Diário de Bordo do São José III (MCPUL - MA - Z6) do dia 19 de setembro de 2013.
(ao meu amor)
(ao meu amor)
Começamos nossa viagem
de volta da Ilha dos Lençóis às dez horas e cinco minutos da manhã de hoje.
Como estamos na temporada dos grandes ventos, serão seis horas e meia de barco
em igarapés e furos até Apicum Açu para evitar o mar aberto. Depois, serão mais
cinco horas de estrada até Cururupu, duas horas de ferryboat até São Luis, duas
horas de avião até Brasília e mais uma hora e meia de voo até São Paulo.
Neste pequeno barco de
pesca, além de mim e Ivan Grilo, estão os pescadores Bicho, João Carlos, Hélio,
Tango e Nango, os professores Nina e Natanael, a zeladora da escola Silvinha e
sua filha Silmara, além de Renata, Renan e Renato – respectivamente esposa e
filhos de Nango, o dono do barco.
Durante duas noites e
três dias, eu e Ivan moramos numa pousada amarela feita de madeira e palha,
que, na verdade, eram dois quartos na casa da família de Nango. Viemos até a
ilha buscando depoimentos sobre algumas lendas locais que nos pareceram, lá no
Rio de Janeiro, de frente ao laptop, muito interessantes às pesquisas recentes
de Grilo.
A História conta que
em 1554 nasceu o Príncipe Dom Sebastião, neto do Rei Dom João III e esperado
pelo povo português como “O Desejado”. Filho do Príncipe Dom João, falecido
antes de seu nascimento, subiu ao trono lusitano aos 14 anos. Dez anos depois,
organizou uma cruzada ao norte da África com 500 navios e mais de 20 mil homens.
Enquanto acontecia o combate, uma névoa desceu sobre a região marroquina de
Alcácer-Quibir e, ao se dissipar, Portugal havia perdido dez mil homens para a
morte, e o jovem rei, surpreendentemente, desaparecera.
Essa é a origem do
mito do Sebastianismo, uma espécie de messianismo à lusitana baseado na crença
de que, em alguma manhã no futuro, uma névoa entrará por Lisboa devolvendo ao
solo português o Rei Sebastião, “O Encoberto” ou “O Adormecido”, que haverá
passado todos esses séculos esperando a hora certa para voltar e salvar
Portugal, construindo um reino de paz, riqueza e união.
Acontece que Ivan
Grilo passou os últimos anos pesquisando formas diferentes de lidar com
fotografias de acervos institucionais e domésticos e, em importante parte de
sua produção, sobrepôs superfícies não translúcidas às imagens apropriadas.
Esse procedimento impedia que as imagens escolhidas por Grilo em longos e
complexos processos de seleção fossem completamente vistas pelo público; porém,
mais do que revelar parte da memória de uma instituição ou de uma família, Ivan
estava interessado em alimentar nossa enorme e inevitável capacidade
imaginativa. A partir de um dado momento, Ivan se lançou a pesquisar a ideia de
névoa ou neblina e chegou a utilizar algumas vezes vidro jateado sobre a
fotografia (às vezes apenas apoiado, outras vezes como parte da moldura).
Pesquisando neblina, chegou até a história de Dom Sebastião.
O curioso é que a
população da Ilha dos Lençóis, composta por menos de 400 pescadores
completamente isolados com suas famílias a 13 horas de São Luis do Maranhão,
que já chegou a ter vinte por cento de albinos em sua formação, acredita que
Dom Sebastião, o rei português desaparecido no Marrocos em 1578, reina na Ilha
com seu castelo embaixo d’água.
Sabendo disso, eu e
Ivan achamos importante fazer essa expedição e, menos de 15 dias depois dessa
ideia, estávamos reunidos no aeroporto de Campinas para iniciar nossa viagem.
