terça-feira, 18 de março de 2014

Crítica: Rupestre Contemporâneo (Nadam Guerra, Galeria de Arte Ibeu, 2013)

(ao meu amor)

O Grupo UM foi fundado em 2003 por Nadam Guerra e Domingos Guimaraens e reunia artistas em exposições com “motes” como “Teatro Abstrato”, “Humanogravura”, “Escultura Imaterial”, “Performance Fotográfica” e “Chanchada Conceitual”. Seu manifesto fundador revelava o interesse comum dos participantes na chamada “arte viva”: “Tudo é Um. Arte é Um.”. Com dinâmica de reuniões regulares e experiências expositivas temáticas sem curadores, o grupo chegou a ser formado por quase 20 artistas. Entre os participantes: Nadam Guerra, Carlos Eduardo Cinelli, Jaya Pravaz, Julia Csekö, Joana Traub Csekö, Löis Lancaster, Pedro Seiblitz, Natalia Warth, Tissa Valverde, Marina Dain, Moana Mayall, Bruno Castello, Ophélia Patrício Arrabal, Cristian Caselli e Luiz Lopes, além de Daniel Toledo e Domingos Guimaraens, que viriam a fazer parte do coletivo OPAVIVARÁ!. Como convidados, participaram, entre outros, Roberto Alvin, Alexandre Sá, Andrea Jabor, Debora 70, Amélia Possidônio, Leila Lessa, Tato Teixeira, Livia Rosa Freitas, Elaine Thomazzi e Ricky Seabra.
O Grupo UM, como o Grupo Py e outras experiências radicais de ocupação de espaços alternativos para arte contemporânea (como os Orlândias), teve sua origem numa época em que havia muito menos espaços expositivos institucionalizados e editais para fomento de arte contemporânea no Rio de Janeiro. Essa exposição comemora os primeiros 10 anos do Grupo UM.
Porém, essa não é uma mostra retrospectiva. Todos os trabalhos que compõem “Rupestre Contemporâneo” são inéditos e resultados das relações entre os artistas que compõem essa nova formação do Grupo UM: Nadam Guerra, Domingos Guimaraens, Aline Elias, Leo Liz, Juca Américo e Euclides Terra. Com origens geográficas, idades, posicionamentos políticos, poéticas e interesses bastante diversos, esses artistas se reúnem regularmente há dois anos elaborando as parcerias cujos frutos encontramos nessa exposição.
Nadam e Domingos são os únicos que participaram desses 10 anos ininterruptamente. Domingos é poeta, artista visual e faz parte desde 2008 do coletivo OPAVIVARÁ!. Nadam Guerra tem uma produção extensa e muito heterogênea. Já desenvolveu trabalhos de cinema ao vivo, vídeo arte, performance, arte relacional, cerâmica etc. É um dos fundadores da ecovila Terra Una e um dos organizadores do festival de arte vida V::E::R.
Pode talvez não parecer, mas acredite: essa é uma mostra individual de Nadam Guerra.



“Nadam Guerra é um artista contemporâneo carioca. Há mais de uma década, vem investigando um apertado emaranhado entre identidade, relações e narrativas. Por sua produção ser muito heterogênea e por ele não ter sido muito visto nos eventos da cidade, alguns duvidam se ele existe de fato ou se é um trabalho do Grupo UM. Outros dizem que ele se faz de muitos e de outros para agrupar o tanto que transborda dos limites muito apertados por uma existência só.
Sonhei com ele quando tomei Ayahuasca. Veio um anjo, e estava lá ele embaixo da asa do outro. Depois um índio me apresentou à sua mãe. É bem louco isso, mas é verdade. Alguns dias depois, com tantas dúvidas rolando por aí, por um momento, eu desconfiei que eu havia inventado Nadam, mas eu não inventaria esse sobrenome Guerra. Não mesmo. Nada contra, mas eu seria menos literal.
“Nadam” não: esse eu poderia ter escolhido como nome para um personagem. É ótimo. É esquisito, e ninguém duvidaria de que é real. Nenhum personagem inventado tem um nome estranho desse. Se fosse José Carlos, as pessoas poderiam duvidar.
De todo modo, logo depois tive medo de ter sido inventado e manipulado por ele. Tem esse lance: quando a pessoa não cabe em si, não cabem também seus artifícios. Real ou não, Nadam é uma figura cativante e encantadora: um verdadeiro interessado na expansão do espaço compartilhado entre a arte e a vida. Amante da matéria viva e da matéria coisa. Materializador de sonhos e desmaterializador de limites. Como ele mesmo diria:
- Quando a arte é boa, é vida. Quando a vida é boa, é arte.”


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