terça-feira, 11 de novembro de 2014

Crítica: Fyodor Pavlov-Andreevich (artista convidado pelo Centro Cultural São Paulo para exposição na Casa Modernista)

A vida residente


(ao meu amor)

Fyodor Pavlov-Andreevich se assustou com os inúmeros eventos de tortura, violência e sofrimento ausentes da biografia de Gregori Warchavchik. O arquiteto judeu, nascido em Odessa em 1896, poderia ter sido morto pelo Império Russo em seus pogroms, pela grande fome na Ucrânia nas décadas de 1920 e 1930, pelas forças alemãs nazistas em seus campos de concentração e execução ou pelos soldados stalinistas em suas temidas prisões políticas. No total desses eventos, foram tiradas mais de 13 milhões de vidas. Porém, Warchavchik não passou por nada disso. Ainda jovem, saiu de Odessa, terminou os estudos de arquitetura em Roma, conseguiu chegar ao Brasil e construiu para si, na cidade de São Paulo, aquela que é considerada a primeira casa modernista do País.

Acreditando que o espaço imaginativo experimentado no processo criativo da arquitetura é o mesmo habitado pelos que agem no universo da performance, Pavlov-Andreevich reconheceu em Warchavchik outro russo encantado pelo Brasil. Fyodor decidiu, então, que, com esta exposição, construiria, sobre a casa de Gregori, sua própria residência em São Paulo. Nesse palimpsesto, nasce Pavlov-Andreevich-Warchavchik: o personagem macabro e irônico que sorri ao mesmo tempo em que atua nas fantasias de Pavlov-Andreevich sobre as experiências violentas que o arquiteto não viveu.

Na cozinha e em alguns dos banheiros da casa, discretas estruturas foram construídas de modo a simular azulejos luminosos entre os originais. Em meio aos quadrados de cerâmica antigos, imagens em preto e branco levemente iluminadas pela parte de trás mostravam montagens fotográficas em que uma mesma figura masculina sorri inserida nas cenas de violência que Warchavchik poderia ter vivido. Em todas as imagens, percebia-se a presença de corpos mutilados, cadáveres, prisioneiros e famintos - e aquela face sorridente e recorrente era o rosto de Fyodor sobreposto a imagens de arquivo que mostravam cenas dos subúrbios famintos de Odessa, dos campos de concentração nazistas, das prisões de Stalin, etc.  Laughterlife, o título da exposição, aproxima as palavras laughter (riso) e life (vida) para aludir a afterlife (vida após a morte). Com os trabalhos desta mostra, Pavlov-Andreevich dá vida a Warchavchik para que este possa morrer, gargalhando, as mortes que não viveu.

As jardineiras da varanda do segundo andar da casa foram impermeabilizadas e pintadas de preto para que se tornassem espécies de pequenas banheiras macabras onde boiavam negros patos de borracha que carregavam, sobre o pescoço anserino, a cabeça de Warchavchik. O humor gerador deste trabalho é recorrente estratégia na obra de Fyodor. Estendendo o olhar do alto da varanda para o jardim, era possível avistar a mesma estranha quimera Pato-Warchavchic, em sua versão agigantada, flutuar sobre uma grande parte da piscina que estava coberta por folhas secas recolhidas nas bases das árvores que circundam a casa.

Porém, uma parte menor da piscina permanecia vazia – sem folhas e sem água: em seu fundo sujo, ao longo da tarde de abertura da mostra, podíamos ver esticado o corpo nu de Fyodor girando de uma extremidade até a outra continuamente. Durante a execução dessa performance desenvolvida especialmente para esta exposição, a mesma terra que manchava o corpo de Pavlov-Andreevich se acumulava no encontro entre os azulejos brancos do fundo, e, de repente, Fyodor não se movia apenas na parte mais profunda da piscina: movimentava-se sobre a grade modernista. Mesmo com a proposta repetitiva – que poderia ser análoga à lógica Ford-modernista – eram as diferenças que surgiam em cada volta (por fadiga ou para proteger o corpo) que nos saltavam aos olhos. Sob o olhar do público, era o corpo vivo que vencia a grade.


Assim, estava pronto o palimpsesto: e percebemos que sempre esteve na vida residente em Warchavchic o grande interesse de Fyodor. 

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