segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Crítica: Elisa Castro: "EU QUERO VOCÊ"
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Crítica: Gilvan Nunes: Janela: o respingo entre o desejo e a escusa.
Crítica: Opavivará!: Da gente: Comer revolucionário!
domingo, 30 de setembro de 2012
Crítica: Joana Traub Cseko: Passagens Copacabana
Crítica: Trepa-Trepa no Campo Expandido
[ao meu amor]
Eu escrevi um texto, retirei as palavras e tatuei em minhas costas a pontuação restante. Eu enrolei e fumei o que havia dentro daquelas baganas. Numa manhã, ao gozar sobre o lençol vermelho, com a mão dele sobre a minha, percebi o que lhe falta. Eu chorei. Eu aprendi muito sobre o amor. Eu percebi muitas coisas mais importantes do que arte. Eu te mostrei todos negando o que nós sentíamos pulsar. Eu vi vida onde não é vista, quis dar brilho a seus olhos. Com envolvimento, oferecer o que você quiser e lhe convidar a sentar bem perto. Eu quis criar com você. Eu quis andar com você. E era eu mesmo, inteiro, ali.
*
Atenção, meus convidados: este lugar em que estamos é para ser vivido. Olhe nos olhos da pessoa a seu lado. Mesmo se não a conhecer, gentilmente, pegue sua mão. Se não tiver coragem, mas se alguém mais vivo lhe tocar, aceite carinhosamente.
Aqui, troquem fluidos, mas não troquem cartões de visita.
Esta mostra é resistência. Sem ignorar as históricas tentativas de um imponderável e empoderado grupo hegemônico de frustrar ou ocultar a marginalidade, o hedonismo, o pulsar, a fragilidade, a alegria e, principalmente, o tesão de nossos melhores artistas [em vida e obra]; exibimos, aqui, diferentes sinais, sintomas, fragmentos ou flagrantes de vida neste latifúndio Arte tão impropriamente [in]utilizado pela nociva terceira pessoa.
Nestes tempos de medo e euforia alimentados,”Arte e Vida” é repetido à exaustão, sem que se perceba que este ”e” junta, mas separa. Os trabalhos aqui assinalam a vida, são obras de artistas que dessacralizam a arte e/ou sacralizam a vida, aproximando as duas à con-fusão geradora.
Alguns destes trabalhos são frutos da incoerência entrópica de quem diz, pela arte, que o importante está fora dela [e este nó é o primeiro sintoma de toque de universos não paralelos]. Outros trabalhos são testemunhas, reflexos ou reflexões de situações vividas pelo artista. Outros, ainda, são resultados de propostas afetivas ou relacionais feitas pelo artista a si mesmo ou ao público.
Estes trabalhos se aproximam por seus posicionamentos, não por questões formais. O trepa trepa no campo expandido abraça obras que apresentam, como tudo aquilo que é de melhor, um alto “coeficiente vital”.
Meus convidados, lancem-se sobre a vida com a pele atenta e os olhos cerrados e, como estes artistas, tomem a experimentação constante de cada escolha e ação como um compromisso leal e justo com suas próprias existências.
Crítica: Felipe Fernandes
Crítica: Analívia Cordeiro e João Penoni: O Corpo é a Mensagem
Na Revista Bamboo: OPAVIVARÁ!
OPAVIVARÁ! É um coletivo carioca ativo desde 2005. Sua formação relativamente estável e não- divulgada e o compromisso de fé e prioritário de/entre seus membros diferencia este coletivo de outros que podem funcionar como base descartável para voos solos. Mesmo sendo constituído por seis artistas com pesquisas próprias, a prática semanal de reuniões presenciais com todos os membros do grupo para leituras, estudo, discussão e criação (ultimamente, chegando a três ou quatro vezes por semana) possibilita que o coletivo tenha poética densa, coerente e independente das de seus membros.
O OPAVIVARÁ! (conhecido, intimamente, como “Opa”) tem forte posicionamento político que se manifesta pela forma de uma alegre e séria cruzada na defesa do prazer, da fraternidade, do encontro e da coletividade como caminhos para novas formas de cidadania e habitação.
Atuando diretamente na proposição de atividades cotidianas alteradas e na criação de espaços envolventes que direcionam o público de maneira carinhosa e desafiadora, o coletivo incentiva o uso consciente do corpo como meio, mensagem, símbolo místico e, principalmente, fonte de graça, comunhão e prazer.
