segunda-feira, 18 de março de 2013

Crítica: Jefferson Miranda: Troca-se


(Ao meu amor)

Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome. Eu poderia desejar, por exemplo, começar esse texto de outra forma, mas seria injustiça com o tempo que nos apresentou sob a exposição cujo título citava Clarice Lispector questionando a nomeação do que deseja. Deseja-se também, portanto, aqui, tensionar os desejos às palavras.

É um desejo importante dessa mostra fazer saber, antes de tudo, que há uma lenda que diz que quem dobra mil tsurus fazendo o mesmo pedido a cada um dos origamis tem seu desejo realizado. Jefferson Miranda fez as mil dobraduras pedindo a realização de mil e um desejos. Deseja-se, agora, então, que cada tsuru apresentado nessa mostra possa ser trocado por um desejo escrito de quem por aqui passar. E esse desejo se tornará real.

Desejo, há muito tempo, ser cantor. Desejo dançar. Desejo ser bailarino. Desejo conhecimento clássico: um desejo clássico. Desejo pertencer a uma história, à construção. Desejo habilidade. Desejo ser tecnicamente apurado. Desejo poder sempre aprender. Desejo experimentar. Desejos a mim e desejo o outro. Se gente, essa entidade que adoramos, é ser potente, eu desejo que minha arte seja deliciosamente potencializadora dos mistérios.

Não desejo ser grande e representar soluções, mas desejo apresentar, talvez, uns bons problemas. Desejo o meio-saber e não desejo a vaidade miraculosa. Desejo que vocês não sejam atores que evoluem na estrada de um projeto que minha voz alimenta e meu jeito poda. Desejo propor sem prever. Desejo que sejam passantes passistas autores livres por uma abertura cujo caminho surge na luz e na sombra dos próprios pés. Desejo ser sempre surpreendido como surpreendo.

Desejo que você tenha a quem amar. Desejo sim e estou vivendo. Desejo te amar sem que precises de mim. Desejo que tu me ames sem que eu precise de ti. Desejo amor e vexame. Desejo tesão e, particularmente, não desejo solidão à ninguém. Desejo, e desejo não é só falta. Desejo sensível. Desejo, desejo erótico: satisfação imediata, prazer, júbilo, receptividade e ausência de repressão. Desejo, às vezes, a realidade.

Desejo saúde. Desejo que meu corpo não deixe de poder ser. Desejo não perder a potência. Desejo que a árvore da felicidade de minha casa e de minha vida esteja sempre na muda. Desejo saber guardar e desapegar dos galhos que a árvore da vida me apresenta. Desejo que a idade não traga a perda das vontades, nem a perda da potência. Desejo ser sempre ávido, pleno em desejo intenso, cheio de vida. Desejo. Morototó tarumã junco popoca junco popoca biquipi biriba botão de ouro.

Desejo o desejo exposto e desejaria seguir bem e mais um pouco, mas, por fim, deseja-se, sobretudo, dizer que desejo: desejo desejo.

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