Assim que chegamos ao
aeroporto de São Luis, fomos recebidos pelo motorista Patrick, que nos levaria
até o porto de Apicum Açu. Seu primeiro ato foi nos entregar um envelope com
alguns papéis contendo informações sobre a ilha e a região. Todos os impressos eram
estampados com fotos de revoadas de Guarás, grandes pássaros muito vermelhos
que se alimentam de pequenos crustáceos dos mangues da região. Pois uma pena
muito vermelha fechava o tal envelope. Patrick fez questão de dizer: “Vocês têm
de receber isso pra ir à ilha, mas precisam saber que essa não é uma pena
arrancada de um Guará.” Eu bem entendi. Aceitei, guardei a pena com cuidado e é
com ela que escrevo esse diário de bordo.
A viagem de ida foi
torturante. A paisagem que cortávamos e que nos cortava era enternecedora
demais, mas o mar tinha mais buracos e quebra-molas do que a estrada destruída
entre Cururupu a Apicum Açu. O barco balançou muito, nos jogou inúmeras vezes
de um lado para o outro, e chegamos à ilha completamente encharcados. Além
disso, carioca-pretinho-marrento, decidi fazer a travessia vestindo apenas uma
bermuda (mesmo tendo feito atenção às mangas e calças compridas dos pescadores).
Afinal: barco + sol = bermuda. Faltou apenas um Equador nessa equação.
Assim que chegamos,
cansados, molhados e queimados, percebemos que valeria a pena. Mas jamais poderíamos
imaginar tudo o que aconteceria.
Ainda nesse primeiro
dia, com alguma ansiedade disfarçada, perguntávamos a todos sobre as lendas que
afirmavam que Dom Sebastião vivia na ilha. Causando-nos uma enorme frustração,
nos respondiam apenas não conhecer as histórias, não saber contar nenhum caso
ou que nem mesmo acreditavam no mito do rei.
Fomos dormir muito
impressionados com a beleza da ilha: o mar era muito grande, as árvores, muito
verdes, as dunas, altíssimas. Nossos quartos tinham mosquiteiros que não usamos,
pois não parecia ter mosquitos por ali. As toalhas exibiam bordado o brasão da
coroa portuguesa. Às quatro da manhã, acordei com uma ventania que fazia a casa
tremer demais. Com toda aquela violência, a palha do telhado se levantava,
deixando entrar areia e todo tipo de inseto vivo ou morto. Os mosquiteiros que
não usamos serviam para não deixar o vento sujar a cama durante a noite.
Tomando o café da
manhã composto por frutas e tapioca, contei ter ouvido um cavalo passar muitas
vezes na frente da casa na madrugada. Renata logo me respondeu que não havia
cavalo na ilha, e Nango completou: “Mas você ouviu bem certo; era o cavalo do
rei. A gente ouve muito por aqui.” Eu e Ivan paramos os talheres no ar e
arregalamos os olhos. Essa era a primeira vez que nos falavam do rei, real, na
ilha. Todos os outros à mesa continuaram a fazer o que faziam. Tentamos seguir
com mais perguntas – sem sucesso.
Ainda frustrados entre
as pessoas, decidimos fazer uma trilha para conhecer e conversar com a própria
ilha (afinal, ela é o grande personagem). Laílson foi o encarregado de nos
guiar; começou o trajeto nos mostrando como chegar ao outro lado da enorme duna
enquanto nos revelava que, de tempos em tempos, objetos dourados são
desencavados da areia pelo vento. Talheres, joias, colares, moedas. “São parte
do tesouro do Dom Sebastião. O castelo dele é bem aqui, debaixo d’água.”
Saímos das dunas,
entramos no mangue. Ele disse: “Por segurança, pisem apenas nas raízes”, antes
de se embrenhar com rapidez suficiente para que o perdêssemos de vista em 15
segundos. Para desespero de Ivan (que aproveitava essa experiência no mangue para
perder um conjunto de medos carregados da infância), dei um passo mais
arriscado e minhas duas pernas afundaram de uma só vez na lama cinza cheia de
caranguejos até quase a linha do quadril. Antes de sair do buraco, chequei rapidamente
se o iPhone estava embaixo d’água ou no bolso de cima. No bolso de cima!
