sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Pelo Fim da Genealogia Reacionária (des)Carioca ou Dinamitando a Ilha de Manhattan

(ao meu amor sempre e sempre)

“Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações no encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas de dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

(Poema “Elegia 1938”, de Carlos Drummond de Andrade, no genial livro “Sentimento do Mundo” publicado pela primeira vez em 1940)

Uma parte do Rio de JANEIRO não cansa de se julgar com padrões que vem d'além além. É a falta de auto-estima de uma elite que gargalha baixo e olha com maus olhos a inencaixável cultura carioca e sua produção artística.

Essa elite, que aprecia o samba, se encachaça de uísque, come fricassé de carne seca e esbraveja seus próprios Marx e Deleuze pelo Baixo Gávea, acredita que faz um bem danado à pobre arte carioca. Sofrendo por não ter nascido na mais brilhante Nova Iorque, onde, em seus sonhos hollywoodianos, tudo dá certo, eles não percebem. Mas, dentro de seus corpos pouco saudáveis, suas fantasias e desejos travam guerras contra seus discursos. Eles gritam, citam e reafirmam, com suas línguas secas, uma raiz declarada materialista, crítica ou pós-estruturalista que seja, mas adorariam - mais do que tudo! - que os artistas cariocas funcionassem bem!

-Eles deveriam ser eficazes! Eles deveriam ser produtivos! Eles deveriam ser competitivos! Eles não podem ficar para trás! Eles não sabem o que o mundo anda fazendo? Eles não sabem como o mundo é produtivo? Eles não sabem de nada? Eles deveriam ser mais antenados! Eles não são bons! Não são bons!

Compreende-se o reacionarismo. Nem se houvesse um Ato de Contrição no prefácio do Capital, eles veriam que só reproduzem um modelo de mercado que imagina arte, artistas e seus críticos dentro de uma lógica muito específica que seu discurso superficialmente almeja parecer condenar.

Nunca existe mea culpa nessa parte do Rio de que falo. Eles parecem não entender o conteúdo e a beleza do que citam. Acredite: com um ego assim brilhagigante, a autocrítica é sempre ironicamente falha.

Aqui, que nunca é centro de seus pensamentos, eles parecem ignorar a condição (talvez nem tão situação) precária em que se pratica arte. Acreditam que o artista é um preguiçoso, um vagabundo, que tem o péssimo hábito de procurar o prazer e de não ser tão ambicioso como deveria. Aqui, salivando, esta certa parte do Rio de JANEIRO morre de vergonha por acreditar não ter sobre quem escrever! Sofre de dor nas cadeiras por ter de esperar algum dos nossos vagabundos ainda vivos ser exaltado pelo mundo (que, é claro!, é bem longe daqui) para que possa ser visto como "interessante". A pseudo-seleção e o silêncio ou o “interessante” disfarçam sua mediocridade. No dia em que um vagabundo é, por lá, reconhecido, eles esbravejam que o vagabundo é daqui, que quem deve falar sobre o vagabundo são eles, que, por serem super brasileiros como o vagabundo, tem a exclusiva autoridade! E, assim, meio por ambição amadora, meio sem saber, se constrói um mundo das artes capenga, desleal e assimétrico.

Esse Rio de Janeiro que, por alguns motivos, poderia se reconhecer em suas potências e aprender que muito pode ensinar ao mundo, se faz incapaz. Reproduz ideais e reproduz idéias. Para eles, um pensador de verdade nunca será um hedonista, um saudável ou relaxará. Felicidade e ressaca não são resultado a se prezar. O problema desse país é que não existe pecado do lado de baixo do equador. Como poderia existir um verdadeiro pensador se ele nem tem do que ser ascético?!

Aqui, também, é o lugar onde a culpa é sempre do outro. A inveja, a incapacidade, a covardia, a arrogância e o medo próprios são sempre escondidos sob a desculpa de um forte modelo viciado que é acompanhado pela tradição vagabunda (que é sempre dos outros, que são cegos, burros, bundos e não vêem como eles). E é aqui o lugar onde se reclama de jeitinhos e politicagens, mas a prática mostra a mesquinharia do cunhadismo vernacular, onde uma mão suja indica a outra, que, nesse momento, já bateu muito naquele ombrinho.

