segunda-feira, 13 de julho de 2009

Crítica: Biblioteca - Araken

(ao meu amor)

(pq crítica com amor é outra coisa)

A partir do dia 30 de junho, estará aberta no 2o andar do MAM a exposição "Biblioteca" do artista Araken. A exposição contará com mais de mil pinturas do artista dispostas nas páginas de 33 livros apoiados sobre duas asas de avião. Os trabalhos apresentados, elaborados nos mais diferentes materiais - de resina e betume a tinta e verniz -, são o resultado de uma formação um tanto incomum: Araken fez carreira como aviador na aeronáutica, depois, por um longo período, estudou filosofia e teologia e, já há mais de 40 anos, se dedica à teoria, história e produção de arte.

Na introdução do livro "A Água e os Sonhos", o autor Gaston Bachelard escreve: "Para conhecer o homem, dispomos apenas da leitura, da maravilhosa leitura que julga o homem de acordo com o que ele escreve. Do homem, o que amamos acima de tudo é o que dele se pode escrever. O que não pode ser escrito merece ser vivido?". Araken parece achar que sim. Ele vem com essa exposição criticar a noção de que só se apreende o mundo pela razão: colocando as pinturas abstratas (puro sentidos - pura sensibilidade) para dentro dos livros (trono sagrado da linguagem escrita, símbolo da racionalidade), Araken propõe outros caminhos para o tangenciamento da realidade. A noção platônica de que a verdade do mundo não é revelada à comum percepção dos sentidos, mas apenas pelo exercício do raciocínio (que está arraigada na lógica aristotélica, na teologia tomista e no cogito cartesiano) é colocada em questão nesta exposição.

Colocando pinturas em páginas de livros abertos, Araken empresta o título de "via para a verdade" à arte e critica nosso cientificista mundo que elegeu a razão como esse único caminho. A Biblioteca de Araken poderia remeter a Guilherme de Occan, base do empirismo, ou a Nicolas d'Autrecourt, seu seguidor, que, na Idade Média, afirmava que os dogmas da Igreja baseados exclusivamente na razão não possuíam valor, mas, se baseados na fé, fariam todo o sentido. Afinal, a fé nada mais é do que a crença no que é absurdo (vide Shestov), no que é além-razão. Ainda caminhando na filosofia, a instalação poderia remeter à noção espinosista de que "a mente e o corpo são uma coisa só, o que é concebido ora sob o atributo de pensamento, ora sob o atributo de extensão". Admitindo e negando a separação do corpo e da mente, Espinosa admitia a sensibilidade como razão e além-razão. Mas não. Não foi por esse caminho que cresceu o pensamento de Araken. O artista, religioso, diz: "No mundo das artes, não se dá muito espaço para quem fala de crença, religião e fé, mas era um sonho meu juntar fé, sensibilidade e razão.". A instalação, que fica até dia 23 de agosto no MAM conta ainda com um vídeo que tenta aproximar o visitante da dinâmica produtiva do artista e trilhado pela peça musical Pavane pour une infante défunte de Ravel que marca talvez a entrada do artista em sua maturidade na delicadeza da arte.

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