanisqats!": um filme que dizem ser documentário dirigido por Godfrey Reggio com música maravilhosa de Philip Glass. Não há fala, não há entrevista, não há narração. Só há música e imagens. Imagens demoradas de longos penhascos e rios e montanhas e uma fábrica e um porto e mais penhascos e campos e montanhas. Koyaanisqatsi vem de uma língua indígena, Hopi, e significa Vida Louca, Vida alterada ou algo do tipo.)
(Esse blog é péssimo e não dá pra editar como quero. De qualquer modo, a 1a estrofe é alinhada à esquerda e o 2o à direita, o 3o à esquerda e assim por diante.)
A câmera que faz mover pedras que não se movem
O som que faz mover a câmera que não se move
O tempo que faz mover o pensamento que não se move
A luz e a sombra que movem o que não se move
A busca por referências. A ausência de referências
Não ha subjeto. O objeto/face não esconde o explícito subjeto/essência
Curiosidade do Faber
Curiosidade do conceito
Curiosidade o objeto
Como, porque, o que
Homem no meio. Homem move o meio. Homem cria o meio.
Homem é meio que cria meio que move meio que não é homem.
Todo fogo deixa cinzas
Meio é meio que move o homem que moveu o meio.
Arranhamos o céu que nos move
É progresso arranhar o céu assim?
..............................o meio assim?
Nos movendo movemos o meio que criamos
A estrada era reta antes de darmos as curvas
Movemos o meio para viver melhor
Criamos o meio para viver melhor
Carros, aviões, estradas para viver melhor
O meio que vivemos
O meio que criamos
O modo que movemos e criamos
Deu guerra
Deu morte
Viver melhor?
(o tempo o torna insuportável)
Somos originais como salsichas enlatadas emboladas
Tudo isso e rimos
Entretenimento sem sentido
...............que nos move para rir e ter prazer
...............sem saber por que e pelo que somos movidos
Que tempo é esse em que falar sobre árvores é um crime?
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
E Ele Se Foi
(Quem canta um conto, conta com quanto? É só um conto das antigas pra reanimar.)
E ele se foi. Não que ele quisesse. Eu também não queria. Mas chegou sua hora de partir. Depois de me mostrar como se deve viver, depois de ensinar ao mundo que se pode ser feliz independente de qualquer coisa; missão completa; ele se foi feliz.
Eu o conheci antes de ele ter esse espírito falador. Por confiar muito em mim, logo se tornou muito dependente. E eu era dependente da dependência dele! E foi assim pelos 10 15 anos que seguiram nosso primeiro olhar. Depois, ele decidiu criar asas, ganhar novos ares. Mas nunca perdemos esse laço que nos ligava. Ele sempre com novas amizades, novas paixõesinhas, novos ambientes, novos gostos. Mas nossa relação nunca se perdeu.
23 anos juntos e ele sempre feliz. Um dia, ele começou a sofre muito. Eram muitas provações juntas: em um dos dias mais triste da vida, seu pai morreu; foi traído por uma tal mocinha que ele se encontrava havia 6 anos; seu melhor amigo foi pra Oceania cuidar de uma ONG de eco-loucos. Nada estava dando certo pra ele.
Como eu sofria em vê-lo assim..
Mas um dia, os castanhos olhinhos tristes secos e caídos deram lugar ao sorriso brilhante que eu tanto gostava. De inicio, me preocupei: “será que está se alienando pós-traumas? Será que está enlouquecendo?”. Logo percebi meu erro. Ele estava mais antenado do que nunca.
Contradizendo seu discurso ateísta, dizia pra mim que a morte do Pai era “a passagem pra um lugar melhor”. A traição da outra era “um alerta do destino pra acordar da paixão louca e ver que não era pra ele estar com ela”. A viagem do amigo tinha boa causa: alias, “o que seria do mundo sem os marsupiais?”.
Ele dizia essas coisas com aquele seu olhar de menino feliz: inseguro, inconseqüente, alegre, carente e pleno de utopias bobas.
Ele decidiu então ajudar os outros com esse seu novo modo de viver a vida. Visitava asilos, orfanatos, hospitais, creches, falava com moradores de rua, etc.. Fez todos verem o mundo pelo seu modo mais feliz. Sua felicidade se baseava na felicidade de quem ele ajudava.
Há 2 meses, ele começou a adoecer. Com causa desconhecida, ele , que tinha um corpo maravilhoso, iniciou um processo de emagrecimento intenso. Seus movimentos foram ficando mais fracos, lentos, custosos.
Nessa ultima semana, ele piorou muito. E só eu sabia daquele estado em que ele se encontrava. O mundo estava feliz como ele o havia deixado. Só eu sofria essa tristeza. Com ele, morreria minha felicidade.
Ontem, ele dormia e eu chorava muito imaginando sua morte, seu enterro, eu sem ele. Ele abriu os olhos e perguntou “Porque está chorando?”. Eu respondi que era pelo medo de sua morte e ele respondeu que aquela era a passagem dele, o momento dele e que o mundo prosseguiria sem ele. Pediu pra eu continuar minha vida e sua missão.
Eu ri e fiquei orgulhosa por ele se preocupar comigo e com todos mesmo nos seus últimos momentos. Garanti-lhe que estava feliz. Realmente estava! E, então, ele suspirou, olhou pra mim e sorriu como quem dissesse “Até mais, mãe...”
sábado, 10 de maio de 2008
E Nietzsche Neles!
ZARA
Eu afirmo não.
Eu afirmo será tudo verde.
Eu afirmo não há homem.
Eu afirmo o fim do homem.
Eu afirmo sim.
Eu afirmo será tudo verde.
Eu afirmo só há homem.
Eu afirmo início do homem.
O Grande
O Livre
O Criante
........como criador criatura
........como criatura criadora
Eu
..Não como esse passado
..Não como alguma História
Será que EU é alguma História?
(Não!)
Não questiono!
Eu afirmo.
Zara!
Afirmo
Confie..
Afirmo
......e só afirmo
......e só Eu afirmo...
Eu afirmo não.
Eu afirmo será tudo verde.
Eu afirmo não há homem.
Eu afirmo o fim do homem.
Eu afirmo sim.
Eu afirmo será tudo verde.
Eu afirmo só há homem.
Eu afirmo início do homem.
Qlqchose sobre Amor
Quando eu era bem pequeno, aprendi na escola "as raças". (Que absurdo ensinarem às crianças que as pessoas são divididas em raças! As crianças não nascem se agregando ou segregando pela cor da pele.) Então, eu, Bernardo Mosqueira, chego em casa e digo "eu sou mulato".. Filho de pai branco com mãe branca com 7 bisavós europeus e uma bisavó cabocla do norte de Minas, tive as respostas mais agressivas, chocantes, violentas e inexplicáveis a uma criança de 5 6 anos. Lembro perfeitamente de estar sentado quietinho em frente a um quadro do Véu de Verônica na sala de minha avó e essa, que sempre foi o maior amor, se exaltou pela primeira vez: "Você não é mulato! Você é branco! Sua família é de brancos! Não deixe ninguém dizer que você é nada além de branco!"
Bom. Eu cresço, continuo amando e convivendo com meus avós e pais brancos, mas a cada dia que passa eu quero cada vez mais ser mais mulato mestiço misturado café-com-leite pardo do que branco. A cada dia que passa eu quero cada vez mais ser mais Humano do que branco.
Desform-Ode ao Amor III
e ao meu amor
De dois
Desproblematizado
O Amor não seria mais.
Sem os olhares incompreensíveis
Entre os olhares magicamente compreendidos,
Sem alguns mais pesados nãos
Depois e antes de todos os livres sins,
Sem os dias de sobrancelha elevada
Entre os dias de testa lisissíma,
Qual seria?
Desencantado
Teria sido o Amor então
Desassimilado de toda ética
Absolvido por cada minúcia
Onde o fio da métrica
Seria perdido na sanha
Assim seria?
Desclassificado
Não seria Amor de certo.
Sem pálpebras fechadas
Em beijos escancarados,
Sem os êxtases trêmulos
Nos momentos de firme eternidade,
Sem o desfile do corpo nu
Na mostra de toda sua indumentária,
Que seria?
Amável
Seria então o tal amor
Se sempre reconhecidos
Fossemos em nossas importâncias.
Se em perguntas e curiosidades e subjetividades
Não fossemos sempre
Certos
Loucos
(impotentes quanto a isso)
E marcados para a exclusão.
Será que seria mais amável o amor?
Ou será que poderia ser mais amável?
Lúdico
Sendo então talvez
Menos real do que desejado
Por demais inventivo quando se soubesse
Que dele em grandeza não caberia em si
E mesmo fosse mínimo
Luta inversa
Blefe
Já estaria no mármore,
Incondicional e fluido
...
E seria tudo
Que ali ficasse...
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
Pause du Caffé III ("Outra Desform-Ode ao Amor")
[Poesia pra começar o ano bem.]
(Os muitos pontos servem só pra fazer a diagramaçao do poema na pagina. Esse site nao aceita mais de 3 espaços seguidos..)
Bom Dia
Bom Dia
(em tom de desejo urgente
...............esperança
...............acreditar
...............achar que vai
...........................(vai do ir ser, de fatos, de acontecer))
Bom dia
Levanta dessa cama
E, como deveria ser todos os dias,
proposita Amar.
Ama.
Aceita
O erro, a pobreza, a ignorancia.
Levanta e proposita Amar.
Aprenda, receba, descubra
Que Amar nao é palavra.
(''Palavra é casca'' disse Lahiri Mahasaya.)
eu te amo não é Amar.
Bom dia
Acredita
Levanta
Proposita
Aprende
E comece só o que vale.
Viva sob o signo do que é teu
E
Viva,
Vivencie o Amor
Vivencie o Amor
Vivencie o Amor
Vivencie
o
Amor.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
1a Grande Não-Ode Ode Surrealista ao Amor
[Eis outro texto antigo(porém atualissimo) que está sendo postado para não se perder no tempo.
Por Amor às palavras e ao Amor.]
"Vômito de palavras no melhor estilo surrealista. Sem introdução, sem ordem, sem nada.1o Texto de B Mosqueira a B.R. :
-Tudo Passaráda:
A melhor definição de "ver passarinho verde": É, ao avistar as asas de um anjinho, extasiar-se do que passarinha e sua rolinha.
(não resisti: Alegria é quebrar muitos ovos. Felicidade é nascer um pinto.
(sem contexto, mas veio bonito.)
Só se escreve sobre paixão quando se está apaixonado. Sorte -muita sorte- dos poetas mortos. E vivo.
-Paixão:
Paixão é sentir seu peso em cima de mim. Sentir cada detalhe, cada estrutura; é sentir seu peso sobre mim, deformando a minha alma.
Paixão é sentir a pele queimar de frio no incêndio entre o infinito e o infinito.
Paixão é sentir no rosto o vento trancendente da revoada de cupidos assustados com meu gozo.
Paixão é sentir arder nos olhos o brilho úmido e fumegante que só mártires e apaixoandos.
Paixão é sentir poder ser o maior dos deuses, mas, por bruto puro amor à humanidade (e à divindade) continuar sendo apenas o maior dos humanos.
Paixão é sentir no Éter interno a euforia só digna da esperança do Amor eterno.
Paixão é sentir os dedos serem sem sentido se não te sentem.
Paixão é sentir-se batizado na Igreja da Primeira Pessoa do Plural a cada pingo de suor que cai no rosto.
Paixão é sentir que não se deve acreditar em conceitos burgueses, inventados, irreais e selvagens, como a "semana que vem", o "amanhã", o "daqui a pouco", o "depois".
Paixão é sentir, a cada beijo, desabrochar na cabeça uma orquídea(das maiores e mais púrpuras); E, depois de uma noite eterna, senti-las brincando, em harmonia, seu carnaval.
Paixão é sentir muito longe quando longe e muito dentro quando perto.
Paixão é não sentir a hora de cessar um monotema.
Paixão é sentir necessidade de dividir em núvens o dinossauro cor-de-rosa que está dentro de nós. E, por isso, escrevi isso tudo. Que não está bom. Mas é:
Paixão.Beijos, É teu.
B Mosqueira"
Pause-du-Caffé II
[Pause du Caffé agora para um texto antigo (que nem sei se bom), mas que se perderia se não postado.
Só pelo Amor as palavras.]
Re-Flicts ou A Des-Essência
A confusão nasce no mundo real da mente como um pequeno rato no mundo da ilusão material. Rápido. E facilmente.
E assim aconteceu. Dormi e sonhei com cores. Sem formas e até mesmo sem cores! Apenas com conceitos de cores.
Pronto. Já se foi a gestação.
Acordei, e o vazio de emoção frígido no qual minha cabeça havia dormido se preencheu: parte pela dor que latejava e parte por devaneios saborosos de cores/não-cores/conceitos-de-cores.
E, entre longas piscadas de quem acordou há 2 minutos e grandes goles de um super-doce café com leite, eu me afundava no bizarro arco-íris mental e acreditava cada vez mais que somos seres sós. Em sociedade. Mas sós. Mais do que sós: Seres Únicos. Diferentes.
Crescemos com a idéia de que somos iguais. De que tudo para nós é para próximo igual. Que todos têm mamãe e papai. Que todos têm 2 olhos, 2 ouvidos, boca, nariz etc. Enfim, crescemos acreditando que existe um padrão super-estável que nos é essencial, que nos une. E faz parte desse padrão, dessa definição de "essência humana", o fato de que temos 5 sentidos e de que todos os percebemos da mesma forma.
Dessa maneira, todos veríamos, do mesmo modo, o Vermelho vermelho, o Azul azul, o Verde verde e o Rosa rosa.
Mas é loucura! Quem disse que o meu Vermelho é o seu vermelho? Vermelho é a cor do tomate, da maça, do coração, do Mcdonald's! Mas quem disse que o Meu Vermelho é o mesmo Seu Vermelho? O Meu pode ser Verde! Ou até mesmo o Flicts de Ziraldo! Eu aprendi que o nome do que vejo flicts(como morango, sangue, cereja) é vermelho, mas eu os vejo Flicts! Eu afirmo: o Meu Vermelho é Flicts. E como me provaria o contrario?
E, pior! Sob o mesmo raciocínio, o meu limão é salgado e meu açúcar é azedo! Aliás(!!!), sob o mesmo raciocínio, um sabor pode me ser amarelo, um som áspero, uma textura grave, uma cor macia. Posso VER o gosto do que comes. Posso ESCUTAR o quadro que vês.
(...)
-
(...)
O dia passou e eu louco: divagando na recém-nascida confusão e mal escrevendo mal os 8 parágrafos que cheiras nessa pagina.
E, então, entre duros goles de cerveja quente e longas piscadas de quem vai dormir em 2 minutos, percebo que de tão diferentes, de tão perdidos, de tão sós em nossas loucuras, somos iguais. Seres Humanos: Essencialmente iguais por potencial diferente essência.
1o Conto Não-Ode Ode ao Amor
Sentado no quarto escuro.
Iluminado pela única fraca luminária do ambiente que pende do teto sobre a mesa. Ele de costas pra porta fechada. No lado de fora, tiros. Tiros, tiros e mais tiros. A guerra consome tudo. E a guerra era por ele. Ele era o alvo de toda essa gente enlouquecida.
Na penumbra do canto, Dinah Washington e Dexter Gordon se revezam entre "Blue gardenia"s e "But not for me"s. Lá fora, bombas de nêutrons, gás mostarda, grito, choro.
Sentado no quarto escuro.
Seus olhos fitavam o papel. Ele lia. Ele tinha de ler! Ele lia. Com rapidez, como um maquina eficiente, ele lia, Virava páginas e mais páginas, Dinah gritava, Tudo explodia, Ele anotava e virava páginas.
Horas...horas..HORAS(!) com aquele monte de papel na frente dele. Ele ainda lia, ainda escrevia. Mas agora seu ritmo diminuíra. Ele sabia bem o que acontecia. Seu sangue secava. Seu coração parava. Morria.
A música cessara. Só o som dos tiros, dos gritos, das bombas, das janelas quebrando e das portas batendo corriam pelo ar sujo que parecia rarefazer a cada segundo.
Ele tinha de ler, ele queria viver apesar de quase todo mundo, de quase toda a realidade, ir contra ele. E ele morria. O sangue virava pó, o coração um paralelepípedo maltratado de uma rua pobre. O sol de certo que não brilhava mais lá fora. O frio era insuportável.
Mas ele sabia do que precisava.
Entao levantou. Foi até o limite da luz, de modo que mal se via seu braço esticado pegando a velha carteira preta sobre a cômoda.
Sentado no quarto escuro, abriu sua carteira e, com os dedos da mão direita procurou algo lá no fundo. Encontrou. Por instantes, se fez no rosto dele uma expressão estranha de salvação e graça.
Tirou da carteira. Do pequeno objeto que cabia entre o polegar e o indicador, surgiu uma grande luz: A Grande Luz. O quarto ficou todo iluminado, o mundo ficou todo iluminado. O Universo era um grande espaço sem matéria todo branco, todo luz. Nada além dele e do objeto sob seu olhar hipnotizado. Ele respirava fundo, seu corpo quente, coração batendo gostoso. (Se ainda guerreavam, não se escutava, ele não se importava.)
Guardou.
Sentado no quarto escuro, de costas pra porta, iluminado pela mesma fraca luminária, ele lia. Lia, mas agora expunha no seu rosto o enorme, confortável, enérgico e contagiante sorriso que lhe é específico pelo sentimento ao qual o objeto lhe remete. E ele lê. Feliz, lê. E vive.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2007
3ª Não-Ode Ode ao Amor
Do Humor, sua origem, sua importância:
Começa-se definindo o Humor.
Humor é a capacidade estritamente pessoal de achar graça e divertimento naquilo que se faz no em torno.
Ou seja, é um poder único de encontrar graça em qualquer coisa da vida.
Graça? O que é Graça?
Graça é a essência daquilo que diverte, que inspira, que torna alegre, feliz. Vocábulo originado de um dos principais conceitos teológicos dessa nossa sociedade judaico-cristã: é o modo pelo qual Deus se revela a nós, concedendo-nos as condições de existir. É o principio sobrenatural (que depende da existência de um receptor/analista) pelo qual se participa da natureza divina.
Então, “Achar Graça” em algo é “Achar o Divino” em algo. Sabendo-se que tudo, independente do que seja, tem a tal “Essência Divina”, é possível achar Graça em qualquer coisa!
Questão de costume e prática, exercício.
E as bases dessa idéia não são tão novas assim. No glorioso Século de Péricles, Platão(”revisto” por Plotino) tinha como principal estrutura de sua Filosofia o conceito do “Mundo das Idéias”. Este seria como um grande conjunto dos conceitos perfeitos. Lá estariam a mesa perfeita, a caneta perfeita, o papel perfeito, o cachorro perfeito, etc. O Bem(indescritível e única vivência mista de paz, prazer, felicidade, alegria e mais) é alcançado ao tangenciar o tal “Mundo das Idéias”: ao apreciar o belo(pois o belo é a aproximação ao perfeito). O belo pode ser uma boa música, um bonito afresco, uma linda escultura, uma boa peça de teatro ou até mesmo um belo corpo.
E é exatamente isso o Humor: gozar-se Bem por perceber a graciosidade (a essência divina) nas coisas.
...
E não é isso o Amar?