sábado, 3 de agosto de 2013
Arte para além do mercado de arte.
Cada artista deve descobrir as próprias formas de relação com os outros agentes do sistema da arte contemporânea e elaborar a estratégia que melhor favoreça a sua produção. É possível (e devemos) construir e ampliar formas de circulação e viabilização da produção que sejam independentes das galerias. Para os poucos que tem esse tipo de vínculo, a relação entre artista e galerista não é uma imposição vertical: é um contrato construído por pelo menos duas partes. Acredito que é preciso que o artista entenda que é o grande produtor desse sistema, perceba o poder que tem por isso e imponha mais suas condições a essas relações.
É claro que é fundamental que os artistas, principalmente os mais novos e ainda inseguros em relação à própria produção, sejam cautelosos nas relações com o mercado. É preciso ter mais ouvidos para as necessidades fundamentais do trabalho do que para os desejos do comércio. Muitas vezes, meninos recém-saídos da universidade seguem instruções de maus galeristas para fazerem trabalhos maiores, com outros processos, com outros motivos ou em outros materiais sem perceber se essas modificações elevam a qualidade do trabalho ou apenas aumentam seu potencial de venda.
É preciso, também, evitar a ansiedade pelo mercado. Nessa semana que passou, circulou no facebook o anúncio de um curso em São Paulo que custava 1500 reais para ensinar os artistas a se inserirem no mercado. Oferecia até dicas para arrumação de ateliê.
Durante décadas, reclamamos que não havia mercado de arte no Rio de Janeiro. Hoje, reclamamos que há um mercado forte demais. É preciso mais do que espernear: temos de construir conhecimento e fazer proposições. Em geral, de fato existe limitação para o trabalho dos artistas nas galerias. Mas já existem instituições desse tipo que são menos viciadas nos moldes tradicionais de “comércio de arte”. Existem boas galerias que se constroem como parceiros dos seus representados, fazendo as exposições comerciais em suas salas, gerando circulação para a obra do artista nas feiras, apresentando o trabalho a críticos e curadores, ajudando os artistas a publicarem livros, agenciando exposições em instituições e auxiliando a se inscreverem em residências, prêmios e editais. Existem galeristas antigos que não se atualizaram, mas existem aqueles novos querendo crescer junto de sua geração de artistas. É preciso se questionar se de fato é interessante estar vinculado a alguma galeria e ponderar muito para saber a quem se associar. E se faz fundamental, nessas relações, saber exigir mais e de forma mais clara, direta e objetiva.
Até mesmo as feiras de arte (cheias de “estandes” de galerias) que, tradicionalmente, eram a ponta mais infértil, violenta e ostensiva do mercado, hoje em dia, têm importantes projetos experimentais e educativos. Cada vez mais, se tornam importantes espaços de pesquisa.
É evidente que nós, curadores, devemos estar com as pesquisas voltadas para além das galerias, mas é de um romantismo injustificável afirmar que os artistas “sem galerias” são necessariamente melhores ou mais genuínos do que aqueles inseridos no mercado. Para nós, é fundamental estar atento, também, às escolas de arte, às mostras coletivas, aos portfólios que recebemos, aos prêmios, aos salões, às universidades, às residências, à internet e aos espaços alternativos.
Tenho pesquisado, há algum tempo, experiências no Rio de Janeiro para ativações de espaços expositivos não tradicionais. É bem verdade que, no começo dos anos 2000, tivemos os incríveis Orlândias, mas seria injustiça reduzir todas as experiências aos eventos organizados basicamente por Márcia X e Ricardo Ventura. Desde então, tivemos as experiências do Grupo Py, os eventos do Grupo UM, Associados, Agora, Capacete, Atrocidades Maravilhosas, o Projeto Apartamento, Inhame, Barracão Maravilha, Norte Comum e o Hotel da Loucura, além de muitos outros. É preciso estar atento. Eu mesmo fiz minha primeira curadoria na minha casa (Liberdade é Pouco. O que desejo ainda não tem nome.). Já construí até mesmo projetos em parceria com galerias que não tiveram nenhuma interferência institucional visando diretamente o mercado (como o festival de performances “Vênus Terra I pela lei natural dos encontros”, que contava com performers de 10 estados brasileiros no galpão da galeria TAC, na Lapa).
É preciso ir além dos discursos caducos que atribuem valores exclusivamente positivos ou negativos ao mercado e suas instituições. Mostra-se fundamental descobrir maneiras de como se aproveitar dessas estruturas, pervertê-las, reformá-las e de tirar o melhor dessas relações. E é preciso descobrir formas de criar novas rotas paralelas mais adequadas para aqueles que precisam delas. É preciso, ainda, construir conhecimento de uma forma mais fértil sobre as relações entre arte e mercado – para além do mercado.
terça-feira, 16 de abril de 2013
Crítica: Ícaro Lira: Náufrago
segunda-feira, 15 de abril de 2013
Crítica: Felipe Meres: Encontro de emergência: Sujeito aos atos de escape
segunda-feira, 18 de março de 2013
Crítica: Jefferson Miranda: Troca-se
(Ao meu amor)
Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome. Eu poderia desejar, por exemplo, começar esse texto de outra forma, mas seria injustiça com o tempo que nos apresentou sob a exposição cujo título citava Clarice Lispector questionando a nomeação do que deseja. Deseja-se também, portanto, aqui, tensionar os desejos às palavras.
É um desejo importante dessa mostra fazer saber, antes de tudo, que há uma lenda que diz que quem dobra mil tsurus fazendo o mesmo pedido a cada um dos origamis tem seu desejo realizado. Jefferson Miranda fez as mil dobraduras pedindo a realização de mil e um desejos. Deseja-se, agora, então, que cada tsuru apresentado nessa mostra possa ser trocado por um desejo escrito de quem por aqui passar. E esse desejo se tornará real.
Desejo, há muito tempo, ser cantor. Desejo dançar. Desejo ser bailarino. Desejo conhecimento clássico: um desejo clássico. Desejo pertencer a uma história, à construção. Desejo habilidade. Desejo ser tecnicamente apurado. Desejo poder sempre aprender. Desejo experimentar. Desejos a mim e desejo o outro. Se gente, essa entidade que adoramos, é ser potente, eu desejo que minha arte seja deliciosamente potencializadora dos mistérios.
Não desejo ser grande e representar soluções, mas desejo apresentar, talvez, uns bons problemas. Desejo o meio-saber e não desejo a vaidade miraculosa. Desejo que vocês não sejam atores que evoluem na estrada de um projeto que minha voz alimenta e meu jeito poda. Desejo propor sem prever. Desejo que sejam passantes passistas autores livres por uma abertura cujo caminho surge na luz e na sombra dos próprios pés. Desejo ser sempre surpreendido como surpreendo.
Desejo que você tenha a quem amar. Desejo sim e estou vivendo. Desejo te amar sem que precises de mim. Desejo que tu me ames sem que eu precise de ti. Desejo amor e vexame. Desejo tesão e, particularmente, não desejo solidão à ninguém. Desejo, e desejo não é só falta. Desejo sensível. Desejo, desejo erótico: satisfação imediata, prazer, júbilo, receptividade e ausência de repressão. Desejo, às vezes, a realidade.
Desejo saúde. Desejo que meu corpo não deixe de poder ser. Desejo não perder a potência. Desejo que a árvore da felicidade de minha casa e de minha vida esteja sempre na muda. Desejo saber guardar e desapegar dos galhos que a árvore da vida me apresenta. Desejo que a idade não traga a perda das vontades, nem a perda da potência. Desejo ser sempre ávido, pleno em desejo intenso, cheio de vida. Desejo. Morototó tarumã junco popoca junco popoca biquipi biriba botão de ouro.
Desejo o desejo exposto e desejaria seguir bem e mais um pouco, mas, por fim, deseja-se, sobretudo, dizer que desejo: desejo desejo.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Crítica: Elisa Castro: "EU QUERO VOCÊ"
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Crítica: Gilvan Nunes: Janela: o respingo entre o desejo e a escusa.
Crítica: Opavivará!: Da gente: Comer revolucionário!
domingo, 30 de setembro de 2012
Crítica: Joana Traub Cseko: Passagens Copacabana
Crítica: Trepa-Trepa no Campo Expandido
[ao meu amor]
Eu escrevi um texto, retirei as palavras e tatuei em minhas costas a pontuação restante. Eu enrolei e fumei o que havia dentro daquelas baganas. Numa manhã, ao gozar sobre o lençol vermelho, com a mão dele sobre a minha, percebi o que lhe falta. Eu chorei. Eu aprendi muito sobre o amor. Eu percebi muitas coisas mais importantes do que arte. Eu te mostrei todos negando o que nós sentíamos pulsar. Eu vi vida onde não é vista, quis dar brilho a seus olhos. Com envolvimento, oferecer o que você quiser e lhe convidar a sentar bem perto. Eu quis criar com você. Eu quis andar com você. E era eu mesmo, inteiro, ali.
*
Atenção, meus convidados: este lugar em que estamos é para ser vivido. Olhe nos olhos da pessoa a seu lado. Mesmo se não a conhecer, gentilmente, pegue sua mão. Se não tiver coragem, mas se alguém mais vivo lhe tocar, aceite carinhosamente.
Aqui, troquem fluidos, mas não troquem cartões de visita.
Esta mostra é resistência. Sem ignorar as históricas tentativas de um imponderável e empoderado grupo hegemônico de frustrar ou ocultar a marginalidade, o hedonismo, o pulsar, a fragilidade, a alegria e, principalmente, o tesão de nossos melhores artistas [em vida e obra]; exibimos, aqui, diferentes sinais, sintomas, fragmentos ou flagrantes de vida neste latifúndio Arte tão impropriamente [in]utilizado pela nociva terceira pessoa.
Nestes tempos de medo e euforia alimentados,”Arte e Vida” é repetido à exaustão, sem que se perceba que este ”e” junta, mas separa. Os trabalhos aqui assinalam a vida, são obras de artistas que dessacralizam a arte e/ou sacralizam a vida, aproximando as duas à con-fusão geradora.
Alguns destes trabalhos são frutos da incoerência entrópica de quem diz, pela arte, que o importante está fora dela [e este nó é o primeiro sintoma de toque de universos não paralelos]. Outros trabalhos são testemunhas, reflexos ou reflexões de situações vividas pelo artista. Outros, ainda, são resultados de propostas afetivas ou relacionais feitas pelo artista a si mesmo ou ao público.
Estes trabalhos se aproximam por seus posicionamentos, não por questões formais. O trepa trepa no campo expandido abraça obras que apresentam, como tudo aquilo que é de melhor, um alto “coeficiente vital”.
Meus convidados, lancem-se sobre a vida com a pele atenta e os olhos cerrados e, como estes artistas, tomem a experimentação constante de cada escolha e ação como um compromisso leal e justo com suas próprias existências.
Crítica: Felipe Fernandes
Crítica: Analívia Cordeiro e João Penoni: O Corpo é a Mensagem
Na Revista Bamboo: OPAVIVARÁ!
OPAVIVARÁ! É um coletivo carioca ativo desde 2005. Sua formação relativamente estável e não- divulgada e o compromisso de fé e prioritário de/entre seus membros diferencia este coletivo de outros que podem funcionar como base descartável para voos solos. Mesmo sendo constituído por seis artistas com pesquisas próprias, a prática semanal de reuniões presenciais com todos os membros do grupo para leituras, estudo, discussão e criação (ultimamente, chegando a três ou quatro vezes por semana) possibilita que o coletivo tenha poética densa, coerente e independente das de seus membros.
O OPAVIVARÁ! (conhecido, intimamente, como “Opa”) tem forte posicionamento político que se manifesta pela forma de uma alegre e séria cruzada na defesa do prazer, da fraternidade, do encontro e da coletividade como caminhos para novas formas de cidadania e habitação.
Atuando diretamente na proposição de atividades cotidianas alteradas e na criação de espaços envolventes que direcionam o público de maneira carinhosa e desafiadora, o coletivo incentiva o uso consciente do corpo como meio, mensagem, símbolo místico e, principalmente, fonte de graça, comunhão e prazer.
