terça-feira, 18 de março de 2014

Crítica: Tronco (Afonso Tostes, Casa França Brasil, 2013.)

(ao meu amor)
(axé)
Eram mais de cem peças longas de madeira resistente ao tempo e à chuva. Havia décadas, estavam empilhadas no canto de uma fazenda próxima à cidade de Juiz de Fora e seriam compradas pelo dono de uma elegante pousada mineira que as utilizaria para construir as portas e janelas dos novos quartos que construía. As peças que restassem seriam fincadas sobre o solo em frente à entrada da pousada para que as pessoas e os carros pudessem passar sem danificar o gramado. Essas eram as colunas, os baldrames, as travas de segurança e as tábuas do assoalho de um paiol construído há 250 anos na Fazenda Bom Retiro, no atual distrito de Chapéu D’Uvas. Antes de concluir a venda, o dono das madeiras resolveu consultar um de seus primos sobre os detalhes do negócio. Afonso Tostes, o primo, então, comprou, sem ver, o conjunto completo das madeiras.
Tão logo se consolidou a oportunidade para construir esse trabalho, fomos a Minas Gerais ver o material com o qual trabalharíamos. Desembrulhamos as peças de madeira (que estavam envolvidas em grandes retalhos de lonas com propaganda política de eleições passadas) e, sob o sol, os troncos pulsaram impressionantemente. Pareciam respirar, e quase era possível ouvir o som preso, cativo, contido em suas ranhuras. O continente, ali silente, era negro. Percebendo a força contida nos veios da madeira, fomos, aos poucos, aproximando-nos cada vez mais do tronco, até percebermos que estávamos dentro da boca de Zumbi.
Entrevistando trabalhadores da fazenda e pesquisadores da história local, descobrimos que o paiol havia sido construído por escravos e que, por eles, foi, durante mais de um século, continuamente preenchido e esvaziado com toneladas de milho. Naquele épa,[1] grande parte dos africanos escravizados chegava ao Brasil no Cais do Valongo, a poucos metros de onde hoje é a Casa França-Brasil. Os que trabalhariam nos campos do interior do país, como em Minas Gerais, caminhavam acorrentados até seus destinos.
Os que não morreram no caminho morreram depois de serem violentamente explorados. Alguns conseguiram fugir e construir um quilombo que, no fim do século XVI, tornou-se a Colônia São Firmino, que, por sua vez, posteriormente, seria inundada pela construção de uma enorme represa para abastecimento de água da região de Juiz de Fora. Da antiga colônia, só restou a parte mais alta do cemitério: agora uma ilhota com lápides simples no centro do lago da represa.



