(ao meu amor)
“Entre o
fenômeno e o monumento: Das manifestações da memória universal” é uma
proposta de experiência delirante. Alexandre Mazza vem se empenhando em
decifrar o que podem os nossos olhos no encontro com o que podem as coisas – e,
nessa exposição, nos entrega ao domínio de um universo que nos captura não
apenas pelo que vemos, mas por nossa incapacidade de evitar a imaginação. Esse
é o resultado da atual pesquisa do artista que trata de investigar como a
aplicação de diferentes técnicas poderia gerar canais para manifestações de uma
memória universal presente nos homens e nos materiais.
Um mesmo procedimento é utilizado em grande parte dos
trabalhos dessa mostra: ao situar e iluminar um objeto entre duas superfícies
refletoras, o artista nos provoca a impressão de estar de frente a um buraco
infinito no qual podemos ver uma série de objetos idênticos e alinhados, que se
tornam mais visíveis ao se aproximar da extremidade mais iluminada, ou menos
visíveis, ao se afastar em direção à escuridão.
Em uma das séries que utilizam esse procedimento, os
objetos entre espelhos são esferas de pedras de ágata de diferentes volumes
reunidas em grupos de quatro. As listras naturais da superfície desse tipo de mineral
e o efeito das pedras flutuando eternamente num vazio nos transmitem a sensação
de estar de frente para estruturas planetárias. No delírio proposto, não
sabemos se somos gigantes diante de janelas para o universo ou se vemos
pequenos planetas surgirem misteriosamente diante de nossos olhos.
A escolha por ágatas se deu não apenas por seus
formatos, mas, também, por esse tipo de pedra ter forte relação com a história
da magia na antiga Pérsia e do misticismo na Europa. Uma variação desses
trabalhos teve inspiração na forma da constelação de Plêiades, associando 8 esferas
de ágata de mesmo tamanho com uma pequena pentagonita, tipo de rocha descoberta
há menos de cinquenta anos e que teria o poder de aumentar nossas capacidades
de criação. A presença dessa pedra é importante não apenas por simbolizar a
intenção de Mazza de que o espectador seja um criador de imagens durante a
experiência com seu trabalho. Esse é um sinal, também, de uma das
características mais importantes de sua produção: a vontade de gerar
encantamento pelo mistério.
Em outro grupo de trabalhos dessa mostra, o que vemos
se repetir na cadência entre o iluminado e a escuridão são estruturas com tetos
e paredes feitas de vidro colorido e com discretos desenhos sobre a superfície
referente ao chão. No delírio proposto, estamos entrando em templos que se
assemelham a catedrais, mas que não apresentam retábulos. Daqui até a
escuridão, vemos pequenos grupos de bancos de igreja que possuem até mesmo
espaço para se ajoelhar, mas que não estão voltados para altares, mas sim para
outros bancos. De alguma forma, tem-se a sensação de que quem ocuparia esses
lugares não o faria para rezar a Deus, mas sim para encontrar outras pessoas.
Diferente da série anterior, em que as esferas de
ágata ocupavam o centro das obras, nesse grupo de trabalhos a escuridão e o
vazio ocupam a parte central do nosso campo de visão. Entre os vitrais
iluminados, mergulhamos os olhos profundamente nesse escuro e nos descobrimos
imersos em nós mesmos. Somos nós que encaramos, como no cinema, cada escuro e
cada silêncio como experiência especular. Preenchemos o escuro de imaginário, confundindo
real e irreal. De repente, percebemos que temos o rosto de fato refletido na
superfície do trabalho, mas optamos por deixar o olhar atravessar nosso rosto
de sempre e fincamos os olhos no escuro profundo. Preenchemos o escuro com mais
escuro, deixando o imaginário enfeitiçar a imagem ou sua ausência.
No centro de uma sala cúbica, vemos pulsar iluminada
uma esfera de 50 centímetros de diâmetro e com mais de 50 quilos cujo material
heterogêneo, resina de vidro, varia entre o translúcido sem cor e o opaco
vermelho, formando uma espécie de nuvem de carne. Sobre a peça, uma projeção
luminosa tem o mesmo ritmo do som da sala. No escuro do ambiente, vemos essa
forma flutuar mais uma vez como um planeta. Porém, as cores e o som nos remetem
à circulação sanguínea. No delírio proposto, não sabemos se estamos diante de
um astro em coordenação galáctica ou de uma célula em interação capilar. Mazza
nos oferece abraçar, fisicamente, o universo presente como origem e potência
dentro de cada uma de suas partes.
Como se prestasse um tributo à eletricidade necessária
para o funcionamento de todos os seus trabalhos, Mazza projeta sobre o corpo de
uma antiga válvula de transmissão de rádio um vídeo que mostra a queda d’água de
uma cachoeira. Mais uma vez interessado nas maneiras pelas quais pode ser um
canal para manifestação das vozes ou desejos do universo, Alexandre dá forma ao
que imagina ser a memória da eletricidade.
Um dia, Mazza ficou por mais de uma hora de frente para
um lugar de passagem de pedestres no Centro da cidade do Rio de Janeiro e teve
a forte percepção de que todas aquelas pessoas, independentemente de quem
fossem, tinham a mesma expressão no olhar: uma espécie de amortecimento ou
anestesia. Um dos grandes interesses da obra de Alexandre é, exatamente, a
construção de experiências cativantes, que cativam o espectador, que o colocam
em cativeiro, que sequestram seu olhar e pedem, em troca de sua liberdade, o
resultado de sua capacidade de imaginar. O trabalho “Todos em uma” aponta
exatamente para o aprisionamento do homem atrás das grades do olhar amortecido
cotidiano e é composto por uma animação que mostra o caminhar constante de
silhuetas negras por trás de uma placa de acrílico de mesma cor, recortada com
diferentes perfis de pessoas em diversas situações. De alguma forma, essas
sombras funcionam como nossos duplos e apresentam, mais uma vez, vontade
especular.
