(ao meu
amor)
As buzinas
dos carros, as rodinhas soltas batendo sobre paralelepípedos, as pipocas estourando
e os pombos arrulhando tocavam o jingle de abertura do programa OPAVIVARÁ! AO
VIVO!. O coro dos antepassados se somava ao dos camelôs para anunciar a entrada
da apresentadora do programa! Marcela Carvalho, em seus habituais trajes
negros, surge sorridente e saltitante. Com a mão esquerda segurando uma colher
de pau como microfone, usava a direita para convidar os passantes a sentar à
mesa.
Um mexicano
que fazia turismo pelo Centro do Rio aceitou o chamado e se ajuntou. Suas
frases começavam falando da gente, e levamos um tempo para entender que “la
gente”, em espanhol, são os outros.
Aqui, em
terra brasilis, “a gente’’ significa nós. A gente é nós. A gente é parte da
gente, do gentio, do povo. O povo somos nós. O povo é nóis.
A praça,
que, em outros momentos, funcionou como realidade mediadora entre a sociedade
civil massificada e o Estado, hoje, em tempos de multidão e hipermediação,
encarna o papel de realidade mediadora interna da sociedade civil. O que surgiu
na praça Tiradentes (junto às duas mesas, quatro bancos, vinte cadeiras, dez
galões-fontes, três to-néis-tanques, um mural público e um forno à lenha móvel)
foi um lugar de transparência, abertura e argumentação mediado por palavras e
corpos: uma co-presença pública de homens livres que fez (e ainda faz) pulsar a
possibilidade de ações comuns por cooperação social e comunicação política.
Alguns
valores e práticas da inescrupulosa co-mercialização do privado como espetáculo
em Big Brothers, Facebooks etc. são introjetados a ponto de algumas pessoas, no
primeiro momento de encontro com a praça, repetirem o curtir e o comentar,
desejarem o protagonismo e sentirem a necessidade de agir como o esperado ou
exigido pelo espectador.
Mas, quando
se percebe que, na praça, não há cotidiano falseado para os índices de
popularidade, todos se tocam - e são tocados.
Na praça,
somos todos o público: autores atores. Autores com paixões internas, sentir
privado e verdade íntima e atores com arrebatamento externo, sentir político e
aparência mundana.
Mas ainda
somos capazes de definir informação e ação, e a praça não é como os espaços de
interação virtual. A persistência do corpo é política. O encontro real com o
outro se dá quando é possível ver o outro refletido no próprio olho refletido
no olho do outro, quando o outro tem mão para cozinhar (como eu), quando eu
tenho mão para cozinhar (come ele), quando nós todos temos cheiros, quando
nosso sistema imunológico é comum a todos e está entre as unhas, as carnes, os
legumes e as pedras portuguesas, quando somos todos tomados por uma enorme e
estranha força de transformar: quando há afeto.
Só
descobrimos o que somos quando descobrimos, pelo corpo no encontro com o outro,
nossas capacidades de afetar e ser afetado. O indivíduo é, portanto, uma certa
combinação de afetos possíveis.
Se os
afetos podem ser divididos entre os afetos de alegria e os afetos de tristeza,
os primeiros são ligados a estados de atividade e transformação, enquanto os
últimos ligados a estados de passividade e aceitação.
O bom
encontro é o encontro que aumenta nossa força de existir, nossa vontade de
vida, nossa potência de agir, nossa alegria, que nos leva de estados de pura
paixão para estados de ação.
