terça-feira, 11 de novembro de 2014

Crítica: "Sentimo-nos cegos" (Ivan Grilo, Galeria Luciana Caravello, 2013)

Diário de Bordo do São José III (MCPUL - MA - Z6) do dia 19 de setembro de 2013.

(ao meu amor)
Começamos nossa viagem de volta da Ilha dos Lençóis às dez horas e cinco minutos da manhã de hoje. Como estamos na temporada dos grandes ventos, serão seis horas e meia de barco em igarapés e furos até Apicum Açu para evitar o mar aberto. Depois, serão mais cinco horas de estrada até Cururupu, duas horas de ferryboat até São Luis, duas horas de avião até Brasília e mais uma hora e meia de voo até São Paulo.
Neste pequeno barco de pesca, além de mim e Ivan Grilo, estão os pescadores Bicho, João Carlos, Hélio, Tango e Nango, os professores Nina e Natanael, a zeladora da escola Silvinha e sua filha Silmara, além de Renata, Renan e Renato – respectivamente esposa e filhos de Nango, o dono do barco.
Durante duas noites e três dias, eu e Ivan moramos numa pousada amarela feita de madeira e palha, que, na verdade, eram dois quartos na casa da família de Nango. Viemos até a ilha buscando depoimentos sobre algumas lendas locais que nos pareceram, lá no Rio de Janeiro, de frente ao laptop, muito interessantes às pesquisas recentes de Grilo.
A História conta que em 1554 nasceu o Príncipe Dom Sebastião, neto do Rei Dom João III e esperado pelo povo português como “O Desejado”. Filho do Príncipe Dom João, falecido antes de seu nascimento, subiu ao trono lusitano aos 14 anos. Dez anos depois, organizou uma cruzada ao norte da África com 500 navios e mais de 20 mil homens. Enquanto acontecia o combate, uma névoa desceu sobre a região marroquina de Alcácer-Quibir e, ao se dissipar, Portugal havia perdido dez mil homens para a morte, e o jovem rei, surpreendentemente, desaparecera.
Essa é a origem do mito do Sebastianismo, uma espécie de messianismo à lusitana baseado na crença de que, em alguma manhã no futuro, uma névoa entrará por Lisboa devolvendo ao solo português o Rei Sebastião, “O Encoberto” ou “O Adormecido”, que haverá passado todos esses séculos esperando a hora certa para voltar e salvar Portugal, construindo um reino de paz, riqueza e união.
Acontece que Ivan Grilo passou os últimos anos pesquisando formas diferentes de lidar com fotografias de acervos institucionais e domésticos e, em importante parte de sua produção, sobrepôs superfícies não translúcidas às imagens apropriadas. Esse procedimento impedia que as imagens escolhidas por Grilo em longos e complexos processos de seleção fossem completamente vistas pelo público; porém, mais do que revelar parte da memória de uma instituição ou de uma família, Ivan estava interessado em alimentar nossa enorme e inevitável capacidade imaginativa. A partir de um dado momento, Ivan se lançou a pesquisar a ideia de névoa ou neblina e chegou a utilizar algumas vezes vidro jateado sobre a fotografia (às vezes apenas apoiado, outras vezes como parte da moldura). Pesquisando neblina, chegou até a história de Dom Sebastião.
O curioso é que a população da Ilha dos Lençóis, composta por menos de 400 pescadores completamente isolados com suas famílias a 13 horas de São Luis do Maranhão, que já chegou a ter vinte por cento de albinos em sua formação, acredita que Dom Sebastião, o rei português desaparecido no Marrocos em 1578, reina na Ilha com seu castelo embaixo d’água.
Sabendo disso, eu e Ivan achamos importante fazer essa expedição e, menos de 15 dias depois dessa ideia, estávamos reunidos no aeroporto de Campinas para iniciar nossa viagem.
Assim que chegamos ao aeroporto de São Luis, fomos recebidos pelo motorista Patrick, que nos levaria até o porto de Apicum Açu. Seu primeiro ato foi nos entregar um envelope com alguns papéis contendo informações sobre a ilha e a região. Todos os impressos eram estampados com fotos de revoadas de Guarás, grandes pássaros muito vermelhos que se alimentam de pequenos crustáceos dos mangues da região. Pois uma pena muito vermelha fechava o tal envelope. Patrick fez questão de dizer: “Vocês têm de receber isso pra ir à ilha, mas precisam saber que essa não é uma pena arrancada de um Guará.” Eu bem entendi. Aceitei, guardei a pena com cuidado e é com ela que escrevo esse diário de bordo.
A viagem de ida foi torturante. A paisagem que cortávamos e que nos cortava era enternecedora demais, mas o mar tinha mais buracos e quebra-molas do que a estrada destruída entre Cururupu a Apicum Açu. O barco balançou muito, nos jogou inúmeras vezes de um lado para o outro, e chegamos à ilha completamente encharcados. Além disso, carioca-pretinho-marrento, decidi fazer a travessia vestindo apenas uma bermuda (mesmo tendo feito atenção às mangas e calças compridas dos pescadores). Afinal: barco + sol = bermuda. Faltou apenas um Equador nessa equação.
Assim que chegamos, cansados, molhados e queimados, percebemos que valeria a pena. Mas jamais poderíamos imaginar tudo o que aconteceria.
Ainda nesse primeiro dia, com alguma ansiedade disfarçada, perguntávamos a todos sobre as lendas que afirmavam que Dom Sebastião vivia na ilha. Causando-nos uma enorme frustração, nos respondiam apenas não conhecer as histórias, não saber contar nenhum caso ou que nem mesmo acreditavam no mito do rei.
Fomos dormir muito impressionados com a beleza da ilha: o mar era muito grande, as árvores, muito verdes, as dunas, altíssimas. Nossos quartos tinham mosquiteiros que não usamos, pois não parecia ter mosquitos por ali. As toalhas exibiam bordado o brasão da coroa portuguesa. Às quatro da manhã, acordei com uma ventania que fazia a casa tremer demais. Com toda aquela violência, a palha do telhado se levantava, deixando entrar areia e todo tipo de inseto vivo ou morto. Os mosquiteiros que não usamos serviam para não deixar o vento sujar a cama durante a noite.
Tomando o café da manhã composto por frutas e tapioca, contei ter ouvido um cavalo passar muitas vezes na frente da casa na madrugada. Renata logo me respondeu que não havia cavalo na ilha, e Nango completou: “Mas você ouviu bem certo; era o cavalo do rei. A gente ouve muito por aqui.” Eu e Ivan paramos os talheres no ar e arregalamos os olhos. Essa era a primeira vez que nos falavam do rei, real, na ilha. Todos os outros à mesa continuaram a fazer o que faziam. Tentamos seguir com mais perguntas – sem sucesso.
Ainda frustrados entre as pessoas, decidimos fazer uma trilha para conhecer e conversar com a própria ilha (afinal, ela é o grande personagem). Laílson foi o encarregado de nos guiar; começou o trajeto nos mostrando como chegar ao outro lado da enorme duna enquanto nos revelava que, de tempos em tempos, objetos dourados são desencavados da areia pelo vento. Talheres, joias, colares, moedas. “São parte do tesouro do Dom Sebastião. O castelo dele é bem aqui, debaixo d’água.”
Saímos das dunas, entramos no mangue. Ele disse: “Por segurança, pisem apenas nas raízes”, antes de se embrenhar com rapidez suficiente para que o perdêssemos de vista em 15 segundos. Para desespero de Ivan (que aproveitava essa experiência no mangue para perder um conjunto de medos carregados da infância), dei um passo mais arriscado e minhas duas pernas afundaram de uma só vez na lama cinza cheia de caranguejos até quase a linha do quadril. Antes de sair do buraco, chequei rapidamente se o iPhone estava embaixo d’água ou no bolso de cima. No bolso de cima! Saravá, Amém, Senhor. Mais à frente, Laílson nos apontou uma “planta medicinal” e repetiu algumas vezes que aquela era uma planta e não uma erva. Eu e Ivan não pudemos evitar a expressão de susto quando assistimos Laílson dar, sem titubear, uma enorme dentada no caule, arrancando um pedaço da casca e grudando-o numa ferida que tinha na perna. “É ótimo pra cicatrização. Faz não inflamar.” Como deveriam, eu acredito em tudo.