Na fazenda, precisávamos usar o fogão à lenha e, para isso, eu, que nunca havia tocado em um machado, fui incumbido da função de rachar toras de madeira. Durante três horas, rasguei o ar sobre minha cabeça com o instrumento. Nós e aqueles que nos acompanhavam ficamos impressionados por eu não me cansar, não suar e demonstrar habilidade demais para quem experimentava a ferramenta pela primeira vez.
Ainda decididos a viver a Fazenda Bom Retiro, desejamos comer algo da fazenda e, como não havia frangos, matamos, depenamos e comemos juntos um grande galo branco.
Enquanto caminhávamos, um dos trabalhadores da fazenda se aproximou de nós e nos contou que havia uma onça nos arredores. Ele já tinha ouvido falar da presença desse animal na região, mas nunca na fazenda. O rastro dela circundava a casa onde dormíamos. Era possível ver, na terra marrom, a marca de suas patas.
Sentado à noite em um banco da varanda, questionei Afonso sobre a exposição que ele havia montado nas Cavalariças do Parque Lage no ano de 2002. Tostes, sem se ater aos demais detalhes da mostra, me contou que, na ocasião, colocara fogo em pinturas a óleo sobre algodão dentro de uma gamela de bronze.
No caminho de volta, por cinco minutos, dois grandes gaviões acompanharam nosso carro em cada curva e em cada reta a poucos metros da janela.
Curioso sobre a vida daqueles que construíram o paiol e sobre como isso poderia vir a se relacionar com nossa exposição, compus uma lista de assuntos e questões caras ao povo negro no Brasil a serem pesquisados: desde escravidão, tortura e tráfico negreiro até candomblé, samba e capoeira; desde estudos recentes sobre a vida dos escravos no Brasil no século XIX até as formas de construção histórica dos discursos da mestiçagem; desde o novo Estatuto da Igualdade Racial até as recentes políticas de ação afirmativa. Decidi iniciar as pesquisas com o tópico “Candomblé”.
Logo descobri que o Brasil é considerado por muitos como a nova nação de Xangô pelo fato de os primeiros axés chegados em nosso país terem sido axés de Xangô, e decidi pesquisar sobre esse orixá.
Então aconteceu: o símbolo de Xangô é o machado (de dois lados). Xangô come galo branco. O animal de Xangô é o leopardo. Ajerê é o nome da dança ritual em que quem está manifestando Xangô se movimenta com uma gamela de bronze cheia de algodão embebido em óleo queimando sobre a cabeça. Gavião é o animal de Aganju: no Brasil, cultuado como uma das qualidades de Xangô.
 Entendemos a mensagem.
Xangô é também o dono da coroa, símbolo de ancestralidade. Em uma consulta com Orunmilá, descobrimos que Xangô apontava um caminho para as nossas pesquisas e que estava feliz em ter esta exposição dedicada a ele, a todos os orixás e ao povo negro. Xangô é o orixá do fogo, da vida, e não está onde a morte está. Sua presença tão forte indicava, também, que esta exposição recorda a morte de todos os escravos violentados e executados no Brasil, mas que ela é plena do fogo e da vida necessários às atuais lutas do povo negro em nosso país.



Em uma das noites em que estivemos na fazenda, encontramos um desconhecido dormindo escondido dentro de uma construção afastada. Todos estavam bastante assustados quando, com calma, o abordei. Seu discurso nos fez entender que ele sofria de algum tipo de confusão mental, e, segundo o homem, ele havia chegado à fazenda no mesmo dia que nosso grupo. E tinha andado do Rio de Janeiro até ali.
Os escravos que construíram o paiol, comprados no Rio de Janeiro pela Fazenda Bom Retiro, fizeram o mesmo caminho: 190 quilômetros a pé – acorrentados.




Constantemente, a complexa teia de relações que formam a sociedade transforma – reconstruindo e reinterpretando – a memória coletiva de nossas experiências históricas. É nessa transformação que se baseia a nossa democracia. Posicionar esse paiol à frente dos olhos da sociedade, desvelando a lembrança da escravidão no Brasil, comunga da vontade de ação direta na memória coletiva e, portanto, no redesenho de nossa democracia.


 Da mesma forma, a Sala de trabalho, proposta de composição instalativa a partir de mais de uma centena de ferramentas cujos cabos foram esculpidos na forma de ossos e articulações, pode iluminar características cruéis da divisão social do trabalho que conhecemos, mas recalcamos.
Todos os objetos técnicos, em todos os domínios da atividade humana, existem como resposta a necessidades materiais fundamentais do homem. As ferramentas que formam a Sala de trabalho já marcaram a paisagem sendo utilizadas, em geral, com a intenção de aumentar a produção de alimentos. O uso no tempo retirou-lhes suas utilidades, e Afonso, ao esculpir ossos de seus cabos, dá-lhes uma nova vida: mudando sua forma de relação com o meio e com a sociedade, ganham, agora, valor de símbolo. Sendo cultura o conjunto de instrumentos dispostos à mediação simbólica que possibilita abordagens do real, esses objetos nos permitem, ao percebê-los como extensões e ampliações das funções do corpo, encontrar críticas aos contratos sociais que direcionam esses movimentos.
A hipertelia, excesso de especialização e intencionalidade nos objetos técnicos concretos, perceptível na variação da forma das partes metálicas dessas ferramentas, é, portanto, sinal de contratos sociais hipertélicos pleno em vontade de manutenção de laços de exploração.




