sábado, 3 de agosto de 2013

Arte para além do mercado de arte.

A matéria “Arte com ou sem galeria?”, publicada na capa do Segundo Caderno no dia 16 de julho de 2013, me estimulou a escrever uma continuação ao texto que aprofundasse a discussão de uma maneira mais fértil. Devo dizer: é preciso desconfiar de quem atribui caráter exclusivamente negativo ao mercado e suas instituições: esse, como qualquer discurso maniqueísta, indica fragilidade crítica.
Cada artista deve descobrir as próprias formas de relação com os outros agentes do sistema da arte contemporânea e elaborar a estratégia que melhor favoreça a sua produção. É possível (e devemos) construir e ampliar formas de circulação e viabilização da produção que sejam independentes das galerias. Para os poucos que tem esse tipo de vínculo, a relação entre artista e galerista não é uma imposição vertical: é um contrato construído por pelo menos duas partes. Acredito que é preciso que o artista entenda que é o grande produtor desse sistema, perceba o poder que tem por isso e imponha mais suas condições a essas relações.
É claro que é fundamental que os artistas, principalmente os mais novos e ainda inseguros em relação à própria produção, sejam cautelosos nas relações com o mercado. É preciso ter mais ouvidos para as necessidades fundamentais do trabalho do que para os desejos do comércio. Muitas vezes, meninos recém-saídos da universidade seguem instruções de maus galeristas para fazerem trabalhos maiores, com outros processos, com outros motivos ou em outros materiais sem perceber se essas modificações elevam a qualidade do trabalho ou apenas aumentam seu potencial de venda.
É preciso, também, evitar a ansiedade pelo mercado. Nessa semana que passou, circulou no facebook o anúncio de um curso em São Paulo que custava 1500 reais para ensinar os artistas a se inserirem no mercado. Oferecia até dicas para arrumação de ateliê.
Durante décadas, reclamamos que não havia mercado de arte no Rio de Janeiro. Hoje, reclamamos que há um mercado forte demais. É preciso mais do que espernear: temos de construir conhecimento e fazer proposições. Em geral, de fato existe limitação para o trabalho dos artistas nas galerias. Mas já existem instituições desse tipo que são menos viciadas nos moldes tradicionais de “comércio de arte”. Existem boas galerias que se constroem como parceiros dos seus representados, fazendo as exposições comerciais em suas salas, gerando circulação para a obra do artista nas feiras, apresentando o trabalho a críticos e curadores, ajudando os artistas a publicarem livros, agenciando exposições em instituições e auxiliando a se inscreverem em residências, prêmios e editais. Existem galeristas antigos que não se atualizaram, mas existem aqueles novos querendo crescer junto de sua geração de artistas. É preciso se questionar se de fato é interessante estar vinculado a alguma galeria e ponderar muito para saber a quem se associar. E se faz fundamental, nessas relações, saber exigir mais e de forma mais clara, direta e objetiva.
Até mesmo as feiras de arte (cheias de “estandes” de galerias) que, tradicionalmente, eram a ponta mais infértil, violenta e ostensiva do mercado, hoje em dia, têm importantes projetos experimentais e educativos. Cada vez mais, se tornam importantes espaços de pesquisa.
É evidente que nós, curadores, devemos estar com as pesquisas voltadas para além das galerias, mas é de um romantismo injustificável afirmar que os artistas “sem galerias” são necessariamente melhores ou mais genuínos do que aqueles inseridos no mercado. Para nós, é fundamental estar atento, também, às escolas de arte, às mostras coletivas, aos portfólios que recebemos, aos prêmios, aos salões, às universidades, às residências, à internet e aos espaços alternativos.
Tenho pesquisado, há algum tempo, experiências no Rio de Janeiro para ativações de espaços expositivos não tradicionais. É bem verdade que, no começo dos anos 2000, tivemos os incríveis Orlândias, mas seria injustiça reduzir todas as experiências aos eventos organizados basicamente por Márcia X e Ricardo Ventura. Desde então, tivemos as experiências do Grupo Py, os eventos do Grupo UM, Associados, Agora, Capacete, Atrocidades Maravilhosas, o Projeto Apartamento, Inhame, Barracão Maravilha, Norte Comum e o Hotel da Loucura, além de muitos outros. É preciso estar atento. Eu mesmo fiz minha primeira curadoria na minha casa (Liberdade é Pouco. O que desejo ainda não tem nome.). Já construí até mesmo projetos em parceria com galerias que não tiveram nenhuma interferência institucional visando diretamente o mercado (como o festival de performances “Vênus Terra I pela lei natural dos encontros”, que contava com performers de 10 estados brasileiros no galpão da galeria TAC, na Lapa).
É preciso ir além dos discursos caducos que atribuem valores exclusivamente positivos ou negativos ao mercado e suas instituições. Mostra-se fundamental descobrir maneiras de como se aproveitar dessas estruturas, pervertê-las, reformá-las e de tirar o melhor dessas relações. E é preciso descobrir formas de criar novas rotas paralelas mais adequadas para aqueles que precisam delas. É preciso, ainda, construir conhecimento de uma forma mais fértil sobre as relações entre arte e mercado – para além do mercado.