O valor da
força de trabalho, hoje em dia, está em um não-lugar que impossibilita
referências de medição (nem mesmo monetária). As inquietações oriundas das
discrepâncias e sensações de injustiça nos fazem questionar as relações e
percursos entre afeto e valor. Se entendemos afeto como potência de agir,
passamos a entende-lo como potência de apropriação, ressignificação,
transformação, liberdade e força de autovalorização. A economia política,
portanto, se lança na busca por parâmetros de (impossível) medida do valor de
trabalho e esbarra nas trocas comerciais e relações de comunicação como as
importantes bases dos vínculos produtivos. Conclui-se, em uma importante
revolução conceitual, que “valor de uso” não é medida válida e que o valor, em
si, surge em sua relação com o afeto. Portanto, se controlar os afetos e suas
potências é controlar a valoração, a insurgência (ou insurreição) afetiva se
mostra como o grande cami-nho para a revolução. Entender e atuar sobre as
dinâmicas comunicacionais de maneira a estimular afetos de alegria (e lutar
contra os afetos de tristeza desejados pelos detentores do poder), portanto, se
tornaram práticas revolucionárias.
Transformar
afetos é ação de potência revolucionária. Se inspirar paixões tristes é
necessário ao exercício do poder, inspirar paixões alegres é dever de quem visa
a revolução. O mundo ainda se move, Eppur si muove: não mais em sua relação com
os astros, mas pelos nossos afetos e emoções, e-motions, e-movimentações,
movimentações internas, estados alterados por afetos.
Foram
quatro semanas de residência na Praça Tiradentes. Todos os dias, eu, a crítica
de arte Ophélia Patrício Arrabal e os integrantes do OPAVIVARÁ! dormíamos, nos
alimentávamos e trabalhávamos na antiga casa de Bidu Sayão, atual Centro
Carioca de Design e Studio X. Em todas as quartas-feiras e sábados, levávamos
os equipamentos para a praça, sempre experimentando novos pontos e novas
configurações espaciais. Convidávamos as pessoas a trazer receitas e
ingredientes e a cortar, picar, descascar, lavar, cozinhar, misturar e trocar
com a gente, com todos. Alguns traziam temperos, outros traziam seus tempos.
Mario
Trancoso, importante guru carioca dos anos 70 e 80, contava uma história linda:
segundo ele, todos os palhaços, malabaristas, atores, artistas populares,
artistas circenses, escritores, músicos, boêmios, criadores, amantes,
bailarinos e artistas de todo tipo e de todos os tempos, no ato da morte, fazem
a passagem, com a alma íntegra, para uma enorme bolha no Cosmos. Esse espaço é
o Circo Místico, e todos que chegam até lá praticam, criativamente,
eternamente, suas artes - em alegria, paz, animação e harmonia. Segundo
Trancoso, quando algum acontecimento na Terra alcança exatamente a mesma
vibração mágica de alegria, paz, animação e harmonia do Circo Místico, essa
bolha desce e se instaura, momentaneamente, sobre o tal lugar. Pelo tempo que
durar a ligação, estão presentes, invisivelmente, todos os artistas de todos os
tempos, brincando o carnaval da eternidade. Depois de um tempo, algo acontece
para a bolha poder partir. Mas, enquanto o Circo está, nada dá errado, e tudo é
glória, prazer, comunhão.
Eu estive
na bolha. Quem esteve na praça, também esteve no Circo. Não pude ver nada além
do que via todos os dias na praça, mas senti os malabares, as gargalhadas, o
cheiro de tinta a óleo, a presença animada das colegas todas: de Leonardo a
Hélio, de Madame Satã ao Velho Guerreiro, do Bispo do Rosário ao desconhecido
equilibrista de pratos chineses.
-Quando o
bicho pega e a bolha vem – Mario Trancoso dizia – entra cachorro, criança e
mendigo na roda.
Não deu
outra: Os moradores de rua, que ja eram esperados no momento anterior de
formatação do projeto, se tornaram parte essencial desta experiência. Foi
importante saber o nome de cada um deles. Se, nos grandes meios de comunicação,
eles não tem rosto nem nome, na praça eles tem tudo. Tem tanta voz, saliva,
desejo, lógica, história, importância como quaisquer outros. Na verdade, aqui,
na praça, eles deixaram de ser outros e viraram “a gente”.