Transportando o ateliê para os lugares de uso comum e transformando-os em matéria de seu trabalho, o OPAVIVARÁ! confunde, na praça, na praia, na cozinha, no mato, na rua, no bar etc., espaço para vida e lugar de arte, papel de propositor e ação de participante. Construindo laboratórios horizontais de ressensibilização, o coletivo entende que, neste mundo onde vive gente, ativar críticas e maravilhamentos na vida e na arte é um possível e generoso papel social.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Crítica: Claudia Hersz: Paisagem: Como se faz
Adentra-se uma casa e se percebe a sair em viagem. Aqui, de onde vemos ali, aos poucos, nos encontramos no difícil papel de ser o outro do outro. Aparentemente, remissionando à francesa, Claudia Hersz atualiza o jogo da representação e localiza toda a memória do futuro que possa haver nessa poderosa fantasia do presente.
No estranho momento em que o Rio de Janeiro se faz embevecido pelo reflexo de sua própria face na Baía de Guanabara (podendo não notar que se ajoelha sobre um formigueiro), constata-se a pertinência e conveniência da herança do autocrítico humor judaico que dá o tom desta mostra. Contudo, a energia afetiva que move este tapete e inspira esta exposição tem como motor imóvel o maravilhamento por essa trajetória familiar ter chegado aqui – e, não exatamente, por ter se originado acolá. Mas, como se sabe, ninguém deve esquecer bagagem no aeroporto.
Quem viaja nestes tapetes voadores do Saara carrega tempo naquela caixa e nos livros, links e hiperlinks. Quem vive nesta casa vê, ao longe, o que, por agora, parece ser a linha de chegada - e do horizonte. São miragens, projeções, revelações, criações, críticas e edições de quem viaja enquanto vigia. Como é incrível ter passado nesse lugar!
Dona Fryderika, sentindo a nuvem de chumbo pesar sobre os judeus da Hungria, trocou tudo por Nilópolis. A tristeza que viveu e viu foi reflexo nítido naqueles úmidos olhos - até quando, assassinada, os fechou pra sempre. As fotos de Vovó Fryda estão na caixa. Claudia Hersz cresceu ao som de iídiche em casa, brincando no pátio da igreja vizinha e temendo o dia em que seria catequizada à força. A complexa condição da dupla nacionalidade judaico-brasileira fez de Claudia uma estrangeira nativa, cuja mezuzah, palavra de Deus, é um mecanismo musical que, ao girar a manivela, toca “hava naguila, hava naguila, hava naguila, ora iê iê ô Oxum”.
O próprio corpo de Deus está aqui. Carregado, líquido, no “Salade - Petite Hommage a N.L.”, tem cheiro de flor de laranjeira, toque de mão de mãe e cor de ouro de Rosa. Se tapete voador fosse peça de batalha naval, estaríamos no C 20. Mas não estamos pra esse jogo.
Em Khaza - título que faz referência aos Khazares, povo asiático europeu convertido ao judaísmo no século VII, origem dos ashkenazim e da família de Hersz -, não há detalhe que não se endereçam a olhos curiosos. Claudia é uma artista que, sem proselitismos, acredita no fazer, na habilidade, no capricho, no detalhe e no uso de toda e qualquer técnica e material que à mão, ao cérebro e ao coração se oferecem.
Se o movimento resultante de tudo isso é de desbravar o desconhecido continente tempo, nestes trabalhos, atravessamos dois níveis de tempo: o da história social e cultural e o das narrativas individuais. Nesta exposição, são criados teia rítmica e tecidos temporais, construídos a partir de links que nos transportam a (des)memórias, (con)vivências, criações, transcendências e (in)existências. As tapeçarias-pinturas que flutuam no espaço (sem saber de onde e para onde abrem suas janelas) foram cosidas, cozidas e ressituadas. As imagens que, um dia, estrangeiros usaram para explicar sociedades, seus espaços e costumes rugem das feiras de antiguidade e, se, depois do cajado de Abraão, são novas, os mundos são novos.
