texto escrito para a mostra "Derek Jarman - Cinema é Liberdade" na Caixa Cultural Recife organizada por Raphael Fonseca
Somos Sebastião: o porco e a dança do sol na água
Somos Sebastião: o porco e a dança do sol na água
(ao nosso amor)
“Sebastiane”
é um filme construído a partir do imaginário de São Sebastião, mas está longe
de ser uma obra com pretensão biográfica. Esse primeiro longa-metragem de Derek
Jarman ignora acontecimentos importantes da vida do santo católico para
iluminar apenas aspectos que lhe interessaram como substrato para uma nova narrativa.
São Sebastião, por exemplo, diferente do que se pode imaginar, não morreu
flechado. Incrivelmente, sobreviveu às flechas e foi salvo por uma mulher:
Santa Irene. Foi martirizado por uma segunda vez, e esse é um dos motivos que o
fizeram o terceiro santo da história da Igreja, tão adorado desde o século IV. No
segundo martírio, seu corpo foi dilacerado, e as partes foram jogadas na Cloaca
Máxima, o esgoto de Roma. Os pedaços foram reunidos por Santa Luciana e
enterrados nas famosas catacumbas da cidade, que, por isso, se tornaram local
de devoção e peregrinação. Irene e Luciana são, então, importantes responsáveis
pelo culto a Sebastião. Porém, nenhuma das duas aparece no filme. Na verdade,
depois dos 10 primeiros minutos, nenhuma mulher é vista em cena.
O
filme se inicia com uma colorida, exuberante e musical introdução em que atores
se apresentam para o imperador Dioclesiano simulando uma orgia com enormes
pênis alegóricos. Durante a festa, o soberano ordena a morte de um de seus
catamitas apenas por diversão, e Sebastião é condenado ao deserto por tentar
salvar o menino do estrangulamento. A partir de então, o filme acontece quase
sem cores e música e foi filmado em ruínas que um dia não serviram pra nada. O
deserto de Jarman é paisagem-pele e exibe o mesmo tom da pele dos atores.
Nesse
local, isolado, sem qualquer contato com a sociedade, um pequeno grupo de
homens era treinado para lutar por Roma. Sebastião se recusou a praticar o
treinamento militar (“Cristão não luta”) e sofreu castigos físicos e humilhação
pela desobediência. Os outros soldados riam, se embebedavam, trocavam carícias
e falavam sobre como seria voltar para as prostitutas de Roma. O capitão da
guarda se apaixonou por Sebastião, mas, mesmo que o sexo homossexual
acontecesse frequentemente entre os soldados, o santo recusou as investidas de
seu superior, Severus. Depois de muito rejeitar, foi condenado à morte a
flechadas. É interessante fazer o paralelo entre as renúncias de Sebastião à
luta de espadas e ao sexo homossexual.
Durante
o filme, que é todo falado em latim, Sebastião é constantemente humilhado e
excluído por ser judeu ou por seu cristão. No momento em que demonstra para seu
amigo Justino com prazer e orgulho sua maior potência (“a dança do sol na água”
que costumava apresentar para o imperador), foi chamado de puta cristã, cristão
veado e questionado “por que não põe um vestido?”. O jeito que Sebastião tinha
de amar o fazia solitário e incompreendido. Em outro momento, disseram “algumas
pessoas gostam de punição”, “por que não matar ele? Seria menos um.”. Todos
esses discursos, ironicamente apontados a alguém que se recusava a transar com
um homem, são análogos, hoje em dia, a discursos homofóbicos.
O
filme é pontuado por sete performances especiais: o espetáculo que simula uma
orgia na introdução, o banho de Sebastião sob o sol, o monologo do protagonista
sobre o espelho d´agua, o banho dos soldados enamorados Antônio e Adriano, a
perseguição do porco, a elevação da concha encontrada por Justino e a própria
cena do martírio de Sebastião.
A
orgia que inicia o filme se encerra com jatos de creme branco no rosto e no
corpo de um dos atores. Momentos depois, Sebastião, com as costas em
carne-viva, receberia um prato de leite no rosto como humilhação. O leite era
ração para porcos.
Tanto
na cena do banho de Sebastião como na do casal de soldados enamorados, Jarman
produz um olho que tem corpo e não tem peso: aponta a lente para o objeto de
desejo, criando planos detalhes (desejo-fragmento) com uma câmera que se
movimenta como se nossos olhos dançassem em volta dos rapazes – talvez, sem
poder tocar.
Em outro
momento, Sebastião encara seu próprio reflexo em um pequeno lago. A composição
do plano e o posicionamento do corpo do ator fazem referência direta à imagem
de Narciso. Nessa posição, o protagonista inicia uma conversa com seu
Deus-Sol-Apolo que acaba por se endereçar a si mesmo.
No
momento em que Sebastião levanta a concha que ganhara de Justino, que
supostamente teria lhes proporcionado uma experiência de escuta mágica, o tempo
alongado e o desenho de som nos permitem perceber a transformação do banal em
sagrado. Jarman, então, aponta para a Fé: assinala que a coragem de acreditar é
um dado importante para essa narrativa. “Ele pode fazer o que quiser: A Verdade
é bela.”.
Um
apito soa alto, e todos correm com suas lanças atrás de um porco. O suíno tenta
escapar como pode do grupo que o caça ensandecido. De repente, Jarman escolhe
um plano subjetivo do porco correndo: e, agora, somos nós que fugimos desse
grupo. Somos todos o porco – somos Sebastião.
Por
fim, o martírio. A cena se dá inteira em câmera lenta, e escutamos apenas o som
do vento. Nessa passagem, Jarman respeita a iconografia sebastiana. Ele é
conhecido como padroeiro dos soldados e dos moribundos. Talvez seja importante
dizer que a imagem de São Sebastião como esse belo homem flechado que é ferido
mas não morre se tornou popular na Europa durante a peste negra no século XIV.
Era a ele que as famílias católicas recorriam com esperança. Alguns séculos
depois, o mundo sofreria outra epidemia – e Jarman seria alcançado e morto por
ela. Dessa vez, São Sebastião seria novamente objeto de devoção, alvo de
oração. Mas, agora, não mais como padroeiro dos soldados, mas, sim, como
padroeiro das bichas.
São
Sebastião não se tornou um ícone gay apenas por ser um santo jovem, bonito,
aparentemente solteiro e perseguido pelos caretas. Também não foi pelas
flechas-falos que lhe penetram eternamente em cada estátua. São Sebastião tem
seu delicioso corpo amarrado a uma árvore: disponível ao nosso desejo do qual
ele não pode fugir. Sebastião é o rapaz musculoso cuja beleza não encontra a
dor, cujo rosto exibe gozo espiritual e cujo corpo musculoso inevitavelmente
masculino encarna uma passividade entendida de forma feminina. O Sebastião de
Jarman é o único personagem do filme que se recusa a fazer sexo homossexual,
mas seu comportamento subversivo o faz análogo ao homossexual em 1976 – um
pouco (mas nem tanto) diferente da bicha de 2014.
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