Se foram
presença desde o primeiro almoço na praça, nas experiências seguintes, muitos
deles já explicavam aos passantes:
- A gente é
um coletivo de artistas que está fazendo uma ocupação na praça, convidando todo
mundo pra comer junto.
É claro
que, algumas vezes, surgiam ricos absur-dos:
-Ah! Eles
são os repórter da arte de rua!
O
importante é que comer é um dos pensamentos do corpo. E, como a gente sabe,
nada melhor que pensar junto.
Em uma
tarde-quase-noite, servíamos um grande cozido e, quando a comida começava a ser
atacada por todos os lados da panela, um dos presentes recorrentes gritou:
-Primeiro
as mulheres e as crianças! Depois os malandros!
Ele, que
sempre ajudou na cozinha, se referia a alguns poucos que ficavam sentados nas
espreguiçadeiras esperando a comida ficar pronta sem querer fazer nada. E
prosseguiu:
-Na rua,
tem quatro tipos de morador: o desabrigado, o maluquinho, o malandro e a entidade.
É. Pode
ser.
Na ação
essencialmente assimétrica de comunicar, cada palavra nos lembra do abismo
entre um e outro. Nessa relação por linguagem e toque, temos o rosto arrastado
na pedra áspera e inevitável da solidão, mas, ao mesmo tempo, o outro é o que
nos pega, nos abala, nos encanta, nos ultrapassa, nos rouba de nós mesmos e
afirma a vida lá fora. No encontro, o um e o outro são homens igualmente
existentes e encantados pelo mistério, pelo co-nhecimento ignorado, pelo
desconhecido que está dentro do outro.
Ou, pelo
menos, isso tudo vale perfeitamente pra um início. Depois, o ajuntamento de
sujeitos desorientados e polarizados entre eus e outros dá lugar a pós-sujeitos
anônimos, coisas que sentem com excitação infinita, que apreendem o mundo coletivamente
como experiência.
Mas é bom
deixar claro que o surgimento do sentir coletivo não traz à praça a
indiferenciação. O que se aspira é uma unidade que não exclui a diversidade.
Não é isso, também, o Amor?
No próprio
coletivo, não há uniformidade. É tudo diversidade, divergência, diversão,
outras versões.
A alegria
(o afeto alegre) que alcançamos no encontro real com o outro é o que une numa
mesma força de existência: a vida existe, somos possíveis e podemos fazer e
transformar. E, depois do encontro/do afeto, os valores já foram transformados
e a história, alterada, continua por nossos passos.
Mas, então,
como quem vem de um furacão, ressurge, na praça, a apresentadora do programa
OPAVIVARÁ! AO VIVO!. Enquanto Marcela Carva-lho chupava o curry do hashi, seus
movimentos já indicavam que esse seria o microfone da vez. De coturno e
piercings, ela samba o corpo todo sem mexer a cabeça. Sorrindo, em gritos
animados, vai fazendo a despedida do programa:
-Agradecendo
a todos que passaram por aqui, nossa nave vai voar, nossa bolha vai subir!
Mando um beijo enorme pro Baruch, nosso Benedito de Spinoza! Um beijo pra Mario
Perniola, Mario Trancoso e Mario Pedrosa! Um cheiro no cangote de Toni Negri,
seu safadinho maroto! Um beijo pra Madame Satã, pra Duse Nacaratti, pra Muniz
Sodré, pra Bakhtin! Um beijo pro Pedro Victor! Tô com saudade de tu, meu
desejo! Uma lambida em Milton Santos, Chiquinha Gonzaga, PPPelbart! Aquele
agradecimento todo especial a Drummond, Caetano e Antonio Cícero – essa galera
da pesada! Um beijo pra Ney Matogrosso, Cibelle, Robin Resch e Luz Del Fuego!
Testando o microfone: Je--jejê-jesus, Jesus Martín-Barbero, nosso parceiro! E
vale lembrar: Nada deve parecer impossível de mudar! Um beijo pra Marcelo
Freixo! E fecho com Freixo! Tchau, pessoal! Um beijo! E até já!
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