terça-feira, 18 de março de 2014

Crítica: Alexandre Mazza: entre o fenômeno e o monumento: das manifestações da memória universal.

(ao meu amor)
Entre o fenômeno e o monumento: Das manifestações da memória universal” é uma proposta de experiência delirante. Alexandre Mazza vem se empenhando em decifrar o que podem os nossos olhos no encontro com o que podem as coisas – e, nessa exposição, nos entrega ao domínio de um universo que nos captura não apenas pelo que vemos, mas por nossa incapacidade de evitar a imaginação. Esse é o resultado da atual pesquisa do artista que trata de investigar como a aplicação de diferentes técnicas poderia gerar canais para manifestações de uma memória universal presente nos homens e nos materiais.
Um mesmo procedimento é utilizado em grande parte dos trabalhos dessa mostra: ao situar e iluminar um objeto entre duas superfícies refletoras, o artista nos provoca a impressão de estar de frente a um buraco infinito no qual podemos ver uma série de objetos idênticos e alinhados, que se tornam mais visíveis ao se aproximar da extremidade mais iluminada, ou menos visíveis, ao se afastar em direção à escuridão.
Em uma das séries que utilizam esse procedimento, os objetos entre espelhos são esferas de pedras de ágata de diferentes volumes reunidas em grupos de quatro. As listras naturais da superfície desse tipo de mineral e o efeito das pedras flutuando eternamente num vazio nos transmitem a sensação de estar de frente para estruturas planetárias. No delírio proposto, não sabemos se somos gigantes diante de janelas para o universo ou se vemos pequenos planetas surgirem misteriosamente diante de nossos olhos.
A escolha por ágatas se deu não apenas por seus formatos, mas, também, por esse tipo de pedra ter forte relação com a história da magia na antiga Pérsia e do misticismo na Europa. Uma variação desses trabalhos teve inspiração na forma da constelação de Plêiades, associando 8 esferas de ágata de mesmo tamanho com uma pequena pentagonita, tipo de rocha descoberta há menos de cinquenta anos e que teria o poder de aumentar nossas capacidades de criação. A presença dessa pedra é importante não apenas por simbolizar a intenção de Mazza de que o espectador seja um criador de imagens durante a experiência com seu trabalho. Esse é um sinal, também, de uma das características mais importantes de sua produção: a vontade de gerar encantamento pelo mistério.
Em outro grupo de trabalhos dessa mostra, o que vemos se repetir na cadência entre o iluminado e a escuridão são estruturas com tetos e paredes feitas de vidro colorido e com discretos desenhos sobre a superfície referente ao chão. No delírio proposto, estamos entrando em templos que se assemelham a catedrais, mas que não apresentam retábulos. Daqui até a escuridão, vemos pequenos grupos de bancos de igreja que possuem até mesmo espaço para se ajoelhar, mas que não estão voltados para altares, mas sim para outros bancos. De alguma forma, tem-se a sensação de que quem ocuparia esses lugares não o faria para rezar a Deus, mas sim para encontrar outras pessoas.
Diferente da série anterior, em que as esferas de ágata ocupavam o centro das obras, nesse grupo de trabalhos a escuridão e o vazio ocupam a parte central do nosso campo de visão. Entre os vitrais iluminados, mergulhamos os olhos profundamente nesse escuro e nos descobrimos imersos em nós mesmos. Somos nós que encaramos, como no cinema, cada escuro e cada silêncio como experiência especular. Preenchemos o escuro de imaginário, confundindo real e irreal. De repente, percebemos que temos o rosto de fato refletido na superfície do trabalho, mas optamos por deixar o olhar atravessar nosso rosto de sempre e fincamos os olhos no escuro profundo. Preenchemos o escuro com mais escuro, deixando o imaginário enfeitiçar a imagem ou sua ausência.
No centro de uma sala cúbica, vemos pulsar iluminada uma esfera de 50 centímetros de diâmetro e com mais de 50 quilos cujo material heterogêneo, resina de vidro, varia entre o translúcido sem cor e o opaco vermelho, formando uma espécie de nuvem de carne. Sobre a peça, uma projeção luminosa tem o mesmo ritmo do som da sala. No escuro do ambiente, vemos essa forma flutuar mais uma vez como um planeta. Porém, as cores e o som nos remetem à circulação sanguínea. No delírio proposto, não sabemos se estamos diante de um astro em coordenação galáctica ou de uma célula em interação capilar. Mazza nos oferece abraçar, fisicamente, o universo presente como origem e potência dentro de cada uma de suas partes.
Como se prestasse um tributo à eletricidade necessária para o funcionamento de todos os seus trabalhos, Mazza projeta sobre o corpo de uma antiga válvula de transmissão de rádio um vídeo que mostra a queda d’água de uma cachoeira. Mais uma vez interessado nas maneiras pelas quais pode ser um canal para manifestação das vozes ou desejos do universo, Alexandre dá forma ao que imagina ser a memória da eletricidade.
Um dia, Mazza ficou por mais de uma hora de frente para um lugar de passagem de pedestres no Centro da cidade do Rio de Janeiro e teve a forte percepção de que todas aquelas pessoas, independentemente de quem fossem, tinham a mesma expressão no olhar: uma espécie de amortecimento ou anestesia. Um dos grandes interesses da obra de Alexandre é, exatamente, a construção de experiências cativantes, que cativam o espectador, que o colocam em cativeiro, que sequestram seu olhar e pedem, em troca de sua liberdade, o resultado de sua capacidade de imaginar. O trabalho “Todos em uma” aponta exatamente para o aprisionamento do homem atrás das grades do olhar amortecido cotidiano e é composto por uma animação que mostra o caminhar constante de silhuetas negras por trás de uma placa de acrílico de mesma cor, recortada com diferentes perfis de pessoas em diversas situações. De alguma forma, essas sombras funcionam como nossos duplos e apresentam, mais uma vez, vontade especular.