Transportando o ateliê para os lugares de uso comum e transformando-os em matéria de seu trabalho, o OPAVIVARÁ! confunde, na praça, na praia, na cozinha, no mato, na rua, no bar etc., espaço para vida e lugar de arte, papel de propositor e ação de participante. Construindo laboratórios horizontais de ressensibilização, o coletivo entende que, neste mundo onde vive gente, ativar críticas e maravilhamentos na vida e na arte é um possível e generoso papel social.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Crítica: Claudia Hersz: Paisagem: Como se faz
Adentra-se uma casa e se percebe a sair em viagem. Aqui, de onde vemos ali, aos poucos, nos encontramos no difícil papel de ser o outro do outro. Aparentemente, remissionando à francesa, Claudia Hersz atualiza o jogo da representação e localiza toda a memória do futuro que possa haver nessa poderosa fantasia do presente.
No estranho momento em que o Rio de Janeiro se faz embevecido pelo reflexo de sua própria face na Baía de Guanabara (podendo não notar que se ajoelha sobre um formigueiro), constata-se a pertinência e conveniência da herança do autocrítico humor judaico que dá o tom desta mostra. Contudo, a energia afetiva que move este tapete e inspira esta exposição tem como motor imóvel o maravilhamento por essa trajetória familiar ter chegado aqui – e, não exatamente, por ter se originado acolá. Mas, como se sabe, ninguém deve esquecer bagagem no aeroporto.
Quem viaja nestes tapetes voadores do Saara carrega tempo naquela caixa e nos livros, links e hiperlinks. Quem vive nesta casa vê, ao longe, o que, por agora, parece ser a linha de chegada - e do horizonte. São miragens, projeções, revelações, criações, críticas e edições de quem viaja enquanto vigia. Como é incrível ter passado nesse lugar!
Dona Fryderika, sentindo a nuvem de chumbo pesar sobre os judeus da Hungria, trocou tudo por Nilópolis. A tristeza que viveu e viu foi reflexo nítido naqueles úmidos olhos - até quando, assassinada, os fechou pra sempre. As fotos de Vovó Fryda estão na caixa. Claudia Hersz cresceu ao som de iídiche em casa, brincando no pátio da igreja vizinha e temendo o dia em que seria catequizada à força. A complexa condição da dupla nacionalidade judaico-brasileira fez de Claudia uma estrangeira nativa, cuja mezuzah, palavra de Deus, é um mecanismo musical que, ao girar a manivela, toca “hava naguila, hava naguila, hava naguila, ora iê iê ô Oxum”.
O próprio corpo de Deus está aqui. Carregado, líquido, no “Salade - Petite Hommage a N.L.”, tem cheiro de flor de laranjeira, toque de mão de mãe e cor de ouro de Rosa. Se tapete voador fosse peça de batalha naval, estaríamos no C 20. Mas não estamos pra esse jogo.
Em Khaza - título que faz referência aos Khazares, povo asiático europeu convertido ao judaísmo no século VII, origem dos ashkenazim e da família de Hersz -, não há detalhe que não se endereçam a olhos curiosos. Claudia é uma artista que, sem proselitismos, acredita no fazer, na habilidade, no capricho, no detalhe e no uso de toda e qualquer técnica e material que à mão, ao cérebro e ao coração se oferecem.
Se o movimento resultante de tudo isso é de desbravar o desconhecido continente tempo, nestes trabalhos, atravessamos dois níveis de tempo: o da história social e cultural e o das narrativas individuais. Nesta exposição, são criados teia rítmica e tecidos temporais, construídos a partir de links que nos transportam a (des)memórias, (con)vivências, criações, transcendências e (in)existências. As tapeçarias-pinturas que flutuam no espaço (sem saber de onde e para onde abrem suas janelas) foram cosidas, cozidas e ressituadas. As imagens que, um dia, estrangeiros usaram para explicar sociedades, seus espaços e costumes rugem das feiras de antiguidade e, se, depois do cajado de Abraão, são novas, os mundos são novos.
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Crítica: Leo Ayres: O grande escândalo num sussuro de Tirésias
(ao meu Amor sempre - e que vírgula nenhuma separe Amor e sempre.)
Acteon, um ilustre caçador grego, desviando-se de seu caminho em meio aos ciprestes, penetrou, bravamente, uma encantadora gruta em busca de animais escondidos. Por um acaso, surpreendeu a deusa Diana, irmã de Apolo, nua em banho. Sempre orgulhosa de sua resistente castidade, vingou-se, transformando Acteon em um cervo - com chifres, cascos e pelos – para que este não pudesse espalhar os relatos de sua recente e inédita experiência visual. Voltando, assustado, ao seu trajeto inicial pela floresta, o caçador foi devorado, como veado, por seus próprios cães de caça.
