Ao meu amor
Sentado no quarto escuro.
Iluminado pela única fraca luminária do ambiente que pende do teto sobre a mesa. Ele de costas pra porta fechada. No lado de fora, tiros. Tiros, tiros e mais tiros. A guerra consome tudo. E a guerra era por ele. Ele era o alvo de toda essa gente enlouquecida.
Na penumbra do canto, Dinah Washington e Dexter Gordon se revezam entre "Blue gardenia"s e "But not for me"s. Lá fora, bombas de nêutrons, gás mostarda, grito, choro.
Sentado no quarto escuro.
Seus olhos fitavam o papel. Ele lia. Ele tinha de ler! Ele lia. Com rapidez, como um maquina eficiente, ele lia, Virava páginas e mais páginas, Dinah gritava, Tudo explodia, Ele anotava e virava páginas.
Horas...horas..HORAS(!) com aquele monte de papel na frente dele. Ele ainda lia, ainda escrevia. Mas agora seu ritmo diminuíra. Ele sabia bem o que acontecia. Seu sangue secava. Seu coração parava. Morria.
A música cessara. Só o som dos tiros, dos gritos, das bombas, das janelas quebrando e das portas batendo corriam pelo ar sujo que parecia rarefazer a cada segundo.
Ele tinha de ler, ele queria viver apesar de quase todo mundo, de quase toda a realidade, ir contra ele. E ele morria. O sangue virava pó, o coração um paralelepípedo maltratado de uma rua pobre. O sol de certo que não brilhava mais lá fora. O frio era insuportável.
Mas ele sabia do que precisava.
Entao levantou. Foi até o limite da luz, de modo que mal se via seu braço esticado pegando a velha carteira preta sobre a cômoda.
Sentado no quarto escuro, abriu sua carteira e, com os dedos da mão direita procurou algo lá no fundo. Encontrou. Por instantes, se fez no rosto dele uma expressão estranha de salvação e graça.
Tirou da carteira. Do pequeno objeto que cabia entre o polegar e o indicador, surgiu uma grande luz: A Grande Luz. O quarto ficou todo iluminado, o mundo ficou todo iluminado. O Universo era um grande espaço sem matéria todo branco, todo luz. Nada além dele e do objeto sob seu olhar hipnotizado. Ele respirava fundo, seu corpo quente, coração batendo gostoso. (Se ainda guerreavam, não se escutava, ele não se importava.)
Guardou.
Sentado no quarto escuro, de costas pra porta, iluminado pela mesma fraca luminária, ele lia. Lia, mas agora expunha no seu rosto o enorme, confortável, enérgico e contagiante sorriso que lhe é específico pelo sentimento ao qual o objeto lhe remete. E ele lê. Feliz, lê. E vive.
In MC we trust (por 7A)
Há 15 anos
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