Ainda na trilha, Laílson nos ofereceu a frutinha de um cacto que ele afirmou ter o gosto da ilha (era algo entre a lichia e o coco), nos ofereceu um cipó com o cheiro da ilha (algo como cheiro de cipó), nos levou onde a duna está soterrando a floresta e pudemos ver a areia escorrer como água sobre as árvores. Caminhamos por uma longa praia em linha reta, para onde o mar traz restos de embarcações naufragadas, redes de pesca perdidas e toda a sorte de provas dos dramas do mar. Lá, nos mostrou as pequenas bases de pesca artesanal e nos contou que, devido ao vento, de seis em seis anos todos trocam suas casas de lugar, quando estas começam a ser engolidas pelas dunas. Pouco antes de voltar ao vilarejo, vimos as duas gigantescas unidades de energia eólica, construída pelo governo Dilma, trazendo energia elétrica para a ilha. Ao lado da base dos grandes postes, está o “Cajueiro dos Anjos”, onde estão enterradas as crianças da ilha que não resistiram ao parto ou que morreram antes dos 10 anos.
Fazia um calor indescritível. Começamos nossa caminhada pela parte deserta da ilha às oito da manhã; não tinha uma nuvem no céu, e só retornamos ao vilarejo às duas da tarde. Exaustos, completamente empapados de areia e filtro solar, sentamos em bancos feitos de troncos de árvore em frente à mercearia da ilha para tomar uma cerveja antes do almoço. Aos poucos, as pessoas passavam, e nós as convidávamos para sentar conosco. Revelei a eles que eu tinha ouvido passar um cavalo na madrugada, e me contaram: “Uma senhora, das mais antigas aqui da ilha, vivia olhando tudo que passava em frente à casa dela. Numa noite, ouviu um canto se aproximar, foi até a janela e viu que se tratava de um grupo se aproximando fazendo orações. Uma das pessoas se aproximou dela e deu uma vela acesa para ela segurar. Quando ela piscou os olhos, estava segurando a perna de um cadáver.”
Tivemos de ir almoçar, mas combinamos de voltar mais tarde para outra cerveja.
Depois de comer uma deliciosa galinha caipira que pouco tempo antes passava por entre nossas pernas, nos convidaram para visitar um farol que fica numa ilha próxima. Para chegar à ilha do farol, era preciso ir de barco de pescador e depois remar numa canoa. Para que não ficássemos frustrados mais uma vez, nos avisaram que o farol estava quase caindo e que não poderíamos subir.
Era um farol enorme, fálico como poucas coisas conseguem ser e listrado de branco e preto. Ao avistar a grande construção e suas rachaduras, Ivan disse: “Ia ser lindo ver esse farol cair.” Guardando o local, dois soldados da Marinha, que estavam lá, sozinhos, havia quase três meses. O nome da vila deles esculpido em pedra: “Tenente Álvaro – Hidrógrafo.” Durante dez anos de minha infância, eu dormi todos os dias com camisas brancas e idênticas, herdadas da época em que meu avô materno era um jovem no Exército. Nessas camisas brancas, que enrolavam meu corpo enquanto eu sonhava, estava escrito “Tenente Álvaro”.
Um dos soldados veio me cumprimentar efusivamente: carioca de Campo Grande, Rodrigues. Ivan nem se mexeu e acenou de longe. Enquanto o segundo soldado mostrava um quadro emoldurado com os dados da história daquele farol, Rodrigues trocava de roupa para então nos convidar: “Vamos subir?!” Ao mesmo tempo, eu disse sim, e Ivan disse não. O soldado insistiu, nós subimos.
No momento em que entrei pela porta de ferro oxidada e trancada com correntes, minha sensação era de que éramos três mortos. “Ia ser lindo ver esse farol cair” tinha dito Ivan havia oito minutos. Assim que entrei pela porta do farol, éramos três mortos. Nas paredes, rachaduras com dois dedos de largura. As vigas estavam completamente expostas e enferrujadas. Rodrigues se esforçava em ser cativante, e eu sentia que ele olhava e sorria demais para nós. Lá de cima, uma incrível vista da ponta da mata amazônica, de vários tipos de mangue, de revoadas de guarás, garças brancas, garças morenas, maritacas e papagaios, dos rios, do mar e, ao longe, na beira do horizonte, de uma grande duna. Em todo o tempo que passamos sobre a areia da Ilha dos Lençóis, não vimos o farol.
Cantando como a sereia, Rodrigues nos convidava para subir cada vez mais alto. Escalamos o assustador caracol de concreto, e o soldado, sorrindo, nos indicou que não fôssemos na varanda, pois ela não era muito segura. Mesmo assim, nos convidou para subir mais uma escada, vertical, de ferro, que acabava em um buraco quadrado no teto com 50 cm em cada lado. Lá em cima, éramos nós três mortos e a lâmpada apagada.
Perguntamos sobre as lendas locais, e Rodrigues nos respondeu: “Dizem que aqui é a ilha dos amores, mas não acredito nisso.” Nunca nos haviam dito que aquela era a ilha dos amores. Não existe essa lenda. Só para Rodrigues que, então, já nos convidava para dormir com ele na vila aquela noite. “Vai ter bolo!” Disse que poderíamos voltar a pé para nossa ilha de manhã.
Saindo finalmente pela tal porta de ferro oxidada, o soldado quis nos mostrar uma jiboia de 8 metros que morava nas bases do farol. Agradeci e recusei o estranho convite. Descemos com a sensação de termos passado cinco minutos dentro da construção. Nossos guias disseram que foram cinquenta longos minutos.
Na canoa da volta, Ivan me revelou que Rodrigues não conseguia disfarçar o encanto com o meio das minhas pernas. Eu, sinceramente, não havia percebido seu interesse nem havia entendido para onde as sereias nos convidam: subir em farol ruindo, conhecer uma jiboia de 8 metros, andar a pé entre duas ilhas num local onde a maré tem grandes variações. Rezei agradecendo à cera milagrosa de Santo Ulisses da Grécia.
Antes de voltarmos para nosso canto na Ilha dos Lençóis, paramos em uma comunidade vizinha chamada Bate-Vento. Um senhor de 85 anos chamado Jacó (ou talvez esse fosse o nome de seu irmão) havia nos prometido um par de cocos por termos dado a ele uma carona de barco entre Apicum Açu e Bate-Vento. Nessa ilha, sem dunas ou mangues, há uma comunidade um pouco maior, com casas de alvenaria, nomes de políticos locais pintados nas fachadas (como em todo o interior do Maranhão) e uma atmosfera assustadoramente soturna. O ar parado do lugar contrastava com nossa experiência nas ilhas vizinhas e com o próprio nome desse vilarejo. Jacó, muito negro, muito magro, muito enrugado e com os olhos quase completamente brancos pela catarata, conversou conosco na beira de um largo e profundo poço. Com nossos rostos refletindo na água preta e viscosa, ele nos contou, com vergonha, que não poderia nos dar os cocos, pois não podia subir sozinho nos coqueiros de 7 metros de altura que ficam em seu quintal. Agradecemos por ter nos recebido e fomos embora para encontrar, em nossa ilha, o pôr do sol mais impressionante que já vimos.
Depois do jantar, fiquei à mesa conversando com o pai de Nango. Ele é uma figura muito misteriosa que passou quase todo o tempo ao nosso lado sem falar uma única palavra. Percebi, sozinhos à mesa de jantar, que aquela seria minha melhor oportunidade. Maneco, como é chamado na família, enquanto fumava seu cigarro enrolado, respondia as minhas perguntas com “sim”, “não” ou nada dizia. Após alguns minutos de esforço, consegui descobrir que a comunidade da ilha era majoritariamente católica, com nenhum evangélico e um belo terreiro de candomblé do qual ele, Maneco, era o líder, pai de santo. Segundo Maneco, era o curador da ilha.
Esse terreiro com ritos do tambor-de-mina fora fundado por um maranhense que fez santo” na Nigéria e consagrou o barracão a Oxalá. Mesmo assim, a maior festa da ilha é para Oxóssi. Como se sabe, no sincretismo, Oxóssi é São Sebastião, e, na ilha, São Sebastião é comumente confundido com Dom Sebastião.
Quando Maneco, amaciado, nos convidava para voltar à ilha em janeiro para a festa de Oxóssi, Nango entrou no cômodo após um banho de água de poço nos lembrando da cerveja prometida para essa noite na mercearia. Se Nango não tivesse chegado nesse momento, talvez Maneco tivesse tido tempo de nos contar sobre a Encantaria de Mina, que cultua voduns, pessoas que viveram, mas não morreram: se encantaram e voltam a esse plano no corpo em transe dos iniciados. Talvez, se tivesse tempo, Maneco nos explicaria como a presença do tambor-de-mina na matriz religiosa regional abria caminhos para a crença no reinado de Dom Sebastião. Talvez, ele até teria tido tempo de nos explicar que, na Encantaria de Mina (que tem culto até em São Paulo), existe a chamada “Família de Lençol” com os denominados encantados gentis: nada mais nada menos que Dom Sebastião, Dom Luís, Dom Manoel, Dom Felipe, Rainha Bárbara, Príncipe De Oliveira etc. se manifestando no corpo dançante dos iniciados. Mas não houve essa chance. Fomos à cerveja.
Depois de muitas garrafas, éramos um grupo de seis homens e uma mulher. “Se me oferecem uma viagem ao Rio de Janeiro com avião e hotel pagos, eu digo muito obrigado. Mas não vou.” “Lá no Oriente Médio ninguém morre sozinho. É só 200 mortos, 500 mortos. Outro dia, no Egito, morreram mais de mil numa manifestação!” “Como vocês conseguem ter barba? Aqui na ilha ninguém tem barba.” “Como é encontrar os atores da Globo nas ruas do Rio?” Umas cervejas a mais e começam a nos contar histórias do Rei. “Uma vez, apareceu um homem e comprou vinte quilos de farinha. Mandou jogar tudo na água e desapareceu.” “Um dia, um homem sonhou e mandou que desmontassem uma casa que estava atrapalhando a carruagem do Rei de passar. Não desmontaram e sofremos um acidente em Cururupu em que quase morremos. Mostra a cicatriz pra eles, Laílson.”. Estava lá a cicatriz de 20 centímetros na coxa do homem. “No inverno, a terra treme e a areia engole bois inteiros que ficam apenas com o pescoço pra fora.”
(Reparo, agora, no barco, que Nango não fez a barba hoje!)
No caminho de volta para a pousada, sem que perguntássemos, um menino nos contou que foi preso por ter dedado outro menino. Pensamos que fosse “dedurado”. Não, era dedado mesmo.
Já ao redor da mesa da casa, Renata nos contava como ela tinha sonhos premonitórios. Uma vez sonhou com um choro de Renato. Algumas horas depois, Renato tinha o pescoço atravessado por um ferro da cerca da casa. Quase morreu, mas o anjo do sonho ajudou. Outra vez, sonhou que Nango tinha outra mulher, baixinha e morena, enquanto ela paria Renan. Era verdade. Quando ela viu a mulher, soube quem era. Ela nos contava como rezavam e veneravam Dom Sebastião como fosse Deus. Quando dissemos que queríamos ir à duna naquela noite de lua cheia, nos disse que rezássemos, lá, para o Rei Sebastião.
Eu, Ivan, a lua cheia, a ventania e a duna. Não precisamos muito da lanterna. De tão clara que era a noite, parecíamos andar sobre montanhas de talco lunar. Por completo acaso, chegamos à ilha nos dias de lua cheia. Dizem que durante a lua nova (chamada, aqui, de Luz de Escuro) tudo é mais assustador. Não sei como poderia ser mais assustador.
Depois de alguns minutos conversando, sozinhos, enquanto nossos celulares buscavam algum sinal (só funcionavam em alguns poucos metros quadrados no topo do monte de areia), vi uma lanterna azul piscar. Era tão real que, de início, pensei que fosse alguém chegando. Não era. Logo entendi que era o Rei Sebastião se mostrando para a gente. Antes daquilo, achávamos que acreditávamos na lenda. A partir de então, tudo que ouvimos, mais do que narrativa, era real. Tão real quanto aquele vento que nos socava as costas. Daí em diante, o medo do absurdo tomou conta de nós dois. Algumas árvores à distância pareciam cavalos. Ou eram cavalos que não andaram na nossa direção. Ficamos alguns minutos decidindo se caminhávamos até o fim da duna ou não. O vento era forte demais e batia em nossas costas. Eu queria ir. Ivan não queria. Ivan quis ir. Eu dei para trás. Eu topei. Decidimos ir ao fim da duna.
Andamos lentamente como se fôssemos entrar em um caminho sem volta. Não estávamos errados. Ao descer a última curva da grande duna, o vento cessou. Parou. Silêncio. Olhamos para trás, não podíamos mais ver o vilarejo. À frente, água escura nos separando de outra ilha. Sem o vento, não precisamos dizer uma palavra. Sentamos sobre aquele silêncio e o vento que não corria fazia parecer que o tempo tinha parado. Talvez tenha parado.
Sentados, juntos, encarávamos a água escura da noite. Foi quando, então, entre nós e o azul marinho, surgiu uma figura no ar. Era Rei Sebastião, coroado em seu cavalo. Não. Na verdade, não era. Poderia ter sido. Mas a figura que apareceu entre nossos olhos e o mar surgiu e se desmanchou muito rapidamente. Fez questão de mostrar que poderia aparecer com a forma que quisesse. Mas não vimos o Rei em forma de Rei. Com o susto pela fagulha de fantasma sem forma, perdi a respiração por um tempo e os olhos encheram de água. Ivan perguntou se estava tudo bem. Eu, que não tinha tido medo de mangue, de louco, de bicho, de sol nem de naufrágio, fui frágil diante do Rei. Quem não é frágil diante do Rei? Mais dois minutos de silêncio com os olhos arregalados pedindo que tudo entrasse pelas pupilas e Ivan perguntou: “Você está vendo isso?” “O quê?”, perguntei eu, já acreditando que poderia, então, naturalmente ver o tal touro com estrela na testa de que eles tanto nos falaram.
- A dobra do mar.
Por mais absurdo que isso soe, estávamos eu e Ivan diante de uma parede d’água. Estávamos secos, mas a linha do horizonte estava acima de nós mesmos; a duna descia até embaixo do mar, e o local onde estávamos, sentados na coluna da duna, era para ser embaixo d’água. Estávamos diante de uma parede de água! Aquilo era muito mais absurdo do que um touro com estrela na testa. E era tão real que não havia mais medo.
Depois de um tempo, andamos para trás com calma e lembramos que Renata nos dissera para rezar para o Rei Sebastião. No topo da duna, o vento voltara com toda a sua força. Ajoelhamo-nos. Vimos, ao longe, a luz do farol piscar pela primeira vez. Perguntei se Ivan gostaria de falar alto. Ele disse que não conseguiria. Eu tomei a palavra. Quando pensamos que já havíamos vivido de tudo, assim que eu comecei a agradecer, a areia da duna começou a subir, verticalmente, do chão para o céu, arrastando em nossos rostos, grudando em nossos céus da boca. Disse estar grato por termos chegado com segurança, por ele ter se manifestado para nós, por termos vivido esses dias na ilha em alegria. Pedi que nos levasse de volta em segurança até o porto de Apicum Açu. Disse que o reconhecia como soberano daquela ilha.
- E vida longa ao Rei!
Voltamos sem falar uma palavra. Os cachorros latiam para nós, a lua enorme mostrava o caminho e as aranhas que por ele andavam. Mais uma madrugada de ventania.
Hoje de manhã, caminhando pela praia, nos preparando para entrar nesse barco para a volta, encontrei uma concha de ouro. Se isso tivesse acontecido no primeiro dia, teríamos achado muito impressionante. Nesse último dia, depois da noite passada, achamos natural. Diz a lenda que quem leva algo da Ilha dos Lençóis naufraga. Não tivemos dúvida do que fazer.
Há alguns anos, um professor da UFRJ chamado Claudicélio Rodrigues da Silva decidiu fazer sua tese de doutorado sobre como a figura do Rei Sebastião na poesia oral local nutre imaginários por essas ilhas. Realizou um trabalho lindíssimo e conseguiu até mesmo construir, nessa ilha a 13 horas de São Luis, o “Memorial Dom Sebastião”. Fomos visitar o memorial nessa manhã antes de entrar no barco. Para nossa surpresa, uma biblioteca bem-montada é o primeiro cômodo da casinha vermelha. Não é à toa que Nango tinha um exemplar de A metamorfose na estante de casa. O povo da ilha tem mesmo o hábito de ler. Atravessando uma cortina de contas e conchas, chegamos a outra sala na qual fomos recebidos por uma estátua de mais de um metro e vinte centímetros de altura de São Sebastião. Sem as flechas. Aos seus pés, um alguidar (vasilha de barro redonda, utilizada comumente em ritos de religiões afro-brasileiras) onde os moradores da ilha colocam os talheres, joias e correntes de ouro encontradas na ilha. Eis o destino certo de nossa concha.
Eu e Ivan paramos um tempo com o olhar fixo nas dunas e no tanto de areia levantada. Eu disse que se o Rei Sebastião sumiu em uma névoa, poderia facilmente reaparecer numa tempestade de areia. Ivan, então, lembrou que Alcácer-Quibir é uma região seca do Marrocos e que neblinas só acontecem em lugares úmidos e frios. Desde sempre, Dom Sebastião havia sumido numa nuvem de areia. E Portugal esperando uma névoa.
Enquanto nos despedíamos de Laílson e Maneco, várias pessoas vieram pedir carona no barco onde comecei a escrever esse texto. Agora, já saímos da embarcação, já andamos seis horas de carro e duas horas de ferryboat. Já estamos quase chegando no aeroporto. É claro que a viagem foi cansativa, mas, por algum motivo, foi menos cansativa do que a ida. Eu e Ivan trocamos poucas palavras durante quase todo o trajeto.

Quando sentamos lado a lado no ferryboat, começamos a conversar. Nesses dois dedos de prosa, percebemos que, como imaginamos, a viagem à Ilha dos Lençóis seria transformadora para a produção de Grilo. Com todo o vivido, ficou claro para nós dois que, mais do que um interessado em documentos e fotos de acervo, Ivan age como um grande contador de histórias. Antes, por vezes, Ivan se lançou sobre arquivos institucionais e domésticos para criar comentários e próprias versões sobre o objeto pesquisado com o uso da apropriação e da não exibição das imagens selecionadas. Agora, Ivan se debruça sobre o mundo, sobre o que vive, para então, se apropriando do que é vida e, por definição, inexibível, elaborar seus comentários e tecer suas versões. Já estou no Aeroporto de São Luis e percebo que esse texto é minha forma de contar o que vivemos nessa viagem e o que a Ilha dos Lençóis foi para nós. A exposição “Sentimo-nos cegos” é, sobretudo, a forma de Ivan Grilo.

terça-feira, 18 de março de 2014

Crítica: Rupestre Contemporâneo (Nadam Guerra, Galeria de Arte Ibeu, 2013)

(ao meu amor)

O Grupo UM foi fundado em 2003 por Nadam Guerra e Domingos Guimaraens e reunia artistas em exposições com “motes” como “Teatro Abstrato”, “Humanogravura”, “Escultura Imaterial”, “Performance Fotográfica” e “Chanchada Conceitual”. Seu manifesto fundador revelava o interesse comum dos participantes na chamada “arte viva”: “Tudo é Um. Arte é Um.”. Com dinâmica de reuniões regulares e experiências expositivas temáticas sem curadores, o grupo chegou a ser formado por quase 20 artistas. Entre os participantes: Nadam Guerra, Carlos Eduardo Cinelli, Jaya Pravaz, Julia Csekö, Joana Traub Csekö, Löis Lancaster, Pedro Seiblitz, Natalia Warth, Tissa Valverde, Marina Dain, Moana Mayall, Bruno Castello, Ophélia Patrício Arrabal, Cristian Caselli e Luiz Lopes, além de Daniel Toledo e Domingos Guimaraens, que viriam a fazer parte do coletivo OPAVIVARÁ!. Como convidados, participaram, entre outros, Roberto Alvin, Alexandre Sá, Andrea Jabor, Debora 70, Amélia Possidônio, Leila Lessa, Tato Teixeira, Livia Rosa Freitas, Elaine Thomazzi e Ricky Seabra.
O Grupo UM, como o Grupo Py e outras experiências radicais de ocupação de espaços alternativos para arte contemporânea (como os Orlândias), teve sua origem numa época em que havia muito menos espaços expositivos institucionalizados e editais para fomento de arte contemporânea no Rio de Janeiro. Essa exposição comemora os primeiros 10 anos do Grupo UM.
Porém, essa não é uma mostra retrospectiva. Todos os trabalhos que compõem “Rupestre Contemporâneo” são inéditos e resultados das relações entre os artistas que compõem essa nova formação do Grupo UM: Nadam Guerra, Domingos Guimaraens, Aline Elias, Leo Liz, Juca Américo e Euclides Terra. Com origens geográficas, idades, posicionamentos políticos, poéticas e interesses bastante diversos, esses artistas se reúnem regularmente há dois anos elaborando as parcerias cujos frutos encontramos nessa exposição.
Nadam e Domingos são os únicos que participaram desses 10 anos ininterruptamente. Domingos é poeta, artista visual e faz parte desde 2008 do coletivo OPAVIVARÁ!. Nadam Guerra tem uma produção extensa e muito heterogênea. Já desenvolveu trabalhos de cinema ao vivo, vídeo arte, performance, arte relacional, cerâmica etc. É um dos fundadores da ecovila Terra Una e um dos organizadores do festival de arte vida V::E::R.
Pode talvez não parecer, mas acredite: essa é uma mostra individual de Nadam Guerra.



“Nadam Guerra é um artista contemporâneo carioca. Há mais de uma década, vem investigando um apertado emaranhado entre identidade, relações e narrativas. Por sua produção ser muito heterogênea e por ele não ter sido muito visto nos eventos da cidade, alguns duvidam se ele existe de fato ou se é um trabalho do Grupo UM. Outros dizem que ele se faz de muitos e de outros para agrupar o tanto que transborda dos limites muito apertados por uma existência só.
Sonhei com ele quando tomei Ayahuasca. Veio um anjo, e estava lá ele embaixo da asa do outro. Depois um índio me apresentou à sua mãe. É bem louco isso, mas é verdade. Alguns dias depois, com tantas dúvidas rolando por aí, por um momento, eu desconfiei que eu havia inventado Nadam, mas eu não inventaria esse sobrenome Guerra. Não mesmo. Nada contra, mas eu seria menos literal.
“Nadam” não: esse eu poderia ter escolhido como nome para um personagem. É ótimo. É esquisito, e ninguém duvidaria de que é real. Nenhum personagem inventado tem um nome estranho desse. Se fosse José Carlos, as pessoas poderiam duvidar.
De todo modo, logo depois tive medo de ter sido inventado e manipulado por ele. Tem esse lance: quando a pessoa não cabe em si, não cabem também seus artifícios. Real ou não, Nadam é uma figura cativante e encantadora: um verdadeiro interessado na expansão do espaço compartilhado entre a arte e a vida. Amante da matéria viva e da matéria coisa. Materializador de sonhos e desmaterializador de limites. Como ele mesmo diria:
- Quando a arte é boa, é vida. Quando a vida é boa, é arte.”


Crítica: Alexandre Mazza: entre o fenômeno e o monumento: das manifestações da memória universal.

(ao meu amor)
Entre o fenômeno e o monumento: Das manifestações da memória universal” é uma proposta de experiência delirante. Alexandre Mazza vem se empenhando em decifrar o que podem os nossos olhos no encontro com o que podem as coisas – e, nessa exposição, nos entrega ao domínio de um universo que nos captura não apenas pelo que vemos, mas por nossa incapacidade de evitar a imaginação. Esse é o resultado da atual pesquisa do artista que trata de investigar como a aplicação de diferentes técnicas poderia gerar canais para manifestações de uma memória universal presente nos homens e nos materiais.
Um mesmo procedimento é utilizado em grande parte dos trabalhos dessa mostra: ao situar e iluminar um objeto entre duas superfícies refletoras, o artista nos provoca a impressão de estar de frente a um buraco infinito no qual podemos ver uma série de objetos idênticos e alinhados, que se tornam mais visíveis ao se aproximar da extremidade mais iluminada, ou menos visíveis, ao se afastar em direção à escuridão.
Em uma das séries que utilizam esse procedimento, os objetos entre espelhos são esferas de pedras de ágata de diferentes volumes reunidas em grupos de quatro. As listras naturais da superfície desse tipo de mineral e o efeito das pedras flutuando eternamente num vazio nos transmitem a sensação de estar de frente para estruturas planetárias. No delírio proposto, não sabemos se somos gigantes diante de janelas para o universo ou se vemos pequenos planetas surgirem misteriosamente diante de nossos olhos.
A escolha por ágatas se deu não apenas por seus formatos, mas, também, por esse tipo de pedra ter forte relação com a história da magia na antiga Pérsia e do misticismo na Europa. Uma variação desses trabalhos teve inspiração na forma da constelação de Plêiades, associando 8 esferas de ágata de mesmo tamanho com uma pequena pentagonita, tipo de rocha descoberta há menos de cinquenta anos e que teria o poder de aumentar nossas capacidades de criação. A presença dessa pedra é importante não apenas por simbolizar a intenção de Mazza de que o espectador seja um criador de imagens durante a experiência com seu trabalho. Esse é um sinal, também, de uma das características mais importantes de sua produção: a vontade de gerar encantamento pelo mistério.
Em outro grupo de trabalhos dessa mostra, o que vemos se repetir na cadência entre o iluminado e a escuridão são estruturas com tetos e paredes feitas de vidro colorido e com discretos desenhos sobre a superfície referente ao chão. No delírio proposto, estamos entrando em templos que se assemelham a catedrais, mas que não apresentam retábulos. Daqui até a escuridão, vemos pequenos grupos de bancos de igreja que possuem até mesmo espaço para se ajoelhar, mas que não estão voltados para altares, mas sim para outros bancos. De alguma forma, tem-se a sensação de que quem ocuparia esses lugares não o faria para rezar a Deus, mas sim para encontrar outras pessoas.
Diferente da série anterior, em que as esferas de ágata ocupavam o centro das obras, nesse grupo de trabalhos a escuridão e o vazio ocupam a parte central do nosso campo de visão. Entre os vitrais iluminados, mergulhamos os olhos profundamente nesse escuro e nos descobrimos imersos em nós mesmos. Somos nós que encaramos, como no cinema, cada escuro e cada silêncio como experiência especular. Preenchemos o escuro de imaginário, confundindo real e irreal. De repente, percebemos que temos o rosto de fato refletido na superfície do trabalho, mas optamos por deixar o olhar atravessar nosso rosto de sempre e fincamos os olhos no escuro profundo. Preenchemos o escuro com mais escuro, deixando o imaginário enfeitiçar a imagem ou sua ausência.
No centro de uma sala cúbica, vemos pulsar iluminada uma esfera de 50 centímetros de diâmetro e com mais de 50 quilos cujo material heterogêneo, resina de vidro, varia entre o translúcido sem cor e o opaco vermelho, formando uma espécie de nuvem de carne. Sobre a peça, uma projeção luminosa tem o mesmo ritmo do som da sala. No escuro do ambiente, vemos essa forma flutuar mais uma vez como um planeta. Porém, as cores e o som nos remetem à circulação sanguínea. No delírio proposto, não sabemos se estamos diante de um astro em coordenação galáctica ou de uma célula em interação capilar. Mazza nos oferece abraçar, fisicamente, o universo presente como origem e potência dentro de cada uma de suas partes.
Como se prestasse um tributo à eletricidade necessária para o funcionamento de todos os seus trabalhos, Mazza projeta sobre o corpo de uma antiga válvula de transmissão de rádio um vídeo que mostra a queda d’água de uma cachoeira. Mais uma vez interessado nas maneiras pelas quais pode ser um canal para manifestação das vozes ou desejos do universo, Alexandre dá forma ao que imagina ser a memória da eletricidade.
Um dia, Mazza ficou por mais de uma hora de frente para um lugar de passagem de pedestres no Centro da cidade do Rio de Janeiro e teve a forte percepção de que todas aquelas pessoas, independentemente de quem fossem, tinham a mesma expressão no olhar: uma espécie de amortecimento ou anestesia. Um dos grandes interesses da obra de Alexandre é, exatamente, a construção de experiências cativantes, que cativam o espectador, que o colocam em cativeiro, que sequestram seu olhar e pedem, em troca de sua liberdade, o resultado de sua capacidade de imaginar. O trabalho “Todos em uma” aponta exatamente para o aprisionamento do homem atrás das grades do olhar amortecido cotidiano e é composto por uma animação que mostra o caminhar constante de silhuetas negras por trás de uma placa de acrílico de mesma cor, recortada com diferentes perfis de pessoas em diversas situações. De alguma forma, essas sombras funcionam como nossos duplos e apresentam, mais uma vez, vontade especular.
Um dos grandes interesses de Alexandre é a fé na imagem, a coragem de acreditar no que vemos, mas que está além da própria capacidade fisiológica de enxergar. A grande matéria da produção de Mazza, portanto, é o exercício do olhar como um dos pensamentos do corpo, e sua pesquisa alcança, também, investigações sobre o encontro dos olhares. No trabalho “Encontros”, duas cadeiras de acrílico estão dentro de uma casa do mesmo material transparente cuja superfície relativa ao chão é um monitor no qual vemos um vídeo em time lapse de nuvens passando brancas no céu azul. Exatamente abaixo das cadeiras, vemos dois recortes quadrados nos quais outro vídeo é exibido com ondas se desfazendo na areia. O movimento sincronizado dessas imagens e a posição das cadeiras, uma de frente para a outra, nos causam a impressão de que quem as ocupa vive um encontro especial de reverberação e troca. No delírio proposto, preenchemos os lugares e assistimos fragmentos abstratos de nossos desejos e memórias dialogarem no tempo.
Outro grupo de trabalhos dessa exposição utiliza ainda a mesma técnica explorada nas obras com as esferas de ágata e com as catedrais. Maquetes de alto grau de detalhamento são postas entre espelhos e se repetem em perspectiva até o desaparecimento no escuro. Numa delas, estamos em um beco de paredes de tijolos sem portas nem janelas: sem saídas. Em outra, estamos numa galeria com vitrines e iluminação urbana. Numa terceira, a mesma fachada de um prédio se repete à exaustão. Numa outra ainda, somos abraçados por uma curiosa floresta. No centro de cada um desses trabalhos, duas cadeiras; exatamente como na obra “Encontro”, elas se encaram. No delírio proposto, estamos imersos em tempos e espaços desconhecidos em que temos a impressão de estar no lugar onde o universo se examina atenciosamente. Mais uma vez, nosso olhar busca a escuridão central do trabalho e encontra nosso reflexo. Nas pequenas cadeiras de acrílico, nossos fragmentos em duplos nossos.
Parte das pesquisas mais iniciais para essa exposição derivava de investigações sobre lembrança e esquecimento. Para dar forma a esses processos, Mazza se utilizou da imagem de uma casa que surge e desaparece. Assim, o artista construiu uma grande casa na árvore em frente à Galeria Luciana Caravello feita inteiramente de lâmpadas. Outras três peças menores construídas com néon em galhos de jabuticabeira estão dentro do espaço expositivo. A justaposição de materiais tão diferentes como a madeira e a lâmpada coloca as casas em efeito de constante descolamento e suspensão. A casa de néon, da qual só vemos os contornos, é, ao mesmo tempo, sua presença e a afirmação do vazio de sua ausência.
O último trabalho que compõe essa mostra é ainda outra instalação formada por uma grande casa de paredes e teto transparentes que, de tempos em tempos, é preenchida por fumaça branca. A nuvem que impede que vejamos o interior da peça também afirma os contornos de sua forma.
Para produzir “Entre o fenômeno e o monumento: Das manifestações da memória universal”, Mazza venceu as limitações do Rio de Janeiro. Explorou diversos materiais e técnicas, tendo o preciosismo como regra e reunindo diversas equipes de especialistas. As catedrais foram feitas por um hialotécnico que utiliza o mesmo procedimento de sopro e coloração de vidro usado nas construções e restaurações das catedrais góticas europeias. A esfera de resina de vidro de 50 quilos foi feita sob encomenda na China. As maquetes de arquitetura foram produzidas por um maquetista-artesão capaz de transformar qualquer fotografia em maquete mesmo sem arquivo de projeto tridimensional. Os galhos das jabuticabeiras foram quimicamente tratados, e suas bases desenvolvidas pela equipe de marcenaria de um grande designer de móveis brasileiro. Mazza ainda se relacionou com especialistas em rochas e gemas, máquinas de fumaça, iluminação, animação gráfica etc. Sua grande capacidade de construir e gerenciar grupos de virtuosos talvez seja herança de seu passado como músico em bandas de rock.

Alexandre Mazza tem um percurso muito incomum no circuito da arte contemporânea. A inserção de sua obra no mercado aconteceu violentamente antes mesmo que o artista tivesse consciência dos interesses próprios de sua pesquisa. Essa exposição é um momento pleno em fertilidade e crescimento. As ambições de Mazza em direção ao impossível são cada vez maiores, e isso é perceptível nessa mostra que marca a afirmação do amadurecimento e da pertinência de sua produção. Atento aos fenômenos do urbano, ele quer ser capaz de administrar as formas como o mundo marca os corpos; quer fornecer potente vocabulário para gerar práticas cada vez mais encantatórias. No jogo lúdico da imaginação proposto por seus trabalhos, muitas vezes somos seduzidos por algo que reconhecemos, mas não sabemos o que é. Sua obra, com representações de intensidade dramática, atiça projeções imaginativas e nos faz perceber nossas formas de preencher os vazios. Manejando práticas que tangem o ilusionismo, Mazza quer ser o detentor dos segredos e faz, com essa exposição, o mais místico dos elogios à matéria e dos elogios ao mistério mais interessados no poder dos materiais.

Crítica: Tronco (Afonso Tostes, Casa França Brasil, 2013.)