Foi este mito grego a primeira inspiração da presente exposição, em que o artista carioca Leo Ayres faz-se um Acteon: sendo sujeito de uma caça ao outro, torna-se objeto por seu próprio voyerismo.
A origem naquele jogo de transformações mitológicas criou estranho fenômeno real: neste lugar onde pisamos, somos tomados por espíritos. Não que Leo quisesse isso. Nem que não quisesse. Mas eles vêm. Com os olhos fixos na pequena caixa negra, que exibe registros feitos através de um olho mágico, sou um obsessivo observador dos rituais privados de um vizinho entre a porta de sua casa e a do elevador. No restante da exposição, estou dentro do ambiente privado no qual, curioso, investigo vestígios do que já houve aqui. Se era outro ou se era eu, é difícil saber; mas alguém esteve com os pés sobre estes tapetes de banheiro. Talvez fosse a mão do outro que, pela falta de uma falange, revelasse minha presença sob ele. Ou o contrário. No recorte deixado por um espelho, surge um olho que pode ser meu ou seu ou dele. Neste espelho, estou refletido você nu segurando a câmera que te fotografo no espelho em que apareço sozinho.
No tapete ou sobre a mesa, trepamos todos naquela árvore - ou fora dela. O jogo continua até quando os corações de copas pingam em gotas e deixam peito aberto; até quando as cartas dadas são de paus vermelhos. Até mesmo quando sumo em um fundo de parede. Então, alguém me sussura na língua de Tirésias, melhor do que eu poderia dizer: "O que você quer mais? Eu já arranhei minha garganta toda atrás de alguma paz. Aprontei demais - só vendo! -, mas, agora, faz um frio aqui. Me responda, tô sofrendo: Dou gargalhada, dou dentada na maçã da luxúria - Pra quê? Se ninguém tem dó, ninguém entende nada! O grande escândalo sou eu aqui, só!"
Nesta casa, você precisa estar perto para ver, para ouvir. Tudo pede relação, tudo pede atenção, tudo implora por afeto: desesperado por existir. Antes que eu voltasse a qualquer coisa, sua voz sai de minha boca, na língua de Tirésias, dizendo: “A casa está bonita. A dona está demais. A última visita, quanto tempo faz? Balançam os cabides, lustres se acenderão: O amor vai pôr os pés no conjugado coração. Será que o amor se sente em casa? Vai sentar no chão? Será que vai deixar cair a brasa no tapete coração? Quando aumentar a fita, as línguas vão falar que a dona tem visita e nunca vai casar. O amor já vai embora ou perde a condução. Será que não repara a desarrumação? Que tanta cerimônia se a dona já não tem vergonha do seu coração?"
O espírito, por vez, vai embora.
A escolha do título “Como Eu” para sua primeira mostra individual em São Paulo expõe um triplo sentido que revela a centralidade da primeira pessoa (pela comparação), a divulgação não vulgar de um seu privado (pela ação) e sua vontade de teor poético (pela própria construção). Esta mostra tem escala e aura domésticas, além de um vulto de uma latente presença cuja quase existência é narrada pela ausência que se sente. Naquilo que lhe falta, sentimos tudo que há ali: intimidade, circularidade, rumor, devir, camuflagem, fusões e um respeitável destemor de se falar de afeto, de amor, de si e do outro.
sexta-feira, 25 de março de 2011
Crítica: Rocio Gordillo: Apropriações Perversas
(ao meu amor)
Moscas, pulgas, traças, piolhos, cupins, formigas, baratas, percevejos. Sendo sinais comuns de transmissão de doenças e destruição de alimentos e construções, os insetos são animais que, em geral, provocam asco, aversão ou pânico.
Porém, desenvolvendo, empiricamente, sua poética de representações não-ideais que vem construindo desde o início de sua produção, a artista mexicana Rocio Gordillo apresenta, nessa mostra, insetos instigantes, fora de seus estados e habitats naturais.
Tendo ganhado a bolsa anual para “jóvenes creadores” do Fondo Nacional Para La Cultura Y Las Artes (FONCA, a mais importante instituição de artes de seu país), Gordillo pode viver o ano de 2010 produzindo no Brasil. A presente exposição “Apropriações Perversas” é o resultado desta experiência.