Sim, sim. A vida está lá fora. Aqui mesmo, sós, vagabundos, esperamos e reclamamos.



terça-feira, 5 de outubro de 2010

Aos Abotoados pela Manga ou Como emerge um movimento

(ao meu (sempre o mesmo) Amor, sempre)


“A andorinha? A andorinha não faz nada. Pegue o alpiste da vida e jogue em ti! Jogue em ti, jogue em mim! Planta-te! Semeia-te! Sê gauche na vida!”
(Patrícia Poeta)


Meninos, Meninas e Raspberry Reichs,

Deixo a Grande Pinheiros (que é São Paulo) e volto ao Rio. Volto, mas não volto. O espaço de onde vim não existe mais. O lugar para onde fui já nunca deixará de existir.

Há não muito tempo, Franz Manata (em uma deliciosa madrugada telefônica) me fez o convite para Abotoar com um grupo de artistas e participar de um processo criativo coletivo como parte do apoio crítico conceitual aos artistas.

Topei de imediato – mesmo que não tivesse entendido muito bem o que estava planejado para acontecer (talvez não houvesse o Planejamento duro maquínico necessário para a previsão, mas, sim, um pensamento de resultados essencialmente surpreendentes).

O grau e a intensidade do que veio a acontecer são inéditos e inefáveis. As potências de troca se transformaram em ato e, assim como no caso de muitos de nós, o meu papel no abotoamento se transformou. Formei uma parceria com André Sicuro, e entrevistamos todos vocês para um trabalho de arte e registro afetivo do que viesse a acontecer.

Pois, então, eu, que imaginava ter vindo embasar, vi meu próprio frágil chão se abrir sob meus pés. Porém, uma grande teia de vetores amorosos, críticos e criativos me salvou da queda.

Esta carta bêbada, virada, prolixa, transparente, emocionada, eterna e instantânea é um agradecimento pessoal, informal e escrito no branco entre as letras pretas.

Além das discussões conceituais e conversas inflamadas por línguas de fogo que tocam o futuro, agradecerei sempre por terem me ensinado e me feito melhor, também, nos momentos em que gargalhamos, dançamos, beijamos, demos as mãos, nos revoltamos, nos abraçamos, cantamos, choramos e nos questionamos sobre como podemos dizer que somos honestos se nem assumimos que não assumimos uma mulher que não assumimos.

Mesmo que só o tempo possa vir a dizer a extensão do que acontecemos, sentimos que a curadoria\reunião\abotoamento (por Franz e Maria Energia Montero) inegavelmente reposicionou uma pequena engrenagem da Grande Máquina: e essa cirurgia cósmica dará coração real e leal ao homem-de-lata desse estranho Oz que é o mundo das artes.

Entrevistar todos vocês com Amor, ler seus silêncios, lamber seus sorrisos, sentir o cheiro forte e fresco de seus corações me posicionou (junto a André) privilegiadamente no entroncamento de um discurso polifônico sólido, fluido e emocionante. Nunca haverá como agradecer por isso, mas, aqui, estou eu tentando.

A irrelevância e impotência da arte egóica, narcisoléptica e epistefrênica se evidencia quando o Abotoados emerge como poderoso trabalho de arte sem autor, sem previsão e com amor, com antevisão.

Não mais prolongo, mas ainda haveria muito a ser dito. Há muito mais ainda daquilo que não pode (nem, talvez, se deva) transformar em Verbo.

Muito muito muito obrigado por terem me feito melhor.
Muito muito todo o desejo de que façamos o MUNDO melhor.

Estamos juntos – Abotoou, está abotoado!

Com todo Amor e Carinho,



Bernardo Mosqueira________________________________________________________ ________________________________________________________________________________________
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______________________________________________________________________Paz ,

terça-feira, 6 de julho de 2010

Crítica: Amanda Mei: Como fazer tempo com sobras

(ao meu Amor)


Amanda Mei: Cenários do Absurdo Obsceno

“Com o tema das gavetas, dos cofres, das fechaduras e dos armários, vamos retomar contato com a insondável reserva dos devaneios da intimidade.” (Gaston Bachelard – A Poética do Espaço)

Amanda Mei afirma construir sonhos; diz produzir aquilo que não está para os outros, mas é pleno ainda apenas na virtualidade das próprias fantasias. Nesta exposição, a artista agrupa séries distintas de trabalhos que têm em comum, principalmente, três fatores: os desejos, os transportes e a inconformidade.