(ao meu amor)
(axé)
Eram mais de cem peças longas de madeira resistente ao tempo e à chuva. Havia décadas, estavam empilhadas no canto de uma fazenda próxima à cidade de Juiz de Fora e seriam compradas pelo dono de uma elegante pousada mineira que as utilizaria para construir as portas e janelas dos novos quartos que construía. As peças que restassem seriam fincadas sobre o solo em frente à entrada da pousada para que as pessoas e os carros pudessem passar sem danificar o gramado. Essas eram as colunas, os baldrames, as travas de segurança e as tábuas do assoalho de um paiol construído há 250 anos na Fazenda Bom Retiro, no atual distrito de Chapéu D’Uvas. Antes de concluir a venda, o dono das madeiras resolveu consultar um de seus primos sobre os detalhes do negócio. Afonso Tostes, o primo, então, comprou, sem ver, o conjunto completo das madeiras.
Tão logo se consolidou a oportunidade para construir esse trabalho, fomos a Minas Gerais ver o material com o qual trabalharíamos. Desembrulhamos as peças de madeira (que estavam envolvidas em grandes retalhos de lonas com propaganda política de eleições passadas) e, sob o sol, os troncos pulsaram impressionantemente. Pareciam respirar, e quase era possível ouvir o som preso, cativo, contido em suas ranhuras. O continente, ali silente, era negro. Percebendo a força contida nos veios da madeira, fomos, aos poucos, aproximando-nos cada vez mais do tronco, até percebermos que estávamos dentro da boca de Zumbi.
Entrevistando trabalhadores da fazenda e pesquisadores da história local, descobrimos que o paiol havia sido construído por escravos e que, por eles, foi, durante mais de um século, continuamente preenchido e esvaziado com toneladas de milho. Naquele épa,[1] grande parte dos africanos escravizados chegava ao Brasil no Cais do Valongo, a poucos metros de onde hoje é a Casa França-Brasil. Os que trabalhariam nos campos do interior do país, como em Minas Gerais, caminhavam acorrentados até seus destinos.
Os que não morreram no caminho morreram depois de serem violentamente explorados. Alguns conseguiram fugir e construir um quilombo que, no fim do século XVI, tornou-se a Colônia São Firmino, que, por sua vez, posteriormente, seria inundada pela construção de uma enorme represa para abastecimento de água da região de Juiz de Fora. Da antiga colônia, só restou a parte mais alta do cemitério: agora uma ilhota com lápides simples no centro do lago da represa.



Na fazenda, precisávamos usar o fogão à lenha e, para isso, eu, que nunca havia tocado em um machado, fui incumbido da função de rachar toras de madeira. Durante três horas, rasguei o ar sobre minha cabeça com o instrumento. Nós e aqueles que nos acompanhavam ficamos impressionados por eu não me cansar, não suar e demonstrar habilidade demais para quem experimentava a ferramenta pela primeira vez.
Ainda decididos a viver a Fazenda Bom Retiro, desejamos comer algo da fazenda e, como não havia frangos, matamos, depenamos e comemos juntos um grande galo branco.
Enquanto caminhávamos, um dos trabalhadores da fazenda se aproximou de nós e nos contou que havia uma onça nos arredores. Ele já tinha ouvido falar da presença desse animal na região, mas nunca na fazenda. O rastro dela circundava a casa onde dormíamos. Era possível ver, na terra marrom, a marca de suas patas.
Sentado à noite em um banco da varanda, questionei Afonso sobre a exposição que ele havia montado nas Cavalariças do Parque Lage no ano de 2002. Tostes, sem se ater aos demais detalhes da mostra, me contou que, na ocasião, colocara fogo em pinturas a óleo sobre algodão dentro de uma gamela de bronze.
No caminho de volta, por cinco minutos, dois grandes gaviões acompanharam nosso carro em cada curva e em cada reta a poucos metros da janela.
Curioso sobre a vida daqueles que construíram o paiol e sobre como isso poderia vir a se relacionar com nossa exposição, compus uma lista de assuntos e questões caras ao povo negro no Brasil a serem pesquisados: desde escravidão, tortura e tráfico negreiro até candomblé, samba e capoeira; desde estudos recentes sobre a vida dos escravos no Brasil no século XIX até as formas de construção histórica dos discursos da mestiçagem; desde o novo Estatuto da Igualdade Racial até as recentes políticas de ação afirmativa. Decidi iniciar as pesquisas com o tópico “Candomblé”.
Logo descobri que o Brasil é considerado por muitos como a nova nação de Xangô pelo fato de os primeiros axés chegados em nosso país terem sido axés de Xangô, e decidi pesquisar sobre esse orixá.
Então aconteceu: o símbolo de Xangô é o machado (de dois lados). Xangô come galo branco. O animal de Xangô é o leopardo. Ajerê é o nome da dança ritual em que quem está manifestando Xangô se movimenta com uma gamela de bronze cheia de algodão embebido em óleo queimando sobre a cabeça. Gavião é o animal de Aganju: no Brasil, cultuado como uma das qualidades de Xangô.
 Entendemos a mensagem.
Xangô é também o dono da coroa, símbolo de ancestralidade. Em uma consulta com Orunmilá, descobrimos que Xangô apontava um caminho para as nossas pesquisas e que estava feliz em ter esta exposição dedicada a ele, a todos os orixás e ao povo negro. Xangô é o orixá do fogo, da vida, e não está onde a morte está. Sua presença tão forte indicava, também, que esta exposição recorda a morte de todos os escravos violentados e executados no Brasil, mas que ela é plena do fogo e da vida necessários às atuais lutas do povo negro em nosso país.



Em uma das noites em que estivemos na fazenda, encontramos um desconhecido dormindo escondido dentro de uma construção afastada. Todos estavam bastante assustados quando, com calma, o abordei. Seu discurso nos fez entender que ele sofria de algum tipo de confusão mental, e, segundo o homem, ele havia chegado à fazenda no mesmo dia que nosso grupo. E tinha andado do Rio de Janeiro até ali.
Os escravos que construíram o paiol, comprados no Rio de Janeiro pela Fazenda Bom Retiro, fizeram o mesmo caminho: 190 quilômetros a pé – acorrentados.




Constantemente, a complexa teia de relações que formam a sociedade transforma – reconstruindo e reinterpretando – a memória coletiva de nossas experiências históricas. É nessa transformação que se baseia a nossa democracia. Posicionar esse paiol à frente dos olhos da sociedade, desvelando a lembrança da escravidão no Brasil, comunga da vontade de ação direta na memória coletiva e, portanto, no redesenho de nossa democracia.


 Da mesma forma, a Sala de trabalho, proposta de composição instalativa a partir de mais de uma centena de ferramentas cujos cabos foram esculpidos na forma de ossos e articulações, pode iluminar características cruéis da divisão social do trabalho que conhecemos, mas recalcamos.
Todos os objetos técnicos, em todos os domínios da atividade humana, existem como resposta a necessidades materiais fundamentais do homem. As ferramentas que formam a Sala de trabalho já marcaram a paisagem sendo utilizadas, em geral, com a intenção de aumentar a produção de alimentos. O uso no tempo retirou-lhes suas utilidades, e Afonso, ao esculpir ossos de seus cabos, dá-lhes uma nova vida: mudando sua forma de relação com o meio e com a sociedade, ganham, agora, valor de símbolo. Sendo cultura o conjunto de instrumentos dispostos à mediação simbólica que possibilita abordagens do real, esses objetos nos permitem, ao percebê-los como extensões e ampliações das funções do corpo, encontrar críticas aos contratos sociais que direcionam esses movimentos.
A hipertelia, excesso de especialização e intencionalidade nos objetos técnicos concretos, perceptível na variação da forma das partes metálicas dessas ferramentas, é, portanto, sinal de contratos sociais hipertélicos pleno em vontade de manutenção de laços de exploração.




A escultura Tronco, que dá nome a esta mostra, utiliza duas peças de madeira esculpidas como num esforço para erguer do chão o fragmento de um grande caule. Este nome faz referência aos instrumentos de tortura e humilhação muito comuns no Brasil até o século XIX. Apresenta-se, com este trabalho, a tensão entre o desejo de que “tronco” fosse apenas sinônimo de “caule” (o que recalcaria a memória da escravidão) e o desejo de reavivar a memória do sofrimento do povo negro no Brasil. Se, por algum tempo, o trabalho de Tostes jogou exclusivamente com tensões, equilíbrios e desequilíbrios entre peças de madeira, desta vez, as tensões fundamentais a esta mostra são também sociais, históricas e culturais.

A instalação Articulação, por sua vez, é o desenho do desejo de anunciar uma vitória. Sendo composta por oito telas e uma pintura sobre parede, baseia-se na Oréstia, trilogia trágica de Ésquilo, que, em um importante trecho, narra a chegada a Atenas da mensagem da vitória em Troia. Nove fogueiras foram acesas – uma a uma – nos topos de ilhas e montes, repassando a mensagem de que a batalha fora encerrada com glória. Mesmo que sejamos capazes de reconhecer que existem recentes vitórias para a população negra brasileira, o legado escravocrata ainda é forte demais, e esta exposição deseja poder anunciar mais.
Como já foi dito, Ajerê é o nome da dança ritual em que quem está manifestando Xangô caminha com uma gamela contendo algodão em chamas sobre a cabeça. Chegará o dia em que, de ajerê em ajerê, levaremos à África a mensagem da vitória do povo negro no Brasil.