Um dos grandes interesses de Alexandre é a fé na imagem, a coragem de acreditar no que vemos, mas que está além da própria capacidade fisiológica de enxergar. A grande matéria da produção de Mazza, portanto, é o exercício do olhar como um dos pensamentos do corpo, e sua pesquisa alcança, também, investigações sobre o encontro dos olhares. No trabalho “Encontros”, duas cadeiras de acrílico estão dentro de uma casa do mesmo material transparente cuja superfície relativa ao chão é um monitor no qual vemos um vídeo em time lapse de nuvens passando brancas no céu azul. Exatamente abaixo das cadeiras, vemos dois recortes quadrados nos quais outro vídeo é exibido com ondas se desfazendo na areia. O movimento sincronizado dessas imagens e a posição das cadeiras, uma de frente para a outra, nos causam a impressão de que quem as ocupa vive um encontro especial de reverberação e troca. No delírio proposto, preenchemos os lugares e assistimos fragmentos abstratos de nossos desejos e memórias dialogarem no tempo.
Outro grupo de trabalhos dessa exposição utiliza ainda a mesma técnica explorada nas obras com as esferas de ágata e com as catedrais. Maquetes de alto grau de detalhamento são postas entre espelhos e se repetem em perspectiva até o desaparecimento no escuro. Numa delas, estamos em um beco de paredes de tijolos sem portas nem janelas: sem saídas. Em outra, estamos numa galeria com vitrines e iluminação urbana. Numa terceira, a mesma fachada de um prédio se repete à exaustão. Numa outra ainda, somos abraçados por uma curiosa floresta. No centro de cada um desses trabalhos, duas cadeiras; exatamente como na obra “Encontro”, elas se encaram. No delírio proposto, estamos imersos em tempos e espaços desconhecidos em que temos a impressão de estar no lugar onde o universo se examina atenciosamente. Mais uma vez, nosso olhar busca a escuridão central do trabalho e encontra nosso reflexo. Nas pequenas cadeiras de acrílico, nossos fragmentos em duplos nossos.
Parte das pesquisas mais iniciais para essa exposição derivava de investigações sobre lembrança e esquecimento. Para dar forma a esses processos, Mazza se utilizou da imagem de uma casa que surge e desaparece. Assim, o artista construiu uma grande casa na árvore em frente à Galeria Luciana Caravello feita inteiramente de lâmpadas. Outras três peças menores construídas com néon em galhos de jabuticabeira estão dentro do espaço expositivo. A justaposição de materiais tão diferentes como a madeira e a lâmpada coloca as casas em efeito de constante descolamento e suspensão. A casa de néon, da qual só vemos os contornos, é, ao mesmo tempo, sua presença e a afirmação do vazio de sua ausência.
O último trabalho que compõe essa mostra é ainda outra instalação formada por uma grande casa de paredes e teto transparentes que, de tempos em tempos, é preenchida por fumaça branca. A nuvem que impede que vejamos o interior da peça também afirma os contornos de sua forma.
Para produzir “Entre o fenômeno e o monumento: Das manifestações da memória universal”, Mazza venceu as limitações do Rio de Janeiro. Explorou diversos materiais e técnicas, tendo o preciosismo como regra e reunindo diversas equipes de especialistas. As catedrais foram feitas por um hialotécnico que utiliza o mesmo procedimento de sopro e coloração de vidro usado nas construções e restaurações das catedrais góticas europeias. A esfera de resina de vidro de 50 quilos foi feita sob encomenda na China. As maquetes de arquitetura foram produzidas por um maquetista-artesão capaz de transformar qualquer fotografia em maquete mesmo sem arquivo de projeto tridimensional. Os galhos das jabuticabeiras foram quimicamente tratados, e suas bases desenvolvidas pela equipe de marcenaria de um grande designer de móveis brasileiro. Mazza ainda se relacionou com especialistas em rochas e gemas, máquinas de fumaça, iluminação, animação gráfica etc. Sua grande capacidade de construir e gerenciar grupos de virtuosos talvez seja herança de seu passado como músico em bandas de rock.

Alexandre Mazza tem um percurso muito incomum no circuito da arte contemporânea. A inserção de sua obra no mercado aconteceu violentamente antes mesmo que o artista tivesse consciência dos interesses próprios de sua pesquisa. Essa exposição é um momento pleno em fertilidade e crescimento. As ambições de Mazza em direção ao impossível são cada vez maiores, e isso é perceptível nessa mostra que marca a afirmação do amadurecimento e da pertinência de sua produção. Atento aos fenômenos do urbano, ele quer ser capaz de administrar as formas como o mundo marca os corpos; quer fornecer potente vocabulário para gerar práticas cada vez mais encantatórias. No jogo lúdico da imaginação proposto por seus trabalhos, muitas vezes somos seduzidos por algo que reconhecemos, mas não sabemos o que é. Sua obra, com representações de intensidade dramática, atiça projeções imaginativas e nos faz perceber nossas formas de preencher os vazios. Manejando práticas que tangem o ilusionismo, Mazza quer ser o detentor dos segredos e faz, com essa exposição, o mais místico dos elogios à matéria e dos elogios ao mistério mais interessados no poder dos materiais.

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