Para uma das séries, a artista percorre a cidade de São Paulo atrás de fragmentos; caça recortes rejeitados pela sociedade do excesso; coleta, de maneira imprevisível, objetos que se chocam com os croquis de Amanda para se transformarem em arte.

Nosso corpo é adestrado pelo olhar. Quando visualizamos esses fragmentos de objetos diários funcionais frankensteiniados e ressignificados como objeto de arte, percebemos que já deixamos de poder exercer, sobre eles, nossa atividade intuitiva-memorizada que fora planejada por nossos semelhantes ao projetarem suas funcionalidades tão explicitas em suas formas físicas.

Se reconhecemos nosso lugar no mundo ao descobrir os papeis do Outro, quando nosso Outro entorno passa a ser formado por mistos objetos-sujeitos deslocados de suas habituais e introjetadas condições funcionais, passamos a desconhecer as direções de nossos vetores de existência/atividade. Consumidores insaciáveis de imagens fáceis, somos tirados do conforto e perdemos a capacidade de localização de nosso centro intimo e de suas teias relacionais. Assim, somos jogados na direção da descoberta (ou da análise) do lugar além-espacial que ocupamos. E que tanto interessa à Amanda Mei.

Há certa discussão estética e ontológica no pano de fundo dessa série. Esses objetos-sujeitos projetados carregam, a principio, a fatalidade de sua única destinação. Porém, Amanda nos dá contato com situação que indica outra função possível. Mas, ao invés de aceitarmos a mutabilidade dos objetos, acreditamos em sua nova e fatalmente única possível destinação: objetos de arte.

Outra série dessa exposição é formada pelas pinturas sobre papelão, madeira ou placas de metal. Segundo a artista, suas pinturas são como sonhos que ainda não se realizam: são projetos do que ela gostaria de produzir, um dia, em grande escala. Caixas de papelão são planificadas e, sobre elas, são pintadas imagens de móveis que nos confundem ao se projetarem, por jogos de perspectiva, no espaço expositivo. Sem grandes variações cromáticas, cenários de absurdo obsceno são pintados, também, sobre madeira ou metal.

A série que encerra este texto é formada por fotografias. Há alguns anos, foi sobre esta plataforma que a artista começou sua pesquisa. As fotos nesta exposição mostram miniaturas de cadeiras postas em diferentes locais e situações. Assim como para todos os demais signos comuns - nesta exposição reorganizados e ressignificados em possibilidades, desconhecimento e desejos - somos conduzidos a imaginar criativamente um outro homem que se relacione, em suas (im)possibilidades outras, com as tais cadeiras.

“O armário e suas prateleiras, a escrivaninha e suas gavetas, o cofre e seu fundo falso são verdadeiros órgãos da vida psicológica secreta. São objetos mistos. Objetos-sujeitos.” (Gaston Bachelard – A Poética do Espaço)

sábado, 22 de maio de 2010

Crítica: Liberdade é Pouco. O Que Desejo Ainda Não Tem Nome.

(ao meu amor)

No dia 13 de março de 2010, duas mil e duzentas pessoas compareceram à festa de abertura da exposição "Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome." em uma casa no bairro do Jardim Botânico, Rio de Janeiro. Mais pra frente, coloco o clipping, histórias, lista de artistas e agradecimentos aqui.

Na ocasião, este foi o texto apresentado. Tudo feito no amor, com amor.



“Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.”