Na abertura da exposição, convidamos o coletivo Treme-Terra, composto por Aderbal Ashogum e mais uma dezena de percursionistas, para celebrarmos de acordo com a tradição africana. Como uma surpresa, o grupo chegou à Casa França-Brasil acompanhado por quatro bailarinas especializadas em dança africana e pela Mãe Beata de Iemanjá, uma das maiores personalidades do Candomblé no Brasil, Yalorixá líder do terreiro Ilê Omi Oju Aro.
A primeira música foi tocada para os eguns (mortos) ligados ao paiol. A terceira música foi dedicada a Oxum. Enquanto muitos choravam, quase todos os presentes moviam o corpo ritmadamente para essa linda orixá que adora quando dançam para ela.
Há 250 anos, africanos escravizados construíam um paiol no interior de Minas Gerais, que durante mais de um século assistiu aos seus trabalhos forçados e à proibição da prática de suas culturas. Gerações violentadas e dois séculos depois, o paiol foi desmontado. Durante meses, trabalhamos juntos para erguer essa construção dentro da Casa França-Brasil. Nessa noite de abertura, o paiol – novamente de pé – assistiu a negros brasileiros livres dançarem, cantarem e afirmarem que existem, sim, algumas vitórias, mas que a luta do povo negro está ainda longe de seu fim.
É política e magicamente irreversível: nossa exposição montada, o público presente, o coletivo Treme-Terra tocando seus atabaques e a octogenária Yalorixá Mãe Beata de Iemanjá dançando descalça no chão da Casa França-Brasil, apontando seus dedos cheios de anéis para o paiol.


As exposições individuais de Afonso Tostes, como seus trabalhos, nunca se limitaram à mera experimentação formal; porém, nesta mostra, o artista alcança o encontro pleno entre suas pesquisas de materiais e técnicas e seus interesses críticos e conceituais. A grande força de Tronco vem do reconhecimento de que o trabalho que apresentamos é fruto de uma demanda social estritamente ética.







[1] Nas entrevistas com descendentes de escravos em busca de registros de história oral, era frequente ouvir a expressão “naquela épa” significando “naquela época”.

sábado, 3 de agosto de 2013

Arte para além do mercado de arte.

A matéria “Arte com ou sem galeria?”, publicada na capa do Segundo Caderno no dia 16 de julho de 2013, me estimulou a escrever uma continuação ao texto que aprofundasse a discussão de uma maneira mais fértil. Devo dizer: é preciso desconfiar de quem atribui caráter exclusivamente negativo ao mercado e suas instituições: esse, como qualquer discurso maniqueísta, indica fragilidade crítica.
Cada artista deve descobrir as próprias formas de relação com os outros agentes do sistema da arte contemporânea e elaborar a estratégia que melhor favoreça a sua produção. É possível (e devemos) construir e ampliar formas de circulação e viabilização da produção que sejam independentes das galerias. Para os poucos que tem esse tipo de vínculo, a relação entre artista e galerista não é uma imposição vertical: é um contrato construído por pelo menos duas partes. Acredito que é preciso que o artista entenda que é o grande produtor desse sistema, perceba o poder que tem por isso e imponha mais suas condições a essas relações.
É claro que é fundamental que os artistas, principalmente os mais novos e ainda inseguros em relação à própria produção, sejam cautelosos nas relações com o mercado. É preciso ter mais ouvidos para as necessidades fundamentais do trabalho do que para os desejos do comércio. Muitas vezes, meninos recém-saídos da universidade seguem instruções de maus galeristas para fazerem trabalhos maiores, com outros processos, com outros motivos ou em outros materiais sem perceber se essas modificações elevam a qualidade do trabalho ou apenas aumentam seu potencial de venda.
É preciso, também, evitar a ansiedade pelo mercado. Nessa semana que passou, circulou no facebook o anúncio de um curso em São Paulo que custava 1500 reais para ensinar os artistas a se inserirem no mercado. Oferecia até dicas para arrumação de ateliê.
Durante décadas, reclamamos que não havia mercado de arte no Rio de Janeiro. Hoje, reclamamos que há um mercado forte demais. É preciso mais do que espernear: temos de construir conhecimento e fazer proposições. Em geral, de fato existe limitação para o trabalho dos artistas nas galerias. Mas já existem instituições desse tipo que são menos viciadas nos moldes tradicionais de “comércio de arte”. Existem boas galerias que se constroem como parceiros dos seus representados, fazendo as exposições comerciais em suas salas, gerando circulação para a obra do artista nas feiras, apresentando o trabalho a críticos e curadores, ajudando os artistas a publicarem livros, agenciando exposições em instituições e auxiliando a se inscreverem em residências, prêmios e editais. Existem galeristas antigos que não se atualizaram, mas existem aqueles novos querendo crescer junto de sua geração de artistas. É preciso se questionar se de fato é interessante estar vinculado a alguma galeria e ponderar muito para saber a quem se associar. E se faz fundamental, nessas relações, saber exigir mais e de forma mais clara, direta e objetiva.
Até mesmo as feiras de arte (cheias de “estandes” de galerias) que, tradicionalmente, eram a ponta mais infértil, violenta e ostensiva do mercado, hoje em dia, têm importantes projetos experimentais e educativos. Cada vez mais, se tornam importantes espaços de pesquisa.
É evidente que nós, curadores, devemos estar com as pesquisas voltadas para além das galerias, mas é de um romantismo injustificável afirmar que os artistas “sem galerias” são necessariamente melhores ou mais genuínos do que aqueles inseridos no mercado. Para nós, é fundamental estar atento, também, às escolas de arte, às mostras coletivas, aos portfólios que recebemos, aos prêmios, aos salões, às universidades, às residências, à internet e aos espaços alternativos.
Tenho pesquisado, há algum tempo, experiências no Rio de Janeiro para ativações de espaços expositivos não tradicionais. É bem verdade que, no começo dos anos 2000, tivemos os incríveis Orlândias, mas seria injustiça reduzir todas as experiências aos eventos organizados basicamente por Márcia X e Ricardo Ventura. Desde então, tivemos as experiências do Grupo Py, os eventos do Grupo UM, Associados, Agora, Capacete, Atrocidades Maravilhosas, o Projeto Apartamento, Inhame, Barracão Maravilha, Norte Comum e o Hotel da Loucura, além de muitos outros. É preciso estar atento. Eu mesmo fiz minha primeira curadoria na minha casa (Liberdade é Pouco. O que desejo ainda não tem nome.). Já construí até mesmo projetos em parceria com galerias que não tiveram nenhuma interferência institucional visando diretamente o mercado (como o festival de performances “Vênus Terra I pela lei natural dos encontros”, que contava com performers de 10 estados brasileiros no galpão da galeria TAC, na Lapa).
É preciso ir além dos discursos caducos que atribuem valores exclusivamente positivos ou negativos ao mercado e suas instituições. Mostra-se fundamental descobrir maneiras de como se aproveitar dessas estruturas, pervertê-las, reformá-las e de tirar o melhor dessas relações. E é preciso descobrir formas de criar novas rotas paralelas mais adequadas para aqueles que precisam delas. É preciso, ainda, construir conhecimento de uma forma mais fértil sobre as relações entre arte e mercado – para além do mercado.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Crítica: Ícaro Lira: Náufrago


(ao meu amor)


Haverá sempre a metáfora da constelação. Quando olhamos para o céu e reconhecemos, no manto da noite, um conjunto de estrelas nomeado por sua forma, construímos sentido único pra astros de tempos e lugares muito diferentes. Uma é menor, mais nova e mais próxima. A outra é maior, mais antiga e mais distante. Uma outra, de repente, nem está mais lá: já não existe há muitos anos, e ainda vemos sua luz. Juntando os pontos luminosos no plano do desenho, damos a elas sentido único. O artista é esse, portanto: o organizador das multiplicidades que busca e organiza, por suas razões, elementos no tempo e espaço. Seu grande talento é a capacidade de navegar e traduzir os interesses.

Ícaro Lira apresenta, aqui, o resultado do projeto “Náufrago”, realizado durante residência no litoral sul do Rio Grande do Sul como parte do projeto VETOR, ligado ao Atelier Subterrânea. Porém, o que presenciamos aqui é mais do que a mostra de objetos coletados, filmes-diários, cadernos-livros, instalações e fotografias.  As pinturas medievais ou renascentistas, representando cidades em perspectiva, inventaram um olho que não existia antes. Era a visão do homem-deus que, antes, só Ícaro (o ser mitológico) alcançara. Com a queda de Ícaro, a morte de Deus e a falência do Homem, é, novamente, pisando o chão que nos lançamos na busca por verdade. O que presenciamos aqui é Ícaro (Lira) nos propondo uma forma de olhar, nos apresentando uma maneira especifica de investigar e nos envolvendo no questionamento sobre a relação entre homem e terra.

