(ao meu Amor)
Amanda Mei: Cenários do Absurdo Obsceno
“Com o tema das gavetas, dos cofres, das fechaduras e dos armários, vamos retomar contato com a insondável reserva dos devaneios da intimidade.” (Gaston Bachelard – A Poética do Espaço)
Amanda Mei afirma construir sonhos; diz produzir aquilo que não está para os outros, mas é pleno ainda apenas na virtualidade das próprias fantasias. Nesta exposição, a artista agrupa séries distintas de trabalhos que têm em comum, principalmente, três fatores: os desejos, os transportes e a inconformidade.
Para uma das séries, a artista percorre a cidade de São Paulo atrás de fragmentos; caça recortes rejeitados pela sociedade do excesso; coleta, de maneira imprevisível, objetos que se chocam com os croquis de Amanda para se transformarem em arte.
Nosso corpo é adestrado pelo olhar. Quando visualizamos esses fragmentos de objetos diários funcionais frankensteiniados e ressignificados como objeto de arte, percebemos que já deixamos de poder exercer, sobre eles, nossa atividade intuitiva-memorizada que fora planejada por nossos semelhantes ao projetarem suas funcionalidades tão explicitas em suas formas físicas.
Se reconhecemos nosso lugar no mundo ao descobrir os papeis do Outro, quando nosso Outro entorno passa a ser formado por mistos objetos-sujeitos deslocados de suas habituais e introjetadas condições funcionais, passamos a desconhecer as direções de nossos vetores de existência/atividade. Consumidores insaciáveis de imagens fáceis, somos tirados do conforto e perdemos a capacidade de localização de nosso centro intimo e de suas teias relacionais. Assim, somos jogados na direção da descoberta (ou da análise) do lugar além-espacial que ocupamos. E que tanto interessa à Amanda Mei.
Há certa discussão estética e ontológica no pano de fundo dessa série. Esses objetos-sujeitos projetados carregam, a principio, a fatalidade de sua única destinação. Porém, Amanda nos dá contato com situação que indica outra função possível. Mas, ao invés de aceitarmos a mutabilidade dos objetos, acreditamos em sua nova e fatalmente única possível destinação: objetos de arte.
Outra série dessa exposição é formada pelas pinturas sobre papelão, madeira ou placas de metal. Segundo a artista, suas pinturas são como sonhos que ainda não se realizam: são projetos do que ela gostaria de produzir, um dia, em grande escala. Caixas de papelão são planificadas e, sobre elas, são pintadas imagens de móveis que nos confundem ao se projetarem, por jogos de perspectiva, no espaço expositivo. Sem grandes variações cromáticas, cenários de absurdo obsceno são pintados, também, sobre madeira ou metal.
A série que encerra este texto é formada por fotografias. Há alguns anos, foi sobre esta plataforma que a artista começou sua pesquisa. As fotos nesta exposição mostram miniaturas de cadeiras postas em diferentes locais e situações. Assim como para todos os demais signos comuns - nesta exposição reorganizados e ressignificados em possibilidades, desconhecimento e desejos - somos conduzidos a imaginar criativamente um outro homem que se relacione, em suas (im)possibilidades outras, com as tais cadeiras.
“O armário e suas prateleiras, a escrivaninha e suas gavetas, o cofre e seu fundo falso são verdadeiros órgãos da vida psicológica secreta. São objetos mistos. Objetos-sujeitos.” (Gaston Bachelard – A Poética do Espaço)
Um comentário:
Bernardo: Um texto elegante, sem firulas, que enriquece o trabalho da artista. Abraço Marcio
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