Essas duas frases de Clarice trazem muito mais do que a primeira palavra.
O que desejo não tem nome. Não está onde é linguagem discursiva. Não é verbo. É estética, devir, é projetado no corpo, é desejo.
Se uso Lispector como referência literal e literária, faço-o assim como acredito que outros artistas de nossa história podem ser os necessários exemplos instrumentais para que se possa fazer descobrir as diferenças entre importâncias e valores do que se chama liberdade nos nossos dias e em outros.
O que, hoje, seria liberdade? Este graal pelo qual guerras são travadas? Será que precisamos de mais liberdade - além de poder escolher a operadora do próprio celular? Há a necessidade de se falar nisso agora? Qual a relevância em falar de “liberdade” quando tudo pode ser feito? Que caminhos os artistas brasileiros têm usado no tocante à liberdade? Será que precisamos, brasileiramente, desregular as dentadas engrenagens urbanas? Carnavalizar a internet? Desmascarar vaidades, formalismos e pedantismos acadêmicos? Evidenciar o automatismo moral acrítico e funcional do homem ativo? Colorir e iluminar ideologias estruturalmente viciadas do consumo? Forçar imigrações das áreas de conforto para (im)possíveis áreas de confronto? Será que precisamos alguma coisa? Quais as relações, agora, entre liberdade e verdade? Liberdade e conhecimento? Entre liberdade e diversidade? Liberdade e direito? Liberdade e transformação? Liberdade e experimentação? Liberdade e responsabilidade? Como e para que liberdade num mundo de história morta, que não procura fundamento, causa, razão e, talvez por isso, nem sentido para os eventos? Seria inocência falar de liberdade? Seria inocência em falar em liberdade? Seria persistência? Como se poderia dar a experimentação quando falamos da arte projetada e/ou imaterial?
Pois, então, estavam lá reunidos trabalhos de mais de 45 artistas que aceitaram a proposta de discutir e vivenciar a liberdade em liberdade hoje.

“Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.”

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Crítica de Cinema: Diário de Sintra - Paula Gaitán

(ao meu amor)



Mensagem de Facebook aberta de B Mosqueira à Paula Gaitán

Paula querida,
Fui ontem à noite ao cinema de Botafogo. Posso dizer que ainda não me recuperei totalmente da experiência.
Seu filme é lindíssimo. É uma grande poesia audiovisual que não é lida (e com a qual não se lida) pela linguagem, não nos atinge exatamente pelo verbo.
Seu trabalho é um diário composto na estética, nos sentidos. Não é escrito no roteiro da razão. É desenhado na retina, esculpido na pele, tocado nos tímpanos.
Sendo memória, nunca vi no cinema alguém ter entendido (e ter explicitado) tão bem a (des)estrutura da memória: (des)construção em fragmentos, detalhes e recortes que se sobrepõem, justapõem, dilatam, latejam, pulsam, pulam, somem, somam, sopram, surdam, si.len.ciam.
((...))
Há memória morta, há memória viva. Há retratos gastos, reflexos flâmeos, fantasmas mastodônticos, uma gravada família cuja juventude uma cidade assimila. Sintra assimila Glauber, Sintra assimila você, você assimila Sintra. O resultado é a verdade semi-imaginária que eu habitei.
Sendo cinema, poucas vezes vivi tão em coletivo um sonho. Agora, com a sensação de quem desperta a contragosto, ainda me tenho (e talvez sempre terei) parte imerso nessa realidade transcinematográfica de um passado (não meu, mas) re.visto, re.ouvido, re.tocado, re.sentido, re.vivido, re.agido. Tudo que você investe e investiga sobre um seu momento (in)certo, mantêm ativas, por algumas eternidades, nossas terminações nervosas que nos fazem encontro ao mundo.
Neste texto, ainda respiro contigo num vento de Sintra.
Uma rara qualidade de sensível (e a doçura?) conseguiu encontrar (amém!), além de uma ótima vontade de mostrar, uma louvável capacidade técnica e uma feliz cornucópia teórica. Por isso, e com uma equipe no afeto e na eficiência, você produz o que há de incrível no cinema brasileiro.
Sem intenção de ser verdade ou mentira e usando sua “montagem à distância”, você fornece ao mundo memória tecnologicamente produzida que coletivamente partilhamos.
Por isso, ainda estou a procurar a viagem de volta de sua Sintra, para aonde seu filme me carregou. Talvez não haja como voltar. Como memória, talvez não haja como esquecer.