Há muitos anos, pouco tempo após ter deixado a carreira de estilista para se iniciar como artista plástica, uma outra viagem se mostrou decisiva para os rumos de sua produção: os 3 meses que passara na Índia foram suficientes para que Rocio se encantasse pela noção filosófica popular da mutabilidade do ser por seus diversos estados.
A partir de então, Gordillo se empenharia, cada vez mais obcecada pela estética realista, em criar retratos fora das condições ideais de representação.
Se, na história da arte ocidental, a representação já possuiu intenções das mais diversas (ritual-religiosa, político-ideológica etc.), na obra de Rocio, ela alcança teor irônico e, de certa maneira, com humor autocrítico.
No caso das obras desta exposição, a artista cria cenas em que sobrepõe insetos a obras de arte contemporânea. A seleção das obras que seriam retratadas aconteceu, em parte, como homenagem a artistas que muito a influenciaram e, em parte, pelo humor resultado da aproximação incomum dos dois elementos.
Essas composições geraram narrativas que podem suscitar diversas relações possíveis de ideias. Acreditando na arte como forma humana de autoconhecimento, Rocio insere cenas do sexo animal livre de moral. Outras analogias possíveis se dão com as próprias funções biológicas desses animais:
-sendo parte importante da cadeia decompositora (de matéria orgânica em inorgânica) da natureza, são boas metáforas da cadência informativa do processo de reprodução/representação;
-sendo parte fundamental da reprodução cruzada vegetal, são boas metáforas da maneira pós-histórica pela qual os artistas contemporâneos lidam com o abundante passado.
Essa série de curtos-circuitos temporais e espaciais que as selecionadas referências de Rocio Gordillo fazem também tem intensão de questionar as máscaras do belo e do feio (no caso, dos grotescos insetos) que escondem as diversas camadas sociais e de sentido das quais somos formados.
Se esses trabalhos tornam explicita, também, a questão de “Por que se faz arte?”, a saída de Rocio de um Brasil em aparente ascensão para um México em sensível crise, certamente, trará novos componentes para sua produção.
Ainda apaixonado e muito interessado, daqui, de baixo, acompanho.
Crítica: Bernardo Ramalho: "A Festa no Céu e as Rosas"
(ao meu amor sempre)
Atenção! As instruções são claras em sua desobjetividade: é preciso ter olho atento e bobo para ver bem sentida esta exposição do Bernardo Ramalho.
Conheci meu xará nesta mesma sala, me oferecendo, ao eu desconhecido, uma maçã-do-amor durante aquela que foi sua gentil primeira individual. Num dos luminosos trabalhos apresentados logo atrás de nós, lia-se “CÉU”, e a clara imagem de uma escada deixava virtualmente possível um caminho até chegar.
Aqui chegamos.
Estamos na Festa no Céu.
Na biblioteca que constrói para as crianças de Lagoinha (São Gonçalo – RJ), chegou à sua mão um livro com a fábula da “Festa no Céu”. [O mundo todo vem muito à mão de Bernardo.] Tirando o enredo, sobrou o título:
A Festa no Céu e as Rosas:
São as rosas desse leite que jorra em rosa chafariz; as rosas que não falam; a rosa que ,pétala a pétala, despetalirosada; a rosa que o tigre carrega; a rosa que é uma rosa que é uma rosa que é uma rosa.
Os objetos, palavras e figuras trazidos e/ou construídos são esvaziados, inicialmente, de seu poder de simbolismo. É, em cama rasa, a iconoclastia mais inocente e sensual que já se ouviu mostrar:
O Sant’Antônio em prateleira de autorretratos, na verdade, é, nas palavras de Ramalho, “um menino loirinho de olhinhos azuis no colo de um homem”. (nota do editor: sublinhe a palavra “carinho” nesta frase).
O sal grosso e o carvão no chão são sal grosso branco e carvão preto no chão. O azul lavado de cal na parede é de um céu de metileno. A lua irônica, que talvez não esteja em casa, deixou as espadas do São Jorge que vieram esposando a samambaia.
O Anjo roda ao som do Rei. O coentro cheira aqui em cima. O leite de lá cheira a rosa.
Há, sem dúvida, algo de surreal vindo dali: é o começo do sono, é o sonho do sol, é o cavalinho e a cabeça de boneca. Mas, agora, falando em Bernardo, o surreal é pós-tropicalista: abraça o marginal e o espetáculo do carnaval.
Há muito Deus aqui: Santíssima Trindade; Pai, Filho e ES; Edmilson, Jarbas e Neto; Iemanjá, São Miguel e Buda – mas a guia no pescoço do artista “é um cordão que eu fiz de miçanga”.