Um dos grandes interesses de Alexandre é a fé na
imagem, a coragem de acreditar no que vemos, mas que está além da própria
capacidade fisiológica de enxergar. A grande matéria da produção de Mazza,
portanto, é o exercício do olhar como um dos pensamentos do corpo, e sua
pesquisa alcança, também, investigações sobre o encontro dos olhares. No
trabalho “Encontros”, duas cadeiras de acrílico estão dentro de uma casa do
mesmo material transparente cuja superfície relativa ao chão é um monitor no
qual vemos um vídeo em time lapse de
nuvens passando brancas no céu azul. Exatamente abaixo das cadeiras, vemos dois
recortes quadrados nos quais outro vídeo é exibido com ondas se desfazendo na
areia. O movimento sincronizado dessas imagens e a posição das cadeiras, uma de
frente para a outra, nos causam a impressão de que quem as ocupa vive um
encontro especial de reverberação e troca. No delírio proposto, preenchemos os
lugares e assistimos fragmentos abstratos de nossos desejos e memórias dialogarem
no tempo.
Outro grupo de trabalhos dessa exposição utiliza ainda
a mesma técnica explorada nas obras com as esferas de ágata e com as catedrais.
Maquetes de alto grau de detalhamento são postas entre espelhos e se repetem em
perspectiva até o desaparecimento no escuro. Numa delas, estamos em um beco de
paredes de tijolos sem portas nem janelas: sem saídas. Em outra, estamos numa
galeria com vitrines e iluminação urbana. Numa terceira, a mesma fachada de um
prédio se repete à exaustão. Numa outra ainda, somos abraçados por uma curiosa
floresta. No centro de cada um desses trabalhos, duas cadeiras; exatamente como
na obra “Encontro”, elas se encaram. No delírio proposto, estamos imersos em
tempos e espaços desconhecidos em que temos a impressão de estar no lugar onde
o universo se examina atenciosamente. Mais uma vez, nosso olhar busca a
escuridão central do trabalho e encontra nosso reflexo. Nas pequenas cadeiras
de acrílico, nossos fragmentos em duplos nossos.
Parte das pesquisas mais iniciais para essa exposição
derivava de investigações sobre lembrança e esquecimento. Para dar forma a
esses processos, Mazza se utilizou da imagem de uma casa que surge e
desaparece. Assim, o artista construiu uma grande casa na árvore em frente à Galeria
Luciana Caravello feita inteiramente de lâmpadas. Outras três peças menores
construídas com néon em galhos de jabuticabeira estão dentro do espaço
expositivo. A justaposição de materiais tão diferentes como a madeira e a
lâmpada coloca as casas em efeito de constante descolamento e suspensão. A casa
de néon, da qual só vemos os contornos, é, ao mesmo tempo, sua presença e a
afirmação do vazio de sua ausência.
O último trabalho que compõe essa mostra é ainda outra
instalação formada por uma grande casa de paredes e teto transparentes que, de
tempos em tempos, é preenchida por fumaça branca. A nuvem que impede que
vejamos o interior da peça também afirma os contornos de sua forma.
Para produzir “Entre o fenômeno e o monumento: Das manifestações da memória universal”,
Mazza venceu as limitações do Rio de Janeiro. Explorou diversos materiais e
técnicas, tendo o preciosismo como regra e reunindo diversas equipes de
especialistas. As catedrais foram feitas por um hialotécnico que utiliza o mesmo
procedimento de sopro e coloração de vidro usado nas construções e restaurações
das catedrais góticas europeias. A esfera de resina de vidro de 50 quilos foi
feita sob encomenda na China. As maquetes de arquitetura foram produzidas por
um maquetista-artesão capaz de transformar qualquer fotografia em maquete mesmo
sem arquivo de projeto tridimensional. Os galhos das jabuticabeiras foram
quimicamente tratados, e suas bases desenvolvidas pela equipe de marcenaria de
um grande designer de móveis brasileiro. Mazza ainda se relacionou com
especialistas em rochas e gemas, máquinas de fumaça, iluminação, animação
gráfica etc. Sua grande capacidade de construir e gerenciar grupos de virtuosos
talvez seja herança de seu passado como músico em bandas de rock.
Alexandre Mazza tem um percurso muito incomum no
circuito da arte contemporânea. A inserção de sua obra no mercado aconteceu
violentamente antes mesmo que o artista tivesse consciência dos interesses
próprios de sua pesquisa. Essa exposição é um momento pleno em fertilidade e
crescimento. As ambições de Mazza em direção ao impossível são cada vez
maiores, e isso é perceptível nessa mostra que marca a afirmação do amadurecimento
e da pertinência de sua produção. Atento aos fenômenos do urbano, ele quer ser
capaz de administrar as formas como o mundo marca os corpos; quer fornecer
potente vocabulário para gerar práticas cada vez mais encantatórias. No jogo
lúdico da imaginação proposto por seus trabalhos, muitas vezes somos seduzidos
por algo que reconhecemos, mas não sabemos o que é. Sua obra, com
representações de intensidade dramática, atiça projeções imaginativas e nos faz
perceber nossas formas de preencher os vazios. Manejando práticas que tangem o
ilusionismo, Mazza quer ser o detentor dos segredos e faz, com essa exposição,
o mais místico dos elogios à matéria e dos elogios ao mistério mais
interessados no poder dos materiais.
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