Saravá, Amém, Senhor. Mais à frente, Laílson nos apontou uma “planta medicinal”
e repetiu algumas vezes que aquela era uma planta e não uma erva. Eu e Ivan não
pudemos evitar a expressão de susto quando assistimos Laílson dar, sem
titubear, uma enorme dentada no caule, arrancando um pedaço da casca e
grudando-o numa ferida que tinha na perna. “É ótimo pra cicatrização. Faz não
inflamar.” Como deveriam, eu acredito em tudo.
Ainda na trilha, Laílson
nos ofereceu a frutinha de um cacto que ele afirmou ter o gosto da ilha (era algo
entre a lichia e o coco), nos ofereceu um cipó com o cheiro da ilha (algo como
cheiro de cipó), nos levou onde a duna está soterrando a floresta e pudemos ver
a areia escorrer como água sobre as árvores. Caminhamos por uma longa praia em
linha reta, para onde o mar traz restos de embarcações naufragadas, redes de
pesca perdidas e toda a sorte de provas dos dramas do mar. Lá, nos mostrou as
pequenas bases de pesca artesanal e nos contou que, devido ao vento, de seis em
seis anos todos trocam suas casas de lugar, quando estas começam a ser
engolidas pelas dunas. Pouco antes de voltar ao vilarejo, vimos as duas
gigantescas unidades de energia eólica, construída pelo governo Dilma, trazendo
energia elétrica para a ilha. Ao lado da base dos grandes postes, está o
“Cajueiro dos Anjos”, onde estão enterradas as crianças da ilha que não
resistiram ao parto ou que morreram antes dos 10 anos.
Fazia um calor indescritível.
Começamos nossa caminhada pela parte deserta da ilha às oito da manhã; não
tinha uma nuvem no céu, e só retornamos ao vilarejo às duas da tarde. Exaustos,
completamente empapados de areia e filtro solar, sentamos em bancos feitos de
troncos de árvore em frente à mercearia da ilha para tomar uma cerveja antes do
almoço. Aos poucos, as pessoas passavam, e nós as convidávamos para sentar
conosco. Revelei a eles que eu tinha ouvido passar um cavalo na madrugada, e me
contaram: “Uma senhora, das mais antigas aqui da ilha, vivia olhando tudo que
passava em frente à casa dela. Numa noite, ouviu um canto se aproximar, foi até
a janela e viu que se tratava de um grupo se aproximando fazendo orações. Uma
das pessoas se aproximou dela e deu uma vela acesa para ela segurar. Quando ela
piscou os olhos, estava segurando a perna de um cadáver.”
Tivemos de ir almoçar,
mas combinamos de voltar mais tarde para outra cerveja.
Depois de comer uma
deliciosa galinha caipira que pouco tempo antes passava por entre nossas pernas,
nos convidaram para visitar um farol que fica numa ilha próxima. Para chegar à
ilha do farol, era preciso ir de barco de pescador e depois remar numa canoa. Para
que não ficássemos frustrados mais uma vez, nos avisaram que o farol estava
quase caindo e que não poderíamos subir.
Era um farol enorme, fálico
como poucas coisas conseguem ser e listrado de branco e preto. Ao avistar a
grande construção e suas rachaduras, Ivan disse: “Ia ser lindo ver esse farol
cair.” Guardando o local, dois soldados da Marinha, que estavam lá, sozinhos,
havia quase três meses. O nome da vila deles esculpido em pedra: “Tenente Álvaro
– Hidrógrafo.” Durante dez anos de minha infância, eu dormi todos os dias com
camisas brancas e idênticas, herdadas da época em que meu avô materno era um
jovem no Exército. Nessas camisas brancas, que enrolavam meu corpo enquanto eu
sonhava, estava escrito “Tenente Álvaro”.
Um dos soldados veio
me cumprimentar efusivamente: carioca de Campo Grande, Rodrigues. Ivan nem se
mexeu e acenou de longe. Enquanto o segundo soldado mostrava um quadro
emoldurado com os dados da história daquele farol, Rodrigues trocava de roupa
para então nos convidar: “Vamos subir?!” Ao mesmo tempo, eu disse sim, e Ivan
disse não. O soldado insistiu, nós subimos.