Percebemos a tensão entre o que é interno e externo. Em presença, o fotografado é vivo para o fotógrafo. Na fotografia, o fotógrafo, presumido por trás da câmera, é vivo para o público. É nesse encontro entre os dois e nas causas do interesse de registrar, transportar e exibir que surge o afeto do trabalho. Fora e dentro como domínio e destino - e vice-versa.

Ícaro diz que gostaria de ficar sozinho, que tem vontade de silêncio, que carrega livro sobre os campos de concentração no Ceará, que deseja entender os movimentos migratórios, que migra pra descolar, que deseja estar na fronteira, que tem dificuldade de comunicação, que não entende minhas perguntas. Edição, montagem, colagem, exposição. “Corre um menino/por entre os séculos.//Corre um menino/solto, sozinho,/na madrugada/de um país claro.// Assim te vejo/até agora/ náufrago límpido/e solitário.”*. Perceba o encontro entre as palavras e as imagens.  ”Pequenas conchas/estão nascendo/para escutarem/tua paisagem.”*. Entre o “vamos juntos” e o “preferia não”.

Há algo da prática de um cronista no posicionamento de Ícaro. A organização das propostas por assuntos, a composição livre e o tom de coisa sem necessidade, associados à prática diária, a um processo humanizado e à pertinência, tomam profundidade negando a monumentalidade e a espetacularização. A leveza e a simplicidade formais indicam a superficialidade dada às coisas explanadas e oferece, com aparência de banal, a seriedade de uma proposta de experiência e reflexão. Somos afetados sem floreios grandiloquentes. A ação, que, por vezes, tem tom de pretensa gratuidade, dá, ao publico, a sensação da necessidade de ação: seja para entender a gênese do que se apresenta, seja pra resolver a equação que se recebe. Utilizando processos simples de anotação, registro e deslocamento, o artista provoca uma tensão plena em ambiguidade, poesia e estranhamento para assinalar intensamente sua função muito além da informativa. O processo criativo do trabalho se confunde com o viver do artista-cronista. Selecionando, deslocando e arranjando pedaços do que é vida, o resultado se assemelha e se afasta do mundo.

Essas insólitas substituições são gestos de genealogia antiartística que cria mistério sobre algo apresentado não pela aura singular gerada pelo gesto à mão em sua construção, mas sim pela presença do objeto (es)colhido no dado contexto. Quando nos deparamos com alguns dos objetos e registros de “Desterro”, questionamos seus motivos e, nesse percurso da dúvida, encontramos o compromisso ético e a função política da arte. Percebemos-nos ainda a vivenciar nossa destruição com prazer estético. Percebemos a necessidade de, como público, agir criativamente.

Os objetos criados se instalam na superfície da terra, sempre, para atender a necessidades primárias dos homens: comer, residir, se deslocar, ter consigo objetos úteis. Todo tipo de estrutura ou instrumento é, em si, resultado de muitas camadas: das histórias geológica, social e pessoal. As paisagens habitadas pelo homem trazem as marcas de suas técnicas e nos fazem perguntas. Os lugares são tempos empilhados, enigmas que esperam perguntas mais do que respostas.  Ícaro, com seus processos de viagem-coleta-deslocamento-arranjo-exposição, responde com perguntas, instaurando um tipo de corporeidade, um estado do corpo, que nasce de uma temporalidade própria que vai contra a espetacularização e a naturalização. As pessoas são os lugares onde estão. Às vezes, carregam consigo os lugares de onde vieram, às vezes se transformam nos lugares em que chegam, às vezes os dois. Nos rastros dessa investigação sobre a relação entre o homem e a terra, alteramos valores, exercitamos um novo olhar, conhecemos um novo corpo, nos encontramos como motores necessários e percebemos que, na procura do que procuramos, encontramos movimento.

*Cecília Meireles

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Crítica: Felipe Meres: Encontro de emergência: Sujeito aos atos de escape



(ao meu amor)


“Encontro de emergência: Sujeito aos atos de escape” é uma investida contra a impossibilidade. Felipe Meres apresenta trabalhos que cercam e penetram questões cruciais para uma pesquisa sobre identidade e relações afetivas. Esse é um tratado sobre vida, inquietação e imagem escrito na linha do eixo um-outro.

Em certos momentos do passado, alguns estudiosos das questões de gênero e identidade, procuraram lidar com as diferenças encaminhando-as a nichos universalizantes; em outros tempos, insistiu-se na particularidade; em outros tempos ainda, mais recentes, a afirmação da diversidade fez com que o espectro do sujeito parecesse por vezes mais reduzido e pálido e por vezes mais extenso e colorido. Porém, agora, se mostra necessário lidar com a viva mutação das cores. Teremos de ser capazes de compreender cada vez mais as diferenças mais sutis e a instabilidade, o hibridismo e a impossibilidade de categorização fixa das identidades.

Se entendemos que não é possível separar a humanidade em unidades identitárias emolduradas de maneira a representar satisfatoriamente todas as minorias, se mostra cada vez mais difícil e pertinente descobrir como lidar com os enigmas de um julgamento cujos processos e parâmetros são instáveis e, por isso, incapturáveis.

Uma das características formadoras mais importantes de uma sociedades como a nossa é a coexistência de diferentes visões e modos de habitar o mundo. Não apenas no mesmo espaço, mas no mesmo corpo. O corpo é o ponto de interseção de vários mundos. A interação de corpos é a negociação da realidade simultânea em várias camadas. Assim, reconhecemos a diferença como construtora do social – não apenas pelo conflito (como se pensou um dia), mas também pela troca, pelo acordo, pelo afeto, pelo amor. A negociação da realidade se dá, agora, numa rede multiplicadora de significados mutantes e, por isso, é geradora incessante de possibilidades. Se o amor é o que acende o porvir e é o que faz do tempo a criação, não deveria ser associado à impossibilidade ou ser usado para ligar eternidade e invariabilidade.

Para um estudo sobre sujeito e identidade, se faz preciso percorrer atentamente todos os circuitos das experiências do um. Na formação (que é mais como uma constante reforma do que uma formação com fim) das identidades, tudo é circuito, rodeio, curva, nuvem, movimento, discurso, ritmo, tempo, contra-tempo, contratempo, ponto, contraponto, desponto, inversão, reversão, diversão, versão, verso, tudo é refrão.

Todo um negocia a realidade com seu repertorio finito de experiências, porém em constante atualização. Atualizam-se os objetos de identificação, se atualizam os processos de identificação e se atualizam, também, as forças contrárias à natural possibilidade de transformação da identidade. (Utiliza-se “natural” aqui, mostrando que é possível, com palavras, dizer o oposto delas mesmas.)

Dessa forma, todas as noções de normalidade e desvio têm caráter instável e dinâmico e todos os limites entre norma e transgressão são colocados, constantemente, em xeque. Em um momento social como nosso, em que se tornam politicamente imponentes, no Brasil e no mundo, forças retrogradas (em Felicianos, bancadas evangélicas, passeatas contra o casamento entre homossexuais etc.), lançar o olhar atento sobre questões de identidade, transformação e amor se faz necessário.

É no encontro, quando dois ou mais conjuntos de diferenças mutantes são justapostos, que a riqueza do possível se faz evidente. É então quando podemos compreender o que nos é estranho, abraçar o que não podemos apreender: sem limitar as possibilidades de existência do outro ou nossas.

Mesmo problematizando a categorização do sujeito, Felipe reconhece a fatalidade da imposição limitante da linguagem. Ele poderia, por exemplo, ter desenhado placas de emergência, mas preferiu buscar as já existentes. A linguagem, conjunto do que já existe, é o ponto de partida para o escape. Essa exposição aponta as possibilidades (de escape e de encontro), mas não aponta o caminho para as mesmas.

Com essa mostra, Felipe aprofunda suas pesquisas sobre gênero e sexualidade, questionando a própria noção de "sujeito" como originária de uma prática discursiva reguladora. Refletindo sobre processos de construção, desabamento e reforma de identidades, aponta para a possibilidade de  novas categorizações.Felipe Meres faz, como eu, parte de uma geração gay (dita) pós-aids. Antes, num contexto onde a omissão oficial sobre as mortes por HIV configurava genocídio, houve grande e importante luta pela construção da identidade gay: para criar uma classe, ser visto, reconhecido, representado e tornado cidadão. Hoje, parece haver um movimento para não ser categorizado apenas como gay, e a busca por representação não visa apenas atingir um estado de igualdade. Hoje, somos 1, A, 12, M, (gama), 13,  N, nada, qualquer coisa e Feliciano não no representa.

A exposição convoca um encontro de emergência, um lugar no qual, em crise, nos reunimos para pensar e debater como agir. Mas reunimos todos, e não há instruções. Esse encontro de emergência é o lugar de onde algo pode emergir, surgir. Na linha do eixo um-outro, procuramos, lemos, escrevemos, retratamos, imaginamos e tentamos construir os caminhos do possível.