terça-feira, 16 de abril de 2013

Crítica: Ícaro Lira: Náufrago


(ao meu amor)


Haverá sempre a metáfora da constelação. Quando olhamos para o céu e reconhecemos, no manto da noite, um conjunto de estrelas nomeado por sua forma, construímos sentido único pra astros de tempos e lugares muito diferentes. Uma é menor, mais nova e mais próxima. A outra é maior, mais antiga e mais distante. Uma outra, de repente, nem está mais lá: já não existe há muitos anos, e ainda vemos sua luz. Juntando os pontos luminosos no plano do desenho, damos a elas sentido único. O artista é esse, portanto: o organizador das multiplicidades que busca e organiza, por suas razões, elementos no tempo e espaço. Seu grande talento é a capacidade de navegar e traduzir os interesses.

Ícaro Lira apresenta, aqui, o resultado do projeto “Náufrago”, realizado durante residência no litoral sul do Rio Grande do Sul como parte do projeto VETOR, ligado ao Atelier Subterrânea. Porém, o que presenciamos aqui é mais do que a mostra de objetos coletados, filmes-diários, cadernos-livros, instalações e fotografias.  As pinturas medievais ou renascentistas, representando cidades em perspectiva, inventaram um olho que não existia antes. Era a visão do homem-deus que, antes, só Ícaro (o ser mitológico) alcançara. Com a queda de Ícaro, a morte de Deus e a falência do Homem, é, novamente, pisando o chão que nos lançamos na busca por verdade. O que presenciamos aqui é Ícaro (Lira) nos propondo uma forma de olhar, nos apresentando uma maneira especifica de investigar e nos envolvendo no questionamento sobre a relação entre homem e terra.

Percebemos a tensão entre o que é interno e externo. Em presença, o fotografado é vivo para o fotógrafo. Na fotografia, o fotógrafo, presumido por trás da câmera, é vivo para o público. É nesse encontro entre os dois e nas causas do interesse de registrar, transportar e exibir que surge o afeto do trabalho. Fora e dentro como domínio e destino - e vice-versa.

Ícaro diz que gostaria de ficar sozinho, que tem vontade de silêncio, que carrega livro sobre os campos de concentração no Ceará, que deseja entender os movimentos migratórios, que migra pra descolar, que deseja estar na fronteira, que tem dificuldade de comunicação, que não entende minhas perguntas. Edição, montagem, colagem, exposição. “Corre um menino/por entre os séculos.//Corre um menino/solto, sozinho,/na madrugada/de um país claro.// Assim te vejo/até agora/ náufrago límpido/e solitário.”*. Perceba o encontro entre as palavras e as imagens.  ”Pequenas conchas/estão nascendo/para escutarem/tua paisagem.”*. Entre o “vamos juntos” e o “preferia não”.

Há algo da prática de um cronista no posicionamento de Ícaro. A organização das propostas por assuntos, a composição livre e o tom de coisa sem necessidade, associados à prática diária, a um processo humanizado e à pertinência, tomam profundidade negando a monumentalidade e a espetacularização. A leveza e a simplicidade formais indicam a superficialidade dada às coisas explanadas e oferece, com aparência de banal, a seriedade de uma proposta de experiência e reflexão. Somos afetados sem floreios grandiloquentes. A ação, que, por vezes, tem tom de pretensa gratuidade, dá, ao publico, a sensação da necessidade de ação: seja para entender a gênese do que se apresenta, seja pra resolver a equação que se recebe. Utilizando processos simples de anotação, registro e deslocamento, o artista provoca uma tensão plena em ambiguidade, poesia e estranhamento para assinalar intensamente sua função muito além da informativa. O processo criativo do trabalho se confunde com o viver do artista-cronista. Selecionando, deslocando e arranjando pedaços do que é vida, o resultado se assemelha e se afasta do mundo.

Essas insólitas substituições são gestos de genealogia antiartística que cria mistério sobre algo apresentado não pela aura singular gerada pelo gesto à mão em sua construção, mas sim pela presença do objeto (es)colhido no dado contexto. Quando nos deparamos com alguns dos objetos e registros de “Desterro”, questionamos seus motivos e, nesse percurso da dúvida, encontramos o compromisso ético e a função política da arte. Percebemos-nos ainda a vivenciar nossa destruição com prazer estético. Percebemos a necessidade de, como público, agir criativamente.

Os objetos criados se instalam na superfície da terra, sempre, para atender a necessidades primárias dos homens: comer, residir, se deslocar, ter consigo objetos úteis. Todo tipo de estrutura ou instrumento é, em si, resultado de muitas camadas: das histórias geológica, social e pessoal. As paisagens habitadas pelo homem trazem as marcas de suas técnicas e nos fazem perguntas. Os lugares são tempos empilhados, enigmas que esperam perguntas mais do que respostas.  Ícaro, com seus processos de viagem-coleta-deslocamento-arranjo-exposição, responde com perguntas, instaurando um tipo de corporeidade, um estado do corpo, que nasce de uma temporalidade própria que vai contra a espetacularização e a naturalização. As pessoas são os lugares onde estão. Às vezes, carregam consigo os lugares de onde vieram, às vezes se transformam nos lugares em que chegam, às vezes os dois. Nos rastros dessa investigação sobre a relação entre o homem e a terra, alteramos valores, exercitamos um novo olhar, conhecemos um novo corpo, nos encontramos como motores necessários e percebemos que, na procura do que procuramos, encontramos movimento.