No momento em que
entrei pela porta de ferro oxidada e trancada com correntes, minha sensação era
de que éramos três mortos. “Ia ser lindo ver esse farol cair” tinha dito Ivan havia
oito minutos. Assim que entrei pela porta do farol, éramos três mortos. Nas
paredes, rachaduras com dois dedos de largura. As vigas estavam completamente
expostas e enferrujadas. Rodrigues se esforçava em ser cativante, e eu sentia
que ele olhava e sorria demais para nós. Lá de cima, uma incrível vista da
ponta da mata amazônica, de vários tipos de mangue, de revoadas de guarás, garças
brancas, garças morenas, maritacas e papagaios, dos rios, do mar e, ao longe,
na beira do horizonte, de uma grande duna. Em todo o tempo que passamos sobre a
areia da Ilha dos Lençóis, não vimos o farol.
Cantando como a sereia,
Rodrigues nos convidava para subir cada vez mais alto. Escalamos o assustador
caracol de concreto, e o soldado, sorrindo, nos indicou que não fôssemos na
varanda, pois ela não era muito segura. Mesmo assim, nos convidou para subir
mais uma escada, vertical, de ferro, que acabava em um buraco quadrado no teto com
50 cm em cada lado. Lá em cima, éramos nós três mortos e a lâmpada apagada.
Perguntamos sobre as
lendas locais, e Rodrigues nos respondeu: “Dizem que aqui é a ilha dos amores,
mas não acredito nisso.” Nunca nos haviam dito que aquela era a ilha dos
amores. Não existe essa lenda. Só para Rodrigues que, então, já nos convidava
para dormir com ele na vila aquela noite. “Vai ter bolo!” Disse que poderíamos
voltar a pé para nossa ilha de manhã.
Saindo finalmente pela
tal porta de ferro oxidada, o soldado quis nos mostrar uma jiboia de 8 metros
que morava nas bases do farol. Agradeci e recusei o estranho convite. Descemos
com a sensação de termos passado cinco minutos dentro da construção. Nossos guias
disseram que foram cinquenta longos minutos.
Na canoa da volta,
Ivan me revelou que Rodrigues não conseguia disfarçar o encanto com o meio das
minhas pernas. Eu, sinceramente, não havia percebido seu interesse nem havia
entendido para onde as sereias nos convidam: subir em farol ruindo, conhecer uma
jiboia de 8 metros, andar a pé entre duas ilhas num local onde a maré tem grandes
variações. Rezei agradecendo à cera milagrosa de Santo Ulisses da Grécia.
Antes de voltarmos
para nosso canto na Ilha dos Lençóis, paramos em uma comunidade vizinha chamada
Bate-Vento. Um senhor de 85 anos chamado Jacó (ou talvez esse fosse o nome de
seu irmão) havia nos prometido um par de cocos por termos dado a ele uma carona
de barco entre Apicum Açu e Bate-Vento. Nessa ilha, sem dunas ou mangues, há
uma comunidade um pouco maior, com casas de alvenaria, nomes de políticos
locais pintados nas fachadas (como em todo o interior do Maranhão) e uma atmosfera
assustadoramente soturna. O ar parado do lugar contrastava com nossa experiência
nas ilhas vizinhas e com o próprio nome desse vilarejo. Jacó, muito negro,
muito magro, muito enrugado e com os olhos quase completamente brancos pela
catarata, conversou conosco na beira de um largo e profundo poço. Com nossos
rostos refletindo na água preta e viscosa, ele nos contou, com vergonha, que não
poderia nos dar os cocos, pois não podia subir sozinho nos coqueiros de 7
metros de altura que ficam em seu quintal. Agradecemos por ter nos recebido e fomos
embora para encontrar, em nossa ilha, o pôr do sol mais impressionante que já
vimos.
Depois do jantar, fiquei
à mesa conversando com o pai de Nango. Ele é uma figura muito misteriosa que
passou quase todo o tempo ao nosso lado sem falar uma única palavra. Percebi, sozinhos
à mesa de jantar, que aquela seria minha melhor oportunidade. Maneco, como é
chamado na família, enquanto fumava seu cigarro enrolado, respondia as minhas
perguntas com “sim”, “não” ou nada dizia. Após alguns minutos de esforço,
consegui descobrir que a comunidade da ilha era majoritariamente católica, com
nenhum evangélico e um belo terreiro de candomblé do qual ele, Maneco, era o líder,
pai de santo. Segundo Maneco, era o curador da ilha.
Esse terreiro com
ritos do tambor-de-mina fora fundado por um maranhense que “fez santo” na Nigéria e consagrou o barracão a Oxalá. Mesmo assim, a
maior festa da ilha é para Oxóssi. Como se sabe, no sincretismo, Oxóssi é São
Sebastião, e, na ilha, São Sebastião é comumente confundido com Dom Sebastião.
Quando Maneco,
amaciado, nos convidava para voltar à ilha em janeiro para a festa de Oxóssi,
Nango entrou no cômodo após um banho de água de poço nos lembrando da cerveja
prometida para essa noite na mercearia. Se Nango não tivesse chegado nesse
momento, talvez Maneco tivesse tido tempo de nos contar sobre a Encantaria de
Mina, que cultua voduns, pessoas que viveram, mas não morreram: se encantaram e
voltam a esse plano no corpo em transe dos iniciados. Talvez, se tivesse tempo,
Maneco nos explicaria como a presença do tambor-de-mina na matriz religiosa
regional abria caminhos para a crença no reinado de Dom Sebastião. Talvez, ele
até teria tido tempo de nos explicar que, na Encantaria de Mina (que tem culto
até em São Paulo), existe a chamada “Família de Lençol” com os denominados
encantados gentis: nada mais nada menos que Dom Sebastião, Dom Luís, Dom
Manoel, Dom Felipe, Rainha Bárbara, Príncipe De Oliveira etc. se manifestando
no corpo dançante dos iniciados. Mas não houve essa chance. Fomos à cerveja.
Depois de muitas
garrafas, éramos um grupo de seis homens e uma mulher. “Se me oferecem uma
viagem ao Rio de Janeiro com avião e hotel pagos, eu digo muito obrigado. Mas
não vou.” “Lá no Oriente Médio ninguém morre sozinho. É só 200 mortos, 500
mortos. Outro dia, no Egito, morreram mais de mil numa manifestação!” “Como
vocês conseguem ter barba? Aqui na ilha ninguém tem barba.” “Como é encontrar
os atores da Globo nas ruas do Rio?” Umas cervejas a mais e começam a nos
contar histórias do Rei. “Uma vez, apareceu um homem e comprou vinte quilos de
farinha. Mandou jogar tudo na água e desapareceu.” “Um dia, um homem sonhou e
mandou que desmontassem uma casa que estava atrapalhando a carruagem do Rei de
passar. Não desmontaram e sofremos um acidente em Cururupu em que quase
morremos. Mostra a cicatriz pra eles, Laílson.”. Estava lá a cicatriz de 20
centímetros na coxa do homem. “No inverno, a terra treme e a areia engole bois
inteiros que ficam apenas com o pescoço pra fora.”
(Reparo, agora, no
barco, que Nango não fez a barba hoje!)
No caminho de volta
para a pousada, sem que perguntássemos, um menino nos contou que foi preso por
ter dedado outro menino. Pensamos que fosse “dedurado”. Não, era dedado mesmo.
Já ao redor da mesa da
casa, Renata nos contava como ela tinha sonhos premonitórios. Uma vez sonhou
com um choro de Renato. Algumas horas depois, Renato tinha o pescoço
atravessado por um ferro da cerca da casa. Quase morreu, mas o anjo do sonho
ajudou. Outra vez, sonhou que Nango tinha outra mulher, baixinha e morena,
enquanto ela paria Renan. Era verdade. Quando ela viu a mulher, soube quem era.
Ela nos contava como rezavam e veneravam Dom Sebastião como fosse Deus. Quando
dissemos que queríamos ir à duna naquela noite de lua cheia, nos disse que
rezássemos, lá, para o Rei Sebastião.
Eu, Ivan, a lua cheia,
a ventania e a duna. Não precisamos muito da lanterna. De tão clara que era a
noite, parecíamos andar sobre montanhas de talco lunar. Por completo acaso,
chegamos à ilha nos dias de lua cheia. Dizem que durante a lua nova (chamada,
aqui, de Luz de Escuro) tudo é mais assustador. Não sei como poderia ser mais
assustador.
Depois de alguns
minutos conversando, sozinhos, enquanto nossos celulares buscavam algum sinal
(só funcionavam em alguns poucos metros quadrados no topo do monte de areia),
vi uma lanterna azul piscar. Era tão real que, de início, pensei que fosse
alguém chegando. Não era. Logo entendi que era o Rei Sebastião se mostrando para
a gente. Antes daquilo, achávamos que acreditávamos na lenda. A partir de
então, tudo que ouvimos, mais do que narrativa, era real. Tão real quanto
aquele vento que nos socava as costas. Daí em diante, o medo do absurdo tomou
conta de nós dois. Algumas árvores à distância pareciam cavalos. Ou eram
cavalos que não andaram na nossa direção. Ficamos alguns minutos decidindo se
caminhávamos até o fim da duna ou não. O vento era forte demais e batia em
nossas costas. Eu queria ir. Ivan não queria. Ivan quis ir. Eu dei para trás.
Eu topei. Decidimos ir ao fim da duna.
Andamos lentamente
como se fôssemos entrar em um caminho sem volta. Não estávamos errados. Ao
descer a última curva da grande duna, o vento cessou. Parou. Silêncio. Olhamos
para trás, não podíamos mais ver o vilarejo. À frente, água escura nos
separando de outra ilha. Sem o vento, não precisamos dizer uma palavra.
Sentamos sobre aquele silêncio e o vento que não corria fazia parecer que o
tempo tinha parado. Talvez tenha parado.
Sentados, juntos,
encarávamos a água escura da noite. Foi quando, então, entre nós e o azul
marinho, surgiu uma figura no ar. Era Rei Sebastião, coroado em seu cavalo. Não.
Na verdade, não era. Poderia ter sido. Mas a figura que apareceu entre nossos
olhos e o mar surgiu e se desmanchou muito rapidamente. Fez questão de mostrar
que poderia aparecer com a forma que quisesse. Mas não vimos o Rei em forma de
Rei. Com o susto pela fagulha de fantasma sem forma, perdi a respiração por um
tempo e os olhos encheram de água. Ivan perguntou se estava tudo bem. Eu, que
não tinha tido medo de mangue, de louco, de bicho, de sol nem de naufrágio, fui
frágil diante do Rei. Quem não é frágil diante do Rei? Mais dois minutos de
silêncio com os olhos arregalados pedindo que tudo entrasse pelas pupilas e
Ivan perguntou: “Você está vendo isso?” “O quê?”, perguntei eu, já acreditando
que poderia, então, naturalmente ver o tal touro com estrela na testa de que
eles tanto nos falaram.
- A dobra do mar.
Por mais absurdo que
isso soe, estávamos eu e Ivan diante de uma parede d’água. Estávamos secos, mas
a linha do horizonte estava acima de nós mesmos; a duna descia até embaixo do
mar, e o local onde estávamos, sentados na coluna da duna, era para ser embaixo
d’água. Estávamos diante de uma parede de água! Aquilo era muito mais absurdo
do que um touro com estrela na testa. E era tão real que não havia mais medo.
Depois de um tempo,
andamos para trás com calma e lembramos que Renata nos dissera para rezar para
o Rei Sebastião. No topo da duna, o vento voltara com toda a sua força.
Ajoelhamo-nos. Vimos, ao longe, a luz do farol piscar pela primeira vez. Perguntei
se Ivan gostaria de falar alto. Ele disse que não conseguiria. Eu tomei a
palavra. Quando pensamos que já havíamos vivido de tudo, assim que eu comecei a
agradecer, a areia da duna começou a subir, verticalmente, do chão para o céu,
arrastando em nossos rostos, grudando em nossos céus da boca. Disse estar grato
por termos chegado com segurança, por ele ter se manifestado para nós, por
termos vivido esses dias na ilha em alegria. Pedi que nos levasse de volta em
segurança até o porto de Apicum Açu. Disse que o reconhecia como soberano
daquela ilha.
- E vida longa ao Rei!
Voltamos sem falar uma
palavra. Os cachorros latiam para nós, a lua enorme mostrava o caminho e as
aranhas que por ele andavam. Mais uma madrugada de ventania.
Hoje de manhã,
caminhando pela praia, nos preparando para entrar nesse barco para a volta,
encontrei uma concha de ouro. Se isso tivesse acontecido no primeiro dia,
teríamos achado muito impressionante. Nesse último dia, depois da noite
passada, achamos natural. Diz a lenda que quem leva algo da Ilha dos Lençóis
naufraga. Não tivemos dúvida do que fazer.
Há alguns anos, um
professor da UFRJ chamado Claudicélio Rodrigues da Silva decidiu fazer sua tese
de doutorado sobre como a figura do Rei Sebastião na poesia oral local nutre
imaginários por essas ilhas. Realizou um trabalho lindíssimo e conseguiu até
mesmo construir, nessa ilha a 13 horas de São Luis, o “Memorial Dom Sebastião”.
Fomos visitar o memorial nessa manhã antes de entrar no barco. Para nossa
surpresa, uma biblioteca bem-montada é o primeiro cômodo da casinha vermelha.
Não é à toa que Nango tinha um exemplar de A
metamorfose na estante de casa. O povo da ilha tem mesmo o hábito de ler.
Atravessando uma cortina de contas e conchas, chegamos a outra sala na qual fomos
recebidos por uma estátua de mais de um metro e vinte centímetros de altura de
São Sebastião. Sem as flechas. Aos seus pés, um alguidar (vasilha de barro
redonda, utilizada comumente em ritos de religiões afro-brasileiras) onde os
moradores da ilha colocam os talheres, joias e correntes de ouro encontradas na
ilha. Eis o destino certo de nossa concha.
Eu e Ivan paramos um
tempo com o olhar fixo nas dunas e no tanto de areia levantada. Eu disse que se
o Rei Sebastião sumiu em uma névoa, poderia facilmente reaparecer numa
tempestade de areia. Ivan, então, lembrou que Alcácer-Quibir é uma região seca
do Marrocos e que neblinas só acontecem em lugares úmidos e frios. Desde
sempre, Dom Sebastião havia sumido numa nuvem de areia. E Portugal esperando
uma névoa.
Enquanto nos
despedíamos de Laílson e Maneco, várias pessoas vieram pedir carona no barco
onde comecei a escrever esse texto. Agora, já saímos da embarcação, já andamos seis
horas de carro e duas horas de ferryboat. Já estamos quase chegando no
aeroporto. É claro que a viagem foi cansativa, mas, por algum motivo, foi menos
cansativa do que a ida. Eu e Ivan trocamos poucas palavras durante quase todo o
trajeto.
Quando sentamos lado a
lado no ferryboat, começamos a conversar. Nesses dois dedos de prosa,
percebemos que, como imaginamos, a viagem à Ilha dos Lençóis seria
transformadora para a produção de Grilo. Com todo o vivido, ficou claro para
nós dois que, mais do que um interessado em documentos e fotos de acervo, Ivan
age como um grande contador de histórias. Antes, por vezes, Ivan se lançou
sobre arquivos institucionais e domésticos para criar comentários e próprias
versões sobre o objeto pesquisado com o uso da apropriação e da não exibição
das imagens selecionadas. Agora, Ivan se debruça sobre o mundo, sobre o que
vive, para então, se apropriando do que é vida e, por definição, inexibível,
elaborar seus comentários e tecer suas versões. Já estou no Aeroporto de São
Luis e percebo que esse texto é minha forma de contar o que vivemos nessa
viagem e o que a Ilha dos Lençóis foi para nós. A exposição “Sentimo-nos cegos”
é, sobretudo, a forma de Ivan Grilo.
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