Atenção! As instruções são claras! Olho bobo e atento! É uma criança que quer transformar o mundo. Sem piscina ou janela, é para abrir bem os braços e ouvir a história.
Crítica: Pedro Victor Brandão: Esquecer, Explodir, Assinalar.
(ao meu amor)
Eu estava indo dormir. Pedro estava acordando. Ou o contrário. Nós nos cruzamos, nesse começo de manhã, na cozinha de um albergue na Grande Pinheiros que é São Paulo. Após 5 minutos de conversa, surgiu a questão: “Seria a guerra a arte levada às últimas conseqüências?”.
Os trabalhos de Pedro Victor Brandão apresentados na exposição “entre-vistas”, realizada em função da conclusão do Curso de Aprofundamento da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, podem ser considerados (se atentamos à radicalização da (re)ação sobre o que se muito acredita) bombas-relógio que utilizam poética artística como explosivo.
Um dos trabalhos apresentados, continuação da série Alicerce Infiltrado, é um conjunto de 10 fotografias, que mostra colônias de liquens que se desenvolveram sobre paredes infiltradas da própria Escola. São processos simbióticos de bactérias e fungos que, aproveitando a instabilidade de um certo meio, criam, coletivamente, a estabilidade necessária para sua vida e reprodução. A técnica apurada, precisa e certeira resulta no registro de caóticos, coloridos e numerosos melanomas que podem ocultar metástase óssea ou cerebral.
Sendo parte de uma turma que, particularmente, muito discutiu a própria instituição onde estudou, Brandão sabe que sua criação de novos curtos circuitos de olhares é uma forma de Ação de grande potência transformadora.
O outro trabalho exposto na mostra, Sem Título #2 (Tempos Autorais), da série Curta, é uma fotografia em gelatina e prata não fixada que comenta as comemorações pelos 300 anos da primeira lei de copyright (Statute of Anne Reginæ), colocando lado a lado, à presente lei dos direitos autorais brasileira: uma das mais restritivas do mundo. A comparação anuncia a estranha e enorme semelhança. Sem a utilização do fixador, em 40 dias, a imagem, exposta ao sol, desaparece.
Na parte superior da imagem, a escala de cinza é uma escala de tempo: é o contador da bomba poética relógio que tem seus vestígios vetorizados na concepção. Quando a diferença entre o que era preto e o que era branco não existir, acabará o pavio.
Pedro gera seus trabalhos como estudos estéticos, mensagens criptoparanoigrafadas transformadoras, obras poderosamente efetivas e afetivas que, talvez, pretendessem a inexistente imaterialidade, mas, de fato, alcançam a impermanência física.
Brandão torna explícita a luta frustrada pela fossilização do tempo. É ainda a velha luta do homem contra seu fim inevitável. Mas a transformação fortalece! O monumento institucional com todas suas forças de conservação não vence a vida que corre. São os liquens que colorem o cinza monumental criado a eternizar suas intenções ideológicas de origem. São as imagens que “findas, muito mais que lindas, ficarão”.
Um tempo depois, eu estava indo em direção à praia e Pedro estava voltando. Ou o contrário. Nesse encontro, em maresia carioca, discutíamos, bobos, sobre artista e contemporâneo. Ele já acreditou a atividade artística como solitária. Eu não acreditei. No final, chegamos a que o artista com atividade, em real, contemporânea não seria tão apenas um assimilador de seu tempo (“antena da raça”). O artista contemporâneo deve ser um assinalador de obscuridades atuais.
Com os trabalhos expostos nesta mostra, Pedro assinala o esquecimento como entidade ontológica, como prática necessária e como processo inevitável. Brandão mescla a imagem endógena do apagamento à imagem exógena do apagar. Ao enquadrar o esmaecimento, mas sem emoldurá-lo, deixa claro que o processo acontece em todo espaço. Ele evidencia, ainda, o paralelo entre a memória e a imagem, o apagamento e o esquecimento e o faz costurando as questões universais do homem às questões locais e temporais em que vive.
Eu reclamei, ainda na beira da praia, e ele assumiu: “Sim, esse sentido de permanência é bem crítico e tolerante. Estávamos falando de um tempo possível, passado ou futuro. A atividade solitária era aquela do artista que cria imaginários, percebe obscuridades e as assimila historicamente. Era. Agora, condividimos nossa ética e estética.”
Ah bom! Pelo menos, é isso que “agora me lembro. Antes me lembrava outro. Dia virá em que nenhum será lembrado. Então no mesmo esquecimento se fundirão.”