*Cecília Meireles

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Crítica: Felipe Meres: Encontro de emergência: Sujeito aos atos de escape



(ao meu amor)


“Encontro de emergência: Sujeito aos atos de escape” é uma investida contra a impossibilidade. Felipe Meres apresenta trabalhos que cercam e penetram questões cruciais para uma pesquisa sobre identidade e relações afetivas. Esse é um tratado sobre vida, inquietação e imagem escrito na linha do eixo um-outro.

Em certos momentos do passado, alguns estudiosos das questões de gênero e identidade, procuraram lidar com as diferenças encaminhando-as a nichos universalizantes; em outros tempos, insistiu-se na particularidade; em outros tempos ainda, mais recentes, a afirmação da diversidade fez com que o espectro do sujeito parecesse por vezes mais reduzido e pálido e por vezes mais extenso e colorido. Porém, agora, se mostra necessário lidar com a viva mutação das cores. Teremos de ser capazes de compreender cada vez mais as diferenças mais sutis e a instabilidade, o hibridismo e a impossibilidade de categorização fixa das identidades.

Se entendemos que não é possível separar a humanidade em unidades identitárias emolduradas de maneira a representar satisfatoriamente todas as minorias, se mostra cada vez mais difícil e pertinente descobrir como lidar com os enigmas de um julgamento cujos processos e parâmetros são instáveis e, por isso, incapturáveis.

Uma das características formadoras mais importantes de uma sociedades como a nossa é a coexistência de diferentes visões e modos de habitar o mundo. Não apenas no mesmo espaço, mas no mesmo corpo. O corpo é o ponto de interseção de vários mundos. A interação de corpos é a negociação da realidade simultânea em várias camadas. Assim, reconhecemos a diferença como construtora do social – não apenas pelo conflito (como se pensou um dia), mas também pela troca, pelo acordo, pelo afeto, pelo amor. A negociação da realidade se dá, agora, numa rede multiplicadora de significados mutantes e, por isso, é geradora incessante de possibilidades. Se o amor é o que acende o porvir e é o que faz do tempo a criação, não deveria ser associado à impossibilidade ou ser usado para ligar eternidade e invariabilidade.

Para um estudo sobre sujeito e identidade, se faz preciso percorrer atentamente todos os circuitos das experiências do um. Na formação (que é mais como uma constante reforma do que uma formação com fim) das identidades, tudo é circuito, rodeio, curva, nuvem, movimento, discurso, ritmo, tempo, contra-tempo, contratempo, ponto, contraponto, desponto, inversão, reversão, diversão, versão, verso, tudo é refrão.

Todo um negocia a realidade com seu repertorio finito de experiências, porém em constante atualização. Atualizam-se os objetos de identificação, se atualizam os processos de identificação e se atualizam, também, as forças contrárias à natural possibilidade de transformação da identidade. (Utiliza-se “natural” aqui, mostrando que é possível, com palavras, dizer o oposto delas mesmas.)

Dessa forma, todas as noções de normalidade e desvio têm caráter instável e dinâmico e todos os limites entre norma e transgressão são colocados, constantemente, em xeque. Em um momento social como nosso, em que se tornam politicamente imponentes, no Brasil e no mundo, forças retrogradas (em Felicianos, bancadas evangélicas, passeatas contra o casamento entre homossexuais etc.), lançar o olhar atento sobre questões de identidade, transformação e amor se faz necessário.

É no encontro, quando dois ou mais conjuntos de diferenças mutantes são justapostos, que a riqueza do possível se faz evidente. É então quando podemos compreender o que nos é estranho, abraçar o que não podemos apreender: sem limitar as possibilidades de existência do outro ou nossas.

Mesmo problematizando a categorização do sujeito, Felipe reconhece a fatalidade da imposição limitante da linguagem. Ele poderia, por exemplo, ter desenhado placas de emergência, mas preferiu buscar as já existentes. A linguagem, conjunto do que já existe, é o ponto de partida para o escape. Essa exposição aponta as possibilidades (de escape e de encontro), mas não aponta o caminho para as mesmas.

Com essa mostra, Felipe aprofunda suas pesquisas sobre gênero e sexualidade, questionando a própria noção de "sujeito" como originária de uma prática discursiva reguladora. Refletindo sobre processos de construção, desabamento e reforma de identidades, aponta para a possibilidade de  novas categorizações.Felipe Meres faz, como eu, parte de uma geração gay (dita) pós-aids. Antes, num contexto onde a omissão oficial sobre as mortes por HIV configurava genocídio, houve grande e importante luta pela construção da identidade gay: para criar uma classe, ser visto, reconhecido, representado e tornado cidadão. Hoje, parece haver um movimento para não ser categorizado apenas como gay, e a busca por representação não visa apenas atingir um estado de igualdade. Hoje, somos 1, A, 12, M, (gama), 13,  N, nada, qualquer coisa e Feliciano não no representa.

A exposição convoca um encontro de emergência, um lugar no qual, em crise, nos reunimos para pensar e debater como agir. Mas reunimos todos, e não há instruções. Esse encontro de emergência é o lugar de onde algo pode emergir, surgir. Na linha do eixo um-outro, procuramos, lemos, escrevemos, retratamos, imaginamos e tentamos construir os caminhos do possível.