(ao meu amor)
Mensagem de Facebook aberta de B Mosqueira à Paula Gaitán
Paula querida,
Fui ontem à noite ao cinema de Botafogo. Posso dizer que ainda não me recuperei totalmente da experiência.
Seu filme é lindíssimo. É uma grande poesia audiovisual que não é lida (e com a qual não se lida) pela linguagem, não nos atinge exatamente pelo verbo.
Seu trabalho é um diário composto na estética, nos sentidos. Não é escrito no roteiro da razão. É desenhado na retina, esculpido na pele, tocado nos tímpanos.
Sendo memória, nunca vi no cinema alguém ter entendido (e ter explicitado) tão bem a (des)estrutura da memória: (des)construção em fragmentos, detalhes e recortes que se sobrepõem, justapõem, dilatam, latejam, pulsam, pulam, somem, somam, sopram, surdam, si.len.ciam.
((...))
Há memória morta, há memória viva. Há retratos gastos, reflexos flâmeos, fantasmas mastodônticos, uma gravada família cuja juventude uma cidade assimila. Sintra assimila Glauber, Sintra assimila você, você assimila Sintra. O resultado é a verdade semi-imaginária que eu habitei.
Sendo cinema, poucas vezes vivi tão em coletivo um sonho. Agora, com a sensação de quem desperta a contragosto, ainda me tenho (e talvez sempre terei) parte imerso nessa realidade transcinematográfica de um passado (não meu, mas) re.visto, re.ouvido, re.tocado, re.sentido, re.vivido, re.agido. Tudo que você investe e investiga sobre um seu momento (in)certo, mantêm ativas, por algumas eternidades, nossas terminações nervosas que nos fazem encontro ao mundo.
Neste texto, ainda respiro contigo num vento de Sintra.
Uma rara qualidade de sensível (e a doçura?) conseguiu encontrar (amém!), além de uma ótima vontade de mostrar, uma louvável capacidade técnica e uma feliz cornucópia teórica. Por isso, e com uma equipe no afeto e na eficiência, você produz o que há de incrível no cinema brasileiro.
Sem intenção de ser verdade ou mentira e usando sua “montagem à distância”, você fornece ao mundo memória tecnologicamente produzida que coletivamente partilhamos.
Por isso, ainda estou a procurar a viagem de volta de sua Sintra, para aonde seu filme me carregou. Talvez não haja como voltar. Como memória, talvez não haja como esquecer.
In MC we trust (por 7A)
Há 15 anos
Um comentário:
Nossa!
vc escreve de fato muito bem!
Faço das suas as minhas palavras....tb amei o filme!
Andrea Velloso
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