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Crítica: Leo Ayres: O grande escândalo num sussuro de Tirésias
(ao meu Amor sempre - e que vírgula nenhuma separe Amor e sempre.)
Acteon, um ilustre caçador grego, desviando-se de seu caminho em meio aos ciprestes, penetrou, bravamente, uma encantadora gruta em busca de animais escondidos. Por um acaso, surpreendeu a deusa Diana, irmã de Apolo, nua em banho. Sempre orgulhosa de sua resistente castidade, vingou-se, transformando Acteon em um cervo - com chifres, cascos e pelos – para que este não pudesse espalhar os relatos de sua recente e inédita experiência visual. Voltando, assustado, ao seu trajeto inicial pela floresta, o caçador foi devorado, como veado, por seus próprios cães de caça.
Foi este mito grego a primeira inspiração da presente exposição, em que o artista carioca Leo Ayres faz-se um Acteon: sendo sujeito de uma caça ao outro, torna-se objeto por seu próprio voyerismo.
A origem naquele jogo de transformações mitológicas criou estranho fenômeno real: neste lugar onde pisamos, somos tomados por espíritos. Não que Leo quisesse isso. Nem que não quisesse. Mas eles vêm. Com os olhos fixos na pequena caixa negra, que exibe registros feitos através de um olho mágico, sou um obsessivo observador dos rituais privados de um vizinho entre a porta de sua casa e a do elevador. No restante da exposição, estou dentro do ambiente privado no qual, curioso, investigo vestígios do que já houve aqui. Se era outro ou se era eu, é difícil saber; mas alguém esteve com os pés sobre estes tapetes de banheiro. Talvez fosse a mão do outro que, pela falta de uma falange, revelasse minha presença sob ele. Ou o contrário. No recorte deixado por um espelho, surge um olho que pode ser meu ou seu ou dele. Neste espelho, estou refletido você nu segurando a câmera que te fotografo no espelho em que apareço sozinho.
No tapete ou sobre a mesa, trepamos todos naquela árvore - ou fora dela. O jogo continua até quando os corações de copas pingam em gotas e deixam peito aberto; até quando as cartas dadas são de paus vermelhos. Até mesmo quando sumo em um fundo de parede. Então, alguém me sussura na língua de Tirésias, melhor do que eu poderia dizer: "O que você quer mais? Eu já arranhei minha garganta toda atrás de alguma paz. Aprontei demais - só vendo! -, mas, agora, faz um frio aqui. Me responda, tô sofrendo: Dou gargalhada, dou dentada na maçã da luxúria - Pra quê? Se ninguém tem dó, ninguém entende nada! O grande escândalo sou eu aqui, só!"
Nesta casa, você precisa estar perto para ver, para ouvir. Tudo pede relação, tudo pede atenção, tudo implora por afeto: desesperado por existir. Antes que eu voltasse a qualquer coisa, sua voz sai de minha boca, na língua de Tirésias, dizendo: “A casa está bonita. A dona está demais. A última visita, quanto tempo faz? Balançam os cabides, lustres se acenderão: O amor vai pôr os pés no conjugado coração. Será que o amor se sente em casa? Vai sentar no chão? Será que vai deixar cair a brasa no tapete coração? Quando aumentar a fita, as línguas vão falar que a dona tem visita e nunca vai casar. O amor já vai embora ou perde a condução. Será que não repara a desarrumação? Que tanta cerimônia se a dona já não tem vergonha do seu coração?"
O espírito, por vez, vai embora.
A escolha do título “Como Eu” para sua primeira mostra individual em São Paulo expõe um triplo sentido que revela a centralidade da primeira pessoa (pela comparação), a divulgação não vulgar de um seu privado (pela ação) e sua vontade de teor poético (pela própria construção). Esta mostra tem escala e aura domésticas, além de um vulto de uma latente presença cuja quase existência é narrada pela ausência que se sente. Naquilo que lhe falta, sentimos tudo que há ali: intimidade, circularidade, rumor, devir, camuflagem, fusões e um respeitável destemor de se falar de afeto, de amor, de si e do outro.