segunda-feira, 13 de julho de 2009

Crítica: Neoconcretismo 50 anos

(ao meu amor)

Na ocasião da I Exposição Neoconcreta aberta em 19 de março de 1959, o MAM-Rio ainda era um jovem museu que completava 10 anos, mas, mesmo com o pouco tempo de existência, sua relação junto a parte do grupo de artistas com trabalhos nesta exposição começara muito antes.

O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro foi fundado em 1949 por um grupo de brasileiros que se reuniram comungando do propósito de intervir na velocidade do processo de modernização do nosso país. Além das questões políticas econômicas industriais e sociais, tornar um país "moderno" passava também por uma importante questão: a cultura. Tendo sua sede primeira em algumas salas emprestadas pelo Banco BoaVista, o museu levaria ainda três anos para, em 1952, ocupar parte do prédio do Ministério da Saúde e Educação. Neste novo endereço, além das muitas palestras, conferências e encontros de artistas que aconteciam regularmente, foram montados entre os pilotis do edifício do MEC os importantes ateliês ministrados por Ivan Serpa. O pintor que, a essa altura, já havia sido premiado na I Bienal de São Paulo com uma obra concretista, começava a formar, em suas aulas, um grupo de artistas que viria a se chamar Grupo Frente. Neste grupo, diferentemente do que acontecia, por exemplo, no Grupo Ruptura em São Paulo, não havia nenhum tipo de dogmatismo ou homogeneidade: mesmo que alguns caminhassem juntos pela abstração geométrica, outros, como Carlos Val e Elisa Martins, trabalhavam com propriedade na figuração. Naqueles anos, devido à relação conjugal entre a presidente do museu, Niomar Muniz Sodré, e o proprietário e diretor do Correio da Manhã, Paulo Bittencourt, a imagem construída do MAM no imaginário carioca era a de um museu voltado para o futuro e o que havia de identidade entre aqueles 15 artistas do Grupo Frente era, exatamente, o princípio da livre experimentação e da necessidade moderna de superação do passado tradicional a partir da construção de um presente voltado para a mudança. Por isso, aqueles artistas, ao ligarem suas vidas e imagens às do museu, estavam ligando suas vidas e imagens à cena moderna.

O Grupo Frente dura poucos anos e parte do motivo de sua dissolução foi a adesão de alguns de seus artistas ao projeto concretista brasileiro na I Exposição Nacional de Arte Concreta em dezembro de 1956 no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Porém, as diferenças entre paulistas e cariocas se tornaram evidentes, culminando na separação entre concretistas de São Paulo e neoconcretos do Rio de Janeiro. Segundo Mario Pedrosa, o mar e o sol induziam os cariocas à negligencia doutrinária: a severa consciência concretista seria exagerada. Alguns dos membros daquele Grupo Frente nascido no MAM, mesmo com Ivan Serpa na Europa devido ao Prêmio Viagem ao Exterior conferido no VI Salão Nacional de Arte Moderna, continuaram a freqüentar e se reunir ao redor do museu e, a partir também dessas reuniões, formaram o grupo neoconcretista.

Diferente das vanguardas modernas européias, esse grupo iniciou sua produção antes da publicação de seu manifesto. Opondo-se quase marginalmente à moda do tachismo internacional e ao tradicionalismo brasileiro que ainda glorificava Portinari, Pancetti e Di Cavalcanti como verdadeiros bons modernos brasileiros, os neoconcretos rejeitaram sistemas conceituais excludentes, criando um modernismo renovável de artistas independentes com identidades moldadas em situações diferentes. Eram artistas-pesquisadores que negavam a racionalidade exacerbada em nome do exercício da subjetividade e que começavam a propor a introdução do corpo na dinâmica produtiva do efeito estético.

Há 50 anos, o MAM abrigou estes artistas cuja liberdade de experimentação deu base para a geração que emergiria no cenário das artes brasileiro nos anos 60 e 70 e a História tratou de nos fazer reconhecer o valor daquele pequeno grupo. Com a finalidade de comemorar esse meio século, o MAM homenageia, certamente com prazer e com a devida reverência, esses artistas que fizeram, nesta instituição, o que viria a ser parte importantíssima da construção da arte contemporânea brasileira.


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