A vida residente
(ao meu amor)
Fyodor Pavlov-Andreevich se assustou com os inúmeros
eventos de tortura, violência e sofrimento ausentes da biografia de Gregori
Warchavchik. O arquiteto judeu, nascido em Odessa em 1896, poderia ter sido
morto pelo Império Russo em seus pogroms, pela grande fome na Ucrânia nas
décadas de 1920 e 1930, pelas forças alemãs nazistas em seus campos de
concentração e execução ou pelos soldados stalinistas em suas temidas prisões
políticas. No total desses eventos, foram tiradas mais de 13 milhões de vidas.
Porém, Warchavchik não passou por nada disso. Ainda jovem, saiu de Odessa,
terminou os estudos de arquitetura em Roma, conseguiu chegar ao Brasil e
construiu para si, na cidade de São Paulo, aquela que é considerada a primeira
casa modernista do País.
Acreditando que o espaço imaginativo experimentado no
processo criativo da arquitetura é o mesmo habitado pelos que agem no universo
da performance, Pavlov-Andreevich reconheceu em Warchavchik outro russo
encantado pelo Brasil. Fyodor decidiu, então, que, com esta exposição,
construiria, sobre a casa de Gregori, sua própria residência em São Paulo. Nesse
palimpsesto, nasce Pavlov-Andreevich-Warchavchik: o personagem macabro e
irônico que sorri ao mesmo tempo em que atua nas fantasias de Pavlov-Andreevich
sobre as experiências violentas que o arquiteto não viveu.
Na cozinha e em alguns dos banheiros da casa, discretas
estruturas foram construídas de modo a simular azulejos luminosos entre os
originais. Em meio aos quadrados de cerâmica antigos, imagens em preto e branco
levemente iluminadas pela parte de trás mostravam montagens fotográficas em que
uma mesma figura masculina sorri inserida nas cenas de violência que
Warchavchik poderia ter vivido. Em todas as imagens, percebia-se a presença de
corpos mutilados, cadáveres, prisioneiros e famintos - e aquela face sorridente
e recorrente era o rosto de Fyodor sobreposto a imagens de arquivo que
mostravam cenas dos subúrbios famintos de Odessa, dos campos de concentração
nazistas, das prisões de Stalin, etc. Laughterlife,
o título da exposição, aproxima as palavras laughter (riso) e life (vida) para
aludir a afterlife (vida após a morte). Com os trabalhos desta mostra,
Pavlov-Andreevich dá vida a Warchavchik para que este possa morrer,
gargalhando, as mortes que não viveu.
As jardineiras da varanda do segundo andar da casa foram
impermeabilizadas e pintadas de preto para que se tornassem espécies de
pequenas banheiras macabras onde boiavam negros patos de borracha que
carregavam, sobre o pescoço anserino, a cabeça de Warchavchik. O humor gerador
deste trabalho é recorrente estratégia na obra de Fyodor. Estendendo o olhar do
alto da varanda para o jardim, era possível avistar a mesma estranha quimera
Pato-Warchavchic, em sua versão agigantada, flutuar sobre uma grande parte da
piscina que estava coberta por folhas secas recolhidas nas bases das árvores
que circundam a casa.
Porém, uma parte menor da piscina permanecia vazia – sem
folhas e sem água: em seu fundo sujo, ao longo da tarde de abertura da mostra,
podíamos ver esticado o corpo nu de Fyodor girando de uma extremidade até a
outra continuamente. Durante a execução dessa performance desenvolvida
especialmente para esta exposição, a mesma terra que manchava o corpo de
Pavlov-Andreevich se acumulava no encontro entre os azulejos brancos do fundo,
e, de repente, Fyodor não se movia apenas na parte mais profunda da piscina:
movimentava-se sobre a grade modernista. Mesmo com a proposta repetitiva – que
poderia ser análoga à lógica Ford-modernista – eram as diferenças que surgiam
em cada volta (por fadiga ou para proteger o corpo) que nos saltavam aos olhos.
Sob o olhar do público, era o corpo vivo que vencia a grade.
Assim, estava pronto o palimpsesto: e percebemos que
sempre esteve na vida residente em Warchavchic o grande interesse de Fyodor.
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