(ao meu amor)
Haverá
sempre a metáfora da constelação. Quando olhamos para o céu e reconhecemos, no
manto da noite, um conjunto de estrelas nomeado por sua forma, construímos
sentido único pra astros de tempos e lugares muito diferentes. Uma é menor,
mais nova e mais próxima. A outra é maior, mais antiga e mais distante. Uma
outra, de repente, nem está mais lá: já não existe há muitos anos, e ainda vemos
sua luz. Juntando os pontos luminosos no plano do desenho, damos a elas sentido
único. O artista é esse, portanto: o organizador das multiplicidades que busca
e organiza, por suas razões, elementos no tempo e espaço. Seu grande talento é
a capacidade de navegar e traduzir os interesses.
Ícaro
Lira apresenta, aqui, o resultado do projeto “Náufrago”, realizado durante residência
no litoral sul do Rio Grande do Sul como parte do projeto VETOR, ligado ao
Atelier Subterrânea. Porém, o que presenciamos aqui é mais do que a mostra de
objetos coletados, filmes-diários, cadernos-livros, instalações e fotografias. As pinturas medievais ou renascentistas,
representando cidades em perspectiva, inventaram um olho que não existia antes.
Era a visão do homem-deus que, antes, só Ícaro (o ser mitológico) alcançara.
Com a queda de Ícaro, a morte de Deus e a falência do Homem, é, novamente,
pisando o chão que nos lançamos na busca por verdade. O que presenciamos aqui é
Ícaro (Lira) nos propondo uma forma de olhar, nos apresentando uma maneira
especifica de investigar e nos envolvendo no questionamento sobre a relação
entre homem e terra.
Percebemos
a tensão entre o que é interno e externo. Em presença, o fotografado é vivo
para o fotógrafo. Na fotografia, o fotógrafo, presumido por trás da câmera, é
vivo para o público. É nesse encontro entre os dois e nas causas do interesse
de registrar, transportar e exibir que surge o afeto do trabalho. Fora e dentro
como domínio e destino - e vice-versa.
Ícaro
diz que gostaria de ficar sozinho, que tem vontade de silêncio, que carrega
livro sobre os campos de concentração no Ceará, que deseja entender os movimentos
migratórios, que migra pra descolar, que deseja estar na fronteira, que tem
dificuldade de comunicação, que não entende minhas perguntas. Edição, montagem,
colagem, exposição. “Corre um menino/por entre os séculos.//Corre um menino/solto,
sozinho,/na madrugada/de um país claro.// Assim te vejo/até agora/ náufrago
límpido/e solitário.”*. Perceba o encontro entre as palavras e as imagens. ”Pequenas conchas/estão nascendo/para escutarem/tua
paisagem.”*. Entre o “vamos juntos” e o “preferia não”.
Há
algo da prática de um cronista no posicionamento de Ícaro. A organização das
propostas por assuntos, a composição livre e o tom de coisa sem necessidade,
associados à prática diária, a um processo humanizado e à pertinência, tomam profundidade
negando a monumentalidade e a espetacularização. A leveza e a simplicidade
formais indicam a superficialidade dada às coisas explanadas e oferece, com
aparência de banal, a seriedade de uma proposta de experiência e reflexão.
Somos afetados sem floreios grandiloquentes. A ação, que, por vezes, tem tom de
pretensa gratuidade, dá, ao publico, a sensação da necessidade de ação: seja
para entender a gênese do que se apresenta, seja pra resolver a equação que se
recebe. Utilizando processos simples de anotação, registro e deslocamento, o
artista provoca uma tensão plena em ambiguidade, poesia e estranhamento para
assinalar intensamente sua função muito além da informativa. O processo
criativo do trabalho se confunde com o viver do artista-cronista. Selecionando,
deslocando e arranjando pedaços do que é vida, o resultado se assemelha e se
afasta do mundo.
Essas
insólitas substituições são gestos de genealogia antiartística que cria mistério
sobre algo apresentado não pela aura singular gerada pelo gesto à mão em sua
construção, mas sim pela presença do objeto (es)colhido no dado contexto. Quando
nos deparamos com alguns dos objetos e registros de “Desterro”, questionamos
seus motivos e, nesse percurso da dúvida, encontramos o compromisso ético e a
função política da arte. Percebemos-nos ainda a vivenciar nossa destruição com
prazer estético. Percebemos a necessidade de, como público, agir criativamente.
Os
objetos criados se instalam na superfície da terra, sempre, para atender a necessidades
primárias dos homens: comer, residir, se deslocar, ter consigo objetos úteis.
Todo tipo de estrutura ou instrumento é, em si, resultado de muitas camadas:
das histórias geológica, social e pessoal. As paisagens habitadas pelo homem
trazem as marcas de suas técnicas e nos fazem perguntas. Os lugares são tempos
empilhados, enigmas que esperam perguntas mais do que respostas. Ícaro, com seus processos de viagem-coleta-deslocamento-arranjo-exposição,
responde com perguntas, instaurando um tipo de corporeidade, um estado do
corpo, que nasce de uma temporalidade própria que vai contra a espetacularização
e a naturalização. As pessoas são os lugares onde estão. Às vezes, carregam
consigo os lugares de onde vieram, às vezes se transformam nos lugares em que
chegam, às vezes os dois. Nos rastros dessa investigação sobre a relação entre
o homem e a terra, alteramos valores, exercitamos um novo olhar, conhecemos um
novo corpo, nos encontramos como motores necessários e percebemos que, na
procura do que procuramos, encontramos movimento.
*Cecília
Meireles