A escultura Tronco, que dá nome a esta mostra, utiliza duas peças de madeira esculpidas como num esforço para erguer do chão o fragmento de um grande caule. Este nome faz referência aos instrumentos de tortura e humilhação muito comuns no Brasil até o século XIX. Apresenta-se, com este trabalho, a tensão entre o desejo de que “tronco” fosse apenas sinônimo de “caule” (o que recalcaria a memória da escravidão) e o desejo de reavivar a memória do sofrimento do povo negro no Brasil. Se, por algum tempo, o trabalho de Tostes jogou exclusivamente com tensões, equilíbrios e desequilíbrios entre peças de madeira, desta vez, as tensões fundamentais a esta mostra são também sociais, históricas e culturais.

A instalação Articulação, por sua vez, é o desenho do desejo de anunciar uma vitória. Sendo composta por oito telas e uma pintura sobre parede, baseia-se na Oréstia, trilogia trágica de Ésquilo, que, em um importante trecho, narra a chegada a Atenas da mensagem da vitória em Troia. Nove fogueiras foram acesas – uma a uma – nos topos de ilhas e montes, repassando a mensagem de que a batalha fora encerrada com glória. Mesmo que sejamos capazes de reconhecer que existem recentes vitórias para a população negra brasileira, o legado escravocrata ainda é forte demais, e esta exposição deseja poder anunciar mais.
Como já foi dito, Ajerê é o nome da dança ritual em que quem está manifestando Xangô caminha com uma gamela contendo algodão em chamas sobre a cabeça. Chegará o dia em que, de ajerê em ajerê, levaremos à África a mensagem da vitória do povo negro no Brasil.




Na abertura da exposição, convidamos o coletivo Treme-Terra, composto por Aderbal Ashogum e mais uma dezena de percursionistas, para celebrarmos de acordo com a tradição africana. Como uma surpresa, o grupo chegou à Casa França-Brasil acompanhado por quatro bailarinas especializadas em dança africana e pela Mãe Beata de Iemanjá, uma das maiores personalidades do Candomblé no Brasil, Yalorixá líder do terreiro Ilê Omi Oju Aro.
A primeira música foi tocada para os eguns (mortos) ligados ao paiol. A terceira música foi dedicada a Oxum. Enquanto muitos choravam, quase todos os presentes moviam o corpo ritmadamente para essa linda orixá que adora quando dançam para ela.
Há 250 anos, africanos escravizados construíam um paiol no interior de Minas Gerais, que durante mais de um século assistiu aos seus trabalhos forçados e à proibição da prática de suas culturas. Gerações violentadas e dois séculos depois, o paiol foi desmontado. Durante meses, trabalhamos juntos para erguer essa construção dentro da Casa França-Brasil. Nessa noite de abertura, o paiol – novamente de pé – assistiu a negros brasileiros livres dançarem, cantarem e afirmarem que existem, sim, algumas vitórias, mas que a luta do povo negro está ainda longe de seu fim.
É política e magicamente irreversível: nossa exposição montada, o público presente, o coletivo Treme-Terra tocando seus atabaques e a octogenária Yalorixá Mãe Beata de Iemanjá dançando descalça no chão da Casa França-Brasil, apontando seus dedos cheios de anéis para o paiol.


As exposições individuais de Afonso Tostes, como seus trabalhos, nunca se limitaram à mera experimentação formal; porém, nesta mostra, o artista alcança o encontro pleno entre suas pesquisas de materiais e técnicas e seus interesses críticos e conceituais. A grande força de Tronco vem do reconhecimento de que o trabalho que apresentamos é fruto de uma demanda social estritamente ética.







[1] Nas entrevistas com descendentes de escravos em busca de registros de história oral, era frequente ouvir a expressão “naquela épa” significando “naquela época”.

Nenhum comentário: