ao meu amor
(Quem canta um conto, conta com quanto? É só um conto das antigas pra reanimar.)
E ele se foi. Não que ele quisesse. Eu também não queria. Mas chegou sua hora de partir. Depois de me mostrar como se deve viver, depois de ensinar ao mundo que se pode ser feliz independente de qualquer coisa; missão completa; ele se foi feliz.
Eu o conheci antes de ele ter esse espírito falador. Por confiar muito em mim, logo se tornou muito dependente. E eu era dependente da dependência dele! E foi assim pelos 10 15 anos que seguiram nosso primeiro olhar. Depois, ele decidiu criar asas, ganhar novos ares. Mas nunca perdemos esse laço que nos ligava. Ele sempre com novas amizades, novas paixõesinhas, novos ambientes, novos gostos. Mas nossa relação nunca se perdeu.
23 anos juntos e ele sempre feliz. Um dia, ele começou a sofre muito. Eram muitas provações juntas: em um dos dias mais triste da vida, seu pai morreu; foi traído por uma tal mocinha que ele se encontrava havia 6 anos; seu melhor amigo foi pra Oceania cuidar de uma ONG de eco-loucos. Nada estava dando certo pra ele.
Como eu sofria em vê-lo assim..
Mas um dia, os castanhos olhinhos tristes secos e caídos deram lugar ao sorriso brilhante que eu tanto gostava. De inicio, me preocupei: “será que está se alienando pós-traumas? Será que está enlouquecendo?”. Logo percebi meu erro. Ele estava mais antenado do que nunca.
Contradizendo seu discurso ateísta, dizia pra mim que a morte do Pai era “a passagem pra um lugar melhor”. A traição da outra era “um alerta do destino pra acordar da paixão louca e ver que não era pra ele estar com ela”. A viagem do amigo tinha boa causa: alias, “o que seria do mundo sem os marsupiais?”.
Ele dizia essas coisas com aquele seu olhar de menino feliz: inseguro, inconseqüente, alegre, carente e pleno de utopias bobas.
Ele decidiu então ajudar os outros com esse seu novo modo de viver a vida. Visitava asilos, orfanatos, hospitais, creches, falava com moradores de rua, etc.. Fez todos verem o mundo pelo seu modo mais feliz. Sua felicidade se baseava na felicidade de quem ele ajudava.
Há 2 meses, ele começou a adoecer. Com causa desconhecida, ele , que tinha um corpo maravilhoso, iniciou um processo de emagrecimento intenso. Seus movimentos foram ficando mais fracos, lentos, custosos.
Nessa ultima semana, ele piorou muito. E só eu sabia daquele estado em que ele se encontrava. O mundo estava feliz como ele o havia deixado. Só eu sofria essa tristeza. Com ele, morreria minha felicidade.
Ontem, ele dormia e eu chorava muito imaginando sua morte, seu enterro, eu sem ele. Ele abriu os olhos e perguntou “Porque está chorando?”. Eu respondi que era pelo medo de sua morte e ele respondeu que aquela era a passagem dele, o momento dele e que o mundo prosseguiria sem ele. Pediu pra eu continuar minha vida e sua missão.
Eu ri e fiquei orgulhosa por ele se preocupar comigo e com todos mesmo nos seus últimos momentos. Garanti-lhe que estava feliz. Realmente estava! E, então, ele suspirou, olhou pra mim e sorriu como quem dissesse “Até mais, mãe...”
In MC we trust (por 7